Tu queres sono: despe-te dos ruídos, e
dos restos do dia, tira da tua boca
o punhal e o trânsito, sombras de
teus gritos, e roupas, choros, cordas e
também as faces que assomam sobre a
tua sonora forma de dar, e os outros corpos
que se deitam e se pisam, e as moscas
que sobrevoam o cadáver do teu pai, e a dor (não ouças)
que se prepara para carpir tua vigília, e os cantos que
esqueceram teus braços e tantos movimentos
que perdem teus silêncios, o os ventos altos
que não dormem, que te olham da janela
e em tua porta penetram como loucos
pois nada te abandona nem tu ao sono.
Ana Cristina Cesar
sexta-feira, 16 de abril de 2010
quinta-feira, 8 de abril de 2010
História passional, Hollywood, Califórnia
Preliminarmente, telegrafar-te-ei uma dúzia de rosas
Depois te levarei a comer um shop-suey
Se a tarde também for loura abriremos a capota
Teus cabelos ao vento marcarão oitenta milhas.
Dar-me-ás um beijo com batom marca indelével
E eu pegarei tua coxa rija como a madeira
Sorrirás para mim e eu porei óculos escuros
Ante o brilho de teus dois mil dentes de esmalte.
Mascaremos cada um uma caixa de goma
E iremos ao Chinese cheirando a hortelã-pimenta
A cabeça no meu ombro sonharás duas horas
Enquanto eu me divirto no teu seio de arame.
De novo no automóvel perguntarei se queres
Me dirás que tem tempo e me darás um abraço
Tua fome reclama uma salada mista
Verei teu rosto através do suco de tomate.
Te ajudarei cavalheiro com o abrigo de chinchila
Na saída constatarei tuas nylon 57
Ao andares, algo em ti range em dó sustenido
Pelo andar em que vais sei que queres dançar rumba.
Beberás vinte uísques e ficarás mais terna
Dançando sentirei tuas pernas entre as minhas
Cheirarás levemente a cachorro lavado
Possuis cem rotações de quadris por minuto.
De novo no automóvel perguntarei se queres
Me dirás que hoje não, amanhã tens filmagem
Fazes a cigarreira num clube de má fama
E há uma cena em que vendes um maço a George Raft.
Telegrafar-te-ei então uma orquídea sexuada
No escritório esperarei que tomes sal de frutas
Vem-te um súbito desejo de comida italiana
Mas queres deitar cedo, tens uma dor de cabeça!
À porta de tua casa perguntarei se queres
Me dirás que hoje não, vais ficar dodói mais tarde
De longe acenarás um adeus sutilíssimo
Ao constatares que estou com a bateria gasta.
Dia seguinte esperarei com o rádio do carro aberto
Te chamando mentalmente de galinha e outros nomes
Virás então dizer que tens comida em casa
De avental abrirei latas e enxugarei pratos.
Tua mãe perguntará se há muito que sou casado
Direi que há cinco anos e ela fica calada
Mas como somos moços, precisamos divertir-nos
Sairemos de automóvel para uma volta rápida.
No alto de uma colina perguntar-te-ei se queres
Me dirás que nada feito, estás com uma dor do lado
Nervosos meus cigarros se fumarão sozinhos
E acabo machucando os dedos na tua cinta.
Dia seguinte vens com um suéter elástico
Sapatos mocassim e meia curta vermelha
Te levo pra dançar um ligeiro jitterbug
Teus vinte deixam os meus trinta e pouco cansados.
Na saída te vem um desejo de boliche
Jogas na perfeição, flertando o moço ao lado
Dás o telefone a ele e perguntas se me importo
Finjo que não me importo e dou saída no carro.
Estás louca para tomar uma coca gelada
Debruças-te sobre mim e me mordes o pescoço
Passo de leve a mão no teu joelho ossudo
Perdido de repente numa grande piedade.
Depois pergunto se queres ir ao meu apartamento
Me matas a pergunta com um beijo apaixonado
Dou um soco na perna e aperto o acelerador
Finges-te de assustada e falas que dirijo bem.
Que é daquele perfume que eu te tinha prometido?
Compro o Chanel 5 e acrescento um bilhete gentil
"Hoje vou lhe pagar um jantar de vinte dólares
E se ela não quiser, juro que não me responsabilizo..."
Vens cheirando a lilás e com saltos, meu Deus, tão altos
Que eu fico lá embaixo e com um ar avacalhado
Dás ordens ao garçom de caviar e champanha
Depois arrotas de leve me dizendo I beg your pardon.
No carro distraído deixo a mão na tua perna
Depois vou te levando para o alto de um morro
Em cima tiro o anel, quero casar contigo
Dizes que só acedes depois do meu divórcio.
Balbucio palavras desconexas e esdrúxulas
Quero romper-te a blusa e mastigar-te a cara
Não tens medo nenhum dos meus loucos arroubos
E me destroncas o dedo com um golpe de jiu-jítsu.
Depois tiras da bolsa uma caixa de goma
E mascas furiosamente dizendo barbaridades
Que é que eu penso que és, se não tenho vergonha
De fazer tais propostas a uma moça solteira.
Balbucio uma desculpa e digo que estava pensando…
Falas que eu pense menos e me fazes um agrado
Me pedes um cigarro e riscas o fósforo com a unha
E eu fico boquiaberto diante de tanta habilidade.
Me pedes para te levar a comer uma salada
Mas de súbito me vem uma consciência estranha
Vejo-te como uma cabra pastando sobre mim
E odeio-te de ruminares assim a minha carne.
Então fico possesso, dou-te um murro na cara
Destruo-te a carótida a violentas dentadas
Ordenho-te até o sangue escorrer entre meu dedos
E te possuo assim, morta e desfigurada.
Depois arrependido choro sobre o teu corpo
E te enterro numa vala, minha pobre namorada...
Fujo mas me descobrem por um fio de cabelo
E seis meses depois morro na câmara de gás.
Vinicius de Moraes
Depois te levarei a comer um shop-suey
Se a tarde também for loura abriremos a capota
Teus cabelos ao vento marcarão oitenta milhas.
Dar-me-ás um beijo com batom marca indelével
E eu pegarei tua coxa rija como a madeira
Sorrirás para mim e eu porei óculos escuros
Ante o brilho de teus dois mil dentes de esmalte.
Mascaremos cada um uma caixa de goma
E iremos ao Chinese cheirando a hortelã-pimenta
A cabeça no meu ombro sonharás duas horas
Enquanto eu me divirto no teu seio de arame.
De novo no automóvel perguntarei se queres
Me dirás que tem tempo e me darás um abraço
Tua fome reclama uma salada mista
Verei teu rosto através do suco de tomate.
Te ajudarei cavalheiro com o abrigo de chinchila
Na saída constatarei tuas nylon 57
Ao andares, algo em ti range em dó sustenido
Pelo andar em que vais sei que queres dançar rumba.
Beberás vinte uísques e ficarás mais terna
Dançando sentirei tuas pernas entre as minhas
Cheirarás levemente a cachorro lavado
Possuis cem rotações de quadris por minuto.
De novo no automóvel perguntarei se queres
Me dirás que hoje não, amanhã tens filmagem
Fazes a cigarreira num clube de má fama
E há uma cena em que vendes um maço a George Raft.
Telegrafar-te-ei então uma orquídea sexuada
No escritório esperarei que tomes sal de frutas
Vem-te um súbito desejo de comida italiana
Mas queres deitar cedo, tens uma dor de cabeça!
À porta de tua casa perguntarei se queres
Me dirás que hoje não, vais ficar dodói mais tarde
De longe acenarás um adeus sutilíssimo
Ao constatares que estou com a bateria gasta.
Dia seguinte esperarei com o rádio do carro aberto
Te chamando mentalmente de galinha e outros nomes
Virás então dizer que tens comida em casa
De avental abrirei latas e enxugarei pratos.
Tua mãe perguntará se há muito que sou casado
Direi que há cinco anos e ela fica calada
Mas como somos moços, precisamos divertir-nos
Sairemos de automóvel para uma volta rápida.
No alto de uma colina perguntar-te-ei se queres
Me dirás que nada feito, estás com uma dor do lado
Nervosos meus cigarros se fumarão sozinhos
E acabo machucando os dedos na tua cinta.
Dia seguinte vens com um suéter elástico
Sapatos mocassim e meia curta vermelha
Te levo pra dançar um ligeiro jitterbug
Teus vinte deixam os meus trinta e pouco cansados.
Na saída te vem um desejo de boliche
Jogas na perfeição, flertando o moço ao lado
Dás o telefone a ele e perguntas se me importo
Finjo que não me importo e dou saída no carro.
Estás louca para tomar uma coca gelada
Debruças-te sobre mim e me mordes o pescoço
Passo de leve a mão no teu joelho ossudo
Perdido de repente numa grande piedade.
Depois pergunto se queres ir ao meu apartamento
Me matas a pergunta com um beijo apaixonado
Dou um soco na perna e aperto o acelerador
Finges-te de assustada e falas que dirijo bem.
Que é daquele perfume que eu te tinha prometido?
Compro o Chanel 5 e acrescento um bilhete gentil
"Hoje vou lhe pagar um jantar de vinte dólares
E se ela não quiser, juro que não me responsabilizo..."
Vens cheirando a lilás e com saltos, meu Deus, tão altos
Que eu fico lá embaixo e com um ar avacalhado
Dás ordens ao garçom de caviar e champanha
Depois arrotas de leve me dizendo I beg your pardon.
No carro distraído deixo a mão na tua perna
Depois vou te levando para o alto de um morro
Em cima tiro o anel, quero casar contigo
Dizes que só acedes depois do meu divórcio.
Balbucio palavras desconexas e esdrúxulas
Quero romper-te a blusa e mastigar-te a cara
Não tens medo nenhum dos meus loucos arroubos
E me destroncas o dedo com um golpe de jiu-jítsu.
Depois tiras da bolsa uma caixa de goma
E mascas furiosamente dizendo barbaridades
Que é que eu penso que és, se não tenho vergonha
De fazer tais propostas a uma moça solteira.
Balbucio uma desculpa e digo que estava pensando…
Falas que eu pense menos e me fazes um agrado
Me pedes um cigarro e riscas o fósforo com a unha
E eu fico boquiaberto diante de tanta habilidade.
Me pedes para te levar a comer uma salada
Mas de súbito me vem uma consciência estranha
Vejo-te como uma cabra pastando sobre mim
E odeio-te de ruminares assim a minha carne.
Então fico possesso, dou-te um murro na cara
Destruo-te a carótida a violentas dentadas
Ordenho-te até o sangue escorrer entre meu dedos
E te possuo assim, morta e desfigurada.
Depois arrependido choro sobre o teu corpo
E te enterro numa vala, minha pobre namorada...
Fujo mas me descobrem por um fio de cabelo
E seis meses depois morro na câmara de gás.
Vinicius de Moraes
quinta-feira, 1 de abril de 2010
Uma Galinha
Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque não passava de nove horas da manhã. Parecia calma. Desde sábado encolhera-se num canto da cozinha. Não olhava para ninguém, ninguém olhava para ela. Mesmo quando a escolheram, apalpando sua intimidade com indiferença, não souberam dizer se era gorda ou magra. Nunca se adivinharia nela um anseio. Foi pois uma surpresa quando a viram abrir as asas de curto vôo, inchar o peito e, em dois ou três lances, alcançar a murada do terraço. Um instante ainda vacilou — o tempo da cozinheira dar um grito — e em breve estava no terraço do vizinho, de onde, em outro vôo desajeitado, alcançou um telhado. Lá ficou em adorno deslocado, hesitando ora num, ora noutro pé. A família foi chamada com urgência e consternada viu o almoço junto de uma chaminé. O dono da casa, lembrando-se da dupla necessidade de fazer esporadicamente algum esporte e de almoçar, vestiu radiante um calção de banho e resolveu seguir o itinerário da galinha: em pulos cautelosos alcançou o telhado onde esta, hesitante e trêmula, escolhia com urgência outro rumo. A perseguição tornou-se mais intensa. De telhado a telhado foi percorrido mais de um quarteirão da rua. Pouco afeita a uma luta mais selvagem pela vida, a galinha tinha que decidir por si mesma os caminhos a tomar, sem nenhum auxílio de sua raça. O rapaz, porém, era um caçador adormecido. E por mais ínfima que fosse a presa o grito de conquista havia soado. Sozinha no mundo, sem pai nem mãe, ela corria, arfava, muda, concentrada. Às vezes, na fuga, pairava ofegante num beiral de telhado e enquanto o rapaz galgava outros com dificuldade tinha tempo de se refazer por um momento. E então parecia tão livre. Estúpida, tímida e livre. Não vitoriosa como seria um galo em fuga. Que é que havia nas suas vísceras que fazia dela um ser? A galinha é um ser. É verdade que não se pode¬ria contar com ela para nada. Nem ela própria contava consigo, como o galo crê na sua crista. Sua única vantagem é que havia tantas galinhas que morrendo uma surgiria no mesmo instante outra tão igual como se fora a mesma. Afinal, numa das vezes em que parou para gozar sua fuga, o rapaz alcançou-a. Entre gritos e penas, ela foi presa. Em seguida carregada em triunfo por uma asa através das telhas e pousada no chão da cozinha com certa violência. Ainda tonta, sacudiu-se um pouco, em cacarejos roucos e indecisos. Foi então que aconteceu. De pura afobação a galinha pôs um ovo. Surpreendida, exausta. Talvez fosse prematuro. Mas logo depois, nascida que fora para a maternidade, pare¬cia uma velha mãe habituada. Sentou-se sobre o ovo e assim ficou, respirando, abotoando e desabotoando os olhos. Seu coração, tão pequeno num prato, solevava e abaixava as penas, enchendo de tepidez aquilo que nunca passaria de um ovo. Só a menina estava perto e assistiu a tudo estarrecida. Mal porém conseguiu desvencilhar-se do acontecimento, despregou-se do chão e saiu aos gritos:
— Mamãe, mamãe, não mate mais a galinha, ela pôs um ovo! ela quer o nosso bem!
Todos correram de novo à cozinha e rodearam mudos a jovem parturiente. Esquentando seu filho, esta não era nem suave nem arisca, nem alegre, nem triste, não era nada, era uma galinha. O que não sugeria nenhum sentimento especial. O pai, a mãe e a filha olhavam já há algum tempo, sem propriamente um pensamento qualquer. Nunca ninguém acariciou uma cabeça de galinha. O pai afinal decidiu-se com certa brusquidão:
— Se você mandar matar esta galinha nunca mais comerei galinha na minha vida!
— Eu também! jurou a menina com ardor. A mãe, cansada, deu de ombros.
Inconsciente da vida que lhe fora entregue, a galinha passou a morar com a família. A menina, de volta do colégio, jogava a pasta longe sem interromper a corrida para a cozinha. O pai de vez em quando ainda se lembrava: "E dizer que a obriguei a correr naquele estado!" A galinha tornara-se a rainha da casa. Todos, menos ela, o sabiam. Continuou entre a cozinha e o terraço dos fundos, usando suas duas capacidades: a de apatia e a do sobressalto.
Mas quando todos estavam quietos na casa e pareciam tê-la esquecido, enchia-se de uma pequena coragem, resquícios da grande fuga — e circulava pelo ladrilho, o corpo avançando atrás da cabeça, pausado como num campo, embora a pequena cabeça a traísse: mexendo-se rápida e vibrátil, com o velho susto de sua espécie já mecanizado.
Uma vez ou outra, sempre mais raramente, lembrava de novo a galinha que se recortara contra o ar à beira do telhado, prestes a anunciar. Nesses momentos enchia os pulmões com o ar impuro da cozinha e, se fosse dado às fêmeas cantar, ela não cantaria mas ficaria muito mais contente. Embora nem nesses instantes a expressão de sua vazia cabeça se alterasse. Na fuga, no descanso, quando deu à luz ou bicando milho — era uma cabeça de galinha, a mesma que fora desenhada no começo dos séculos.
Até que um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se anos.
Clarice Lispector
— Mamãe, mamãe, não mate mais a galinha, ela pôs um ovo! ela quer o nosso bem!
Todos correram de novo à cozinha e rodearam mudos a jovem parturiente. Esquentando seu filho, esta não era nem suave nem arisca, nem alegre, nem triste, não era nada, era uma galinha. O que não sugeria nenhum sentimento especial. O pai, a mãe e a filha olhavam já há algum tempo, sem propriamente um pensamento qualquer. Nunca ninguém acariciou uma cabeça de galinha. O pai afinal decidiu-se com certa brusquidão:
— Se você mandar matar esta galinha nunca mais comerei galinha na minha vida!
— Eu também! jurou a menina com ardor. A mãe, cansada, deu de ombros.
Inconsciente da vida que lhe fora entregue, a galinha passou a morar com a família. A menina, de volta do colégio, jogava a pasta longe sem interromper a corrida para a cozinha. O pai de vez em quando ainda se lembrava: "E dizer que a obriguei a correr naquele estado!" A galinha tornara-se a rainha da casa. Todos, menos ela, o sabiam. Continuou entre a cozinha e o terraço dos fundos, usando suas duas capacidades: a de apatia e a do sobressalto.
Mas quando todos estavam quietos na casa e pareciam tê-la esquecido, enchia-se de uma pequena coragem, resquícios da grande fuga — e circulava pelo ladrilho, o corpo avançando atrás da cabeça, pausado como num campo, embora a pequena cabeça a traísse: mexendo-se rápida e vibrátil, com o velho susto de sua espécie já mecanizado.
Uma vez ou outra, sempre mais raramente, lembrava de novo a galinha que se recortara contra o ar à beira do telhado, prestes a anunciar. Nesses momentos enchia os pulmões com o ar impuro da cozinha e, se fosse dado às fêmeas cantar, ela não cantaria mas ficaria muito mais contente. Embora nem nesses instantes a expressão de sua vazia cabeça se alterasse. Na fuga, no descanso, quando deu à luz ou bicando milho — era uma cabeça de galinha, a mesma que fora desenhada no começo dos séculos.
Até que um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se anos.
Clarice Lispector
Um Homem, Um Cão e Invasores do Espaço
Luis estava sentado no sofá, despertava de um cochilo, a televisão ainda ligada
alertava que uma nave alienígena tinha sido avistada. Ele havia ouvido bem
quando a repórter disse o nome de sua cidade? Ele olhou para arma no seu colo e
o cachorro deitado no chão e disse:
- Bem amigos, acho que finalmente teremos um pouco de ação nessas bandas.
Luis sempre acompanhava as tentativas de invasão pela TV, no início houve pânico
generalizado, a Terra havia sido pega de surpresa. Milhões pereceram. Mas ao que
parece alguma coisa tinha falhado na estratégia dos alienígenas, suas baixas
foram bem maiores do que as humanas. Aos poucos o jogo foi se invertendo, a
tecnologia extraterrestre começou a ser dominada e os alienígenas foram quase
totalmente expulsos. O problema é que muitos foram deixados para trás, e de vez
em quando atacavam pequenas cidades e povoados do interior.
Quando Átila, o grande pastor alemão, começou a se inquietar Luís destravou sua
arma e apontou para a porta. O cachorro se posicionou em posição de ataque a sua
frente, lá fora um ruído como o de folhas ao vento aumentava a cada segundo e
uma luz amarelada podia ser vista pela fresta da porta. Luis não teve duvidas,
eram eles! Os invasores!
O ruído se tornou insuportável, a luz cada vez mais intensa e a porta começou a
ser forçada. De repente tudo parou. Silêncio. A luz desaparece. Luis imaginou
que eles tinham ido embora, mas foi quando Átila deu novo alarme, o cão voltou
seu olhar para o teto e rugiu. Foi o tempo necessário para Luís se virar e ver o
alienígena passar pelo telhado deixando um grande buraco atrás de si. Mas antes
que ele chegasse ao chão Luis já havia atirado, quando o invasor caiu seu corpo
já estava inerte e semi-dilacerado pelo tiro de sua escopeta calibre 12 dado a
tão curta distância.
Não houve tempo para comemorações, Átila se virou novamente para a porta que
finalmente foi arrombada e por onde duas figuras sinistras entravam.
Eram mais invasores. Criaturas assustadoras, eram quadrúpedes, mas tinham uma cauda dotada de garras que usavam como quinto membro, além disso possuíam uma mandíbula em forma de chave inglesa na cabeça, cabeça essa que podia girar 360°.
Combinando a cauda e a cabeça eles tinham um poder de manipulação maior do que a mão humana.
Luis atirou mais duas vezes, mas dessa vez não acertou nenhuma. O que deu tempo suficiente para que um dos alienígenas pulasse e tentasse agarrá-lo, tentasse,
pois mais uma vez Átila entrou em cena e cravou seus dentes na cauda do invasor
impedindo que esse saltasse. A outra criatura se lançou a frente para ajudar o
companheiro, mas de novo a escopeta cuspiu fogo estraçalhando sua cabeça.
O outro invasor conseguiu se desvencilhar do cão e estava prestes a ferir o
animal com um golpe mortal de sua cauda, porém isso não aconteceu, novamente
Luis atirou acertando-o em cheio. Agora sua casa tinha três monstros mortos e um
homem e um cão vivos. E ele ainda tinha um cartucho carregado na arma.
Luis saiu pela porta arrombada e olhou para a rua onde viu alguns de seus
vizinhos armados como ele, todos acompanhados de seus cães, muitos empilhavam
corpos sem vida de alienígenas. Não demorou muito e alguns caminhões do Exército surgiram na rua.
Luis olhou para Átila e comentou:
- É amigão, acho que hoje não teremos mais problemas. – ele voltou para dentro,
com cuidado para não pisar nos corpos dos invasores. Foi até a cozinha onde
pegou uma cerveja para ele é um grande pedaço de carne para Átila.
- Toma, você merece – o cachorro aceitou o presente sem pestanejar.
Luis olhou para o buraco no telhado e os corpos no chão, teria trabalho para
arrumar aquela bagunça, mas faria isso só no dia seguinte. Ele então recarregou
sua arma e sentou-se mais uma vez em seu sofá, na TV a repórter falava sobre
mais um ataque alienígena frustrado. Luis mudou de canal, abriu sua cerveja e
foi assistir futebol, agora só queria continuar a relaxar.
Luciano Silva Vieira
alertava que uma nave alienígena tinha sido avistada. Ele havia ouvido bem
quando a repórter disse o nome de sua cidade? Ele olhou para arma no seu colo e
o cachorro deitado no chão e disse:
- Bem amigos, acho que finalmente teremos um pouco de ação nessas bandas.
Luis sempre acompanhava as tentativas de invasão pela TV, no início houve pânico
generalizado, a Terra havia sido pega de surpresa. Milhões pereceram. Mas ao que
parece alguma coisa tinha falhado na estratégia dos alienígenas, suas baixas
foram bem maiores do que as humanas. Aos poucos o jogo foi se invertendo, a
tecnologia extraterrestre começou a ser dominada e os alienígenas foram quase
totalmente expulsos. O problema é que muitos foram deixados para trás, e de vez
em quando atacavam pequenas cidades e povoados do interior.
Quando Átila, o grande pastor alemão, começou a se inquietar Luís destravou sua
arma e apontou para a porta. O cachorro se posicionou em posição de ataque a sua
frente, lá fora um ruído como o de folhas ao vento aumentava a cada segundo e
uma luz amarelada podia ser vista pela fresta da porta. Luis não teve duvidas,
eram eles! Os invasores!
O ruído se tornou insuportável, a luz cada vez mais intensa e a porta começou a
ser forçada. De repente tudo parou. Silêncio. A luz desaparece. Luis imaginou
que eles tinham ido embora, mas foi quando Átila deu novo alarme, o cão voltou
seu olhar para o teto e rugiu. Foi o tempo necessário para Luís se virar e ver o
alienígena passar pelo telhado deixando um grande buraco atrás de si. Mas antes
que ele chegasse ao chão Luis já havia atirado, quando o invasor caiu seu corpo
já estava inerte e semi-dilacerado pelo tiro de sua escopeta calibre 12 dado a
tão curta distância.
Não houve tempo para comemorações, Átila se virou novamente para a porta que
finalmente foi arrombada e por onde duas figuras sinistras entravam.
Eram mais invasores. Criaturas assustadoras, eram quadrúpedes, mas tinham uma cauda dotada de garras que usavam como quinto membro, além disso possuíam uma mandíbula em forma de chave inglesa na cabeça, cabeça essa que podia girar 360°.
Combinando a cauda e a cabeça eles tinham um poder de manipulação maior do que a mão humana.
Luis atirou mais duas vezes, mas dessa vez não acertou nenhuma. O que deu tempo suficiente para que um dos alienígenas pulasse e tentasse agarrá-lo, tentasse,
pois mais uma vez Átila entrou em cena e cravou seus dentes na cauda do invasor
impedindo que esse saltasse. A outra criatura se lançou a frente para ajudar o
companheiro, mas de novo a escopeta cuspiu fogo estraçalhando sua cabeça.
O outro invasor conseguiu se desvencilhar do cão e estava prestes a ferir o
animal com um golpe mortal de sua cauda, porém isso não aconteceu, novamente
Luis atirou acertando-o em cheio. Agora sua casa tinha três monstros mortos e um
homem e um cão vivos. E ele ainda tinha um cartucho carregado na arma.
Luis saiu pela porta arrombada e olhou para a rua onde viu alguns de seus
vizinhos armados como ele, todos acompanhados de seus cães, muitos empilhavam
corpos sem vida de alienígenas. Não demorou muito e alguns caminhões do Exército surgiram na rua.
Luis olhou para Átila e comentou:
- É amigão, acho que hoje não teremos mais problemas. – ele voltou para dentro,
com cuidado para não pisar nos corpos dos invasores. Foi até a cozinha onde
pegou uma cerveja para ele é um grande pedaço de carne para Átila.
- Toma, você merece – o cachorro aceitou o presente sem pestanejar.
Luis olhou para o buraco no telhado e os corpos no chão, teria trabalho para
arrumar aquela bagunça, mas faria isso só no dia seguinte. Ele então recarregou
sua arma e sentou-se mais uma vez em seu sofá, na TV a repórter falava sobre
mais um ataque alienígena frustrado. Luis mudou de canal, abriu sua cerveja e
foi assistir futebol, agora só queria continuar a relaxar.
Luciano Silva Vieira
quarta-feira, 24 de março de 2010
Adriana
Já era a terceira pedra de craque que adriana ia fumar no dia, ainda nem eram três da tarde. A primeira conseguiu comprar com a venda de um saco cheio de latinhas de alumínio no ferro velho, a segunda ela tinha conseguido roubando um dinheiro na casa da própria avó. Sabia que ela tinha ido ao banco pegar a aposentadoria, quando ela voltou para casa, Adriana pediu que lhe desse café com pão. Enquanto a idosa foi na geladeira buscar manteiga, Adriana foi na Cristaleira e roubou o dinheiro que estava escondido dentro de um pote de sorvete. Por azar, só achou dez reais. Depois de muitos roubos seguidos, dona Fininha não guardava mais dinheiro na Cristaleira, deixava só um pouco, o do ladrão, para que a neta viciada em craque pudesse roubar, não queria correr o risco de apanhar caso ela achasse nada. A terceira pedra que ela estava prestes a fumar, conseguiu pagando um boquete na pica mole de um velho que é dono de uma birosca. O pior de tudo, o que ela mais detestava, era ter que engolir porra. Mas o velho sempre pedia que ela fizesse isso.
Apesar de estar magra, adriana era bonita, tinha belos olhos azuis, cabelos bem pretos e lisos, apesar de estarem ensebados, por causa do desleixo dos viciados, uma bunda empinadinha e bonita, com um cu que sempre lhe rendia uma boa grana quando ela ia fazer pista.
Pegou a terceira pedra, botou na marica, acendeu com o isqueiro e quando deu a primeira puxada! A pancada foi grande, parecia um soco do Mike Tyson, depois veio uma sensação de alivio, que durou, 1,2,3,4,5,6,7,8,9,10 segundos e depois veio a tristeza, a fome e a vontade de fumar mais uma pedra. Primeiro foi comer na casa da mãe e depois na casa de um ex-bandido que tomou um tiro na coluna e ficou paraplégico, deixar ele chupar a boceta dela por cinco reais, se dessa vez ele quisesse enfiar o dedo no cu dela, teria que pagar mais cinco reais, talvez até rolasse uma chupada no peitinho.- pensou ela.
A primeira vez que Adriana viu matrix, foi quando ela tinha treze anos e estava sentada no portão de casa, viu aquele negro bonito, de cabelos lisos, barriga de tanquinho, sentiu um troço esquisito. Ele estava no meio de um bonde, com uns dez caras, ele deixou os outros e foi na direção dela. Ela gostou muito de ver aquele fuzil AK-47 pendurado no pescoço dele, ficou tão excitada que depois foi para o banheiro tocar uma siririca. Matrix ficou olhando para ela e disse:
- Aí! Depois posso voltar aqui e te dar um papo?
- Pode sim!
- Tu vai dar mole! Cola com ele! Como a de fé ele vai te dar tudo. Só não aceita ser lanchinho da madrugada, tu é muito bonita e tem que ser a de fé.
Adriana sempre seguia os conselhos de sua amiga July e decidiu sair com matrix. Tinha ouvido falar que ele veio de uma outra favela e agora na nova favela, ele assumiu o cargo de gerente da cocaína, um cargo muito alto na hierarquia do trafico.
Ele voltou mesmo. Conversaram por um bom tempo, meia hora depois Adriana já estava apaixonada, dois meses depois estavam morando juntos, três meses depois estava grávida e dois anos depois já tinha dois filhos.
O inicio do casamento foi ótimo, transavam o tempo todo, quatro, cinco vezes ao dia, teve um dia que estava frio e chuvoso, transaram oito vezes no mesmo dia, transavam e fumavam maconha. A principio Adriana se opôs a maconha, porem de tanto matrix falar que transar chapado era muito mais gostoso. Ela aceitou, gostou e daquele dia em diante, só transava chapada de maconha, depois passou a envenenar a maconha com cocaína. Cocaína ele conheceu depois de uma briga com matrix, onde ele a deixou toda machucada e com muitos hematomas. Tentando esquecer da coça, apertou um baseado e fumou sozinha. Matrix sempre deixava em casa alguns papelotes de cocaína, que eram para seu uso particular, Adriana cheirou os três papelotes que estavam guardado dentro de uma caixa de sapato. Desse dia em diante a cocaína nunca mais saiu de sua vida.
Um belo dia Adriana estava dormindo de tarde, já tinha feito o almoço, dado para as crianças comerem, viu a novela da tarde e foi tirar um cochilo. Acordou com July batendo violentamente na porta de seu barraco, levantou meia tonta e abriu a porta.
- O que foi July? Que desespero é esse?
- mataram o matrix!
- O que?
- Os “home” mataram o Matrix lá em cima da ponte!
Adriana começou a chorar, ela pediu a Deus que não fosse seu marido, porem no fundo, ela sabia que era ele. Deixou as crianças com a vizinha e foi ver o corpo. Quando chegou na ponte, de longe pode ver uma multidão e um camburão. Foi passando pelo meio da multidão e viu um corpo estirado no chão, coberto com um plástico preto. Deu um grito desesperado e correu na direção dele, foi impedida de ver o corpo por um policial.
- Deixa eu ver meu marido moço!
- não pode mexer no corpo! Tem que aguardar a perícia chegar. – falo secamente o policial.
- Ele é meu marido moço! O senhor não pode fazer isso. _ retrucou adriana.
O policial ia barra-la. Quando ouviu a multidão começar a gritar. Assassinos! Assassinos! Deixou Adriana passar e pediu reforços. Adriana se abaixou, tirou o plástico de cima do corpo do marido, pensava em dar um ultimo abraço nele. Desistiu quando viu o estrago que um tiro de fuzil fez no rosto dele. O crânio estava esfacelado, tinha um buraco tão grande que cabia uma mão fechada e havia muitos pedaços de miolos espalhados. Do rosto bonito, não sobrou nada. Não teria nem velório.
A boca pagou as despesas, velaram o corpo na associação de moradores, a empresa local de ônibus, emprestou um ônibus para levar os amigos e familiares de matrix ao cemitério. A empresa tinha um acordo com o trafico, se os traficantes impedissem que acorressem assaltos nos ônibus na área da favela, sempre que necessário, a empresa cederia ônibus para os enterros. Depois que voltou do cemitério e ficou sozinha com os filhos, Adriana sentou na beirada da cama e chorou. Na sua mente tinha uma pergunta. O que vai ser da minha vida e dos meus filhos. Durante três meses, conseguiu viver bem, matrix deixou uma boa quantidade de dinheiro guardado no banco e uma boa quantidade de ouro e prata. Vendendo tudo aos poucos se sustentou durante um bom tempo. Quando o dinheiro acabou, teve que arrumar um trabalho para sustentar os filhos, o único que conseguiu foi num ferro velho onde fazia a separação dos materiais recicláveis e foi nesse trabalho que conheceu o craque e passou a usa-lo desesperadamente, tentando esquecer um pouco da vida. E esqueceu tão bem, que em determinada vez, ficou usando craque por dois dias seguidos e não foi em casa cuidar dos filhos. Quando despertou e lembrou dos filhos, foi correndo para casa e não os encontrou lá. Suja e desesperada, saiu perguntando aos vizinhos se eles sabiam o que tinha acontecido com os dois filhos.
- Seu pai veio aqui e levou as crianças com ele. – explicou uma vizinha.
Adriana foi até a casa dos pais e perguntou ao seu pai, seu Antonio, onde estavam os seus filhos.
- Seus filhos estão comigo! – explicou o pai.
- Eu quero meus filhos!
- Pra que você quer os seus filhos? Quando eu peguei eles lá, as crianças estavam sujas e morrendo de fome.
- Mas são meus filhos. – tentou argumentar Adriana.
- Seus filhos? Você não cuida nem de você mesmo. Olha o seu estado. Depois que você voltou da clinica, parece que voltou pior. Eu vou cuidar dos seus filhos, eles não tem culpa da mãe que tem.
- Eu amo meus filhos pai!
- Ama nada! Você não ama nem a si mesmo. Olha o seu estado, você esta um farrapo humano. Quem não se ama, não consegue amar aos outros. Eu já decidi, eu vou cuidar dessas crianças, eles são meus netos e merecem uma vida digna.
- Eu posso ver eles pai, antes de ir embora?
- Não nesse estado. Se quiser ver eles só vou deixar quando você vier limpa e no seu estado normal, nem venha drogada que eu não vou deixar você ver as crianças.
Adriana saiu dali arrasada, parou num botequim, um cara pagou umas cervejas para ela, depois transaram no banheiro do boteco, ela ganhou cinco reais e foi para a boca comprar uma pedrinha. Adriana foi na casa do ex-bandido, desenrolaram e ela saiu de lá com dez reais, foi direto na boca. Alem da marica ela sempre carregava numa bolsinha algumas coisas de seu uso, fotos dos filhos, cigarros e um isqueiro. Comprou uma pedra de dez, sentou na beirada da calçada, suas mãos tremiam, sentia uma coisa estranha em seu intimo, um sentimento de tristeza, uma falta de expectativas, um vazio dentro de si. Só que desse vez, tudo isso vinha multiplicado por dez, nunca sentira algo assim antes. Colocou a pedra na marica e deu uma puxada, depois deu outra. Sentiu uma tonteira, sentiu algo saindo de dentro dela, algo que não dava para ninguem ver, somente ela. Sua vista ficou escura, sentiu como estivesse caindo num buraco escuro e depois não sentiu mais nada. Estava livre da vida miserável que tivera.
- Porra! Mais um viciado que morre perto da boca. Seus filhas da puta. – os dois vapores que estavam na boca olharam para o patrão. – Não disse que não era pra deixar ninguem fumar craque perto da boca!
- Foi mal aí patrão, nem vi essa doida aí. – respondeu um dos vapores.
O patrão pegou um radio e ligou para um comparsa.
- Qual foi! Manda alguém aqui na b3 com um carrinho de mão e gasolina. Não! Não é pra queimar x-9 nenhum. Uma cracuda morreu de overdose aqui. Da um sumiço no corpo. Queima e depois joga na lagoa.
E desligou o radio.
Julio Pecly
Apesar de estar magra, adriana era bonita, tinha belos olhos azuis, cabelos bem pretos e lisos, apesar de estarem ensebados, por causa do desleixo dos viciados, uma bunda empinadinha e bonita, com um cu que sempre lhe rendia uma boa grana quando ela ia fazer pista.
Pegou a terceira pedra, botou na marica, acendeu com o isqueiro e quando deu a primeira puxada! A pancada foi grande, parecia um soco do Mike Tyson, depois veio uma sensação de alivio, que durou, 1,2,3,4,5,6,7,8,9,10 segundos e depois veio a tristeza, a fome e a vontade de fumar mais uma pedra. Primeiro foi comer na casa da mãe e depois na casa de um ex-bandido que tomou um tiro na coluna e ficou paraplégico, deixar ele chupar a boceta dela por cinco reais, se dessa vez ele quisesse enfiar o dedo no cu dela, teria que pagar mais cinco reais, talvez até rolasse uma chupada no peitinho.- pensou ela.
A primeira vez que Adriana viu matrix, foi quando ela tinha treze anos e estava sentada no portão de casa, viu aquele negro bonito, de cabelos lisos, barriga de tanquinho, sentiu um troço esquisito. Ele estava no meio de um bonde, com uns dez caras, ele deixou os outros e foi na direção dela. Ela gostou muito de ver aquele fuzil AK-47 pendurado no pescoço dele, ficou tão excitada que depois foi para o banheiro tocar uma siririca. Matrix ficou olhando para ela e disse:
- Aí! Depois posso voltar aqui e te dar um papo?
- Pode sim!
- Tu vai dar mole! Cola com ele! Como a de fé ele vai te dar tudo. Só não aceita ser lanchinho da madrugada, tu é muito bonita e tem que ser a de fé.
Adriana sempre seguia os conselhos de sua amiga July e decidiu sair com matrix. Tinha ouvido falar que ele veio de uma outra favela e agora na nova favela, ele assumiu o cargo de gerente da cocaína, um cargo muito alto na hierarquia do trafico.
Ele voltou mesmo. Conversaram por um bom tempo, meia hora depois Adriana já estava apaixonada, dois meses depois estavam morando juntos, três meses depois estava grávida e dois anos depois já tinha dois filhos.
O inicio do casamento foi ótimo, transavam o tempo todo, quatro, cinco vezes ao dia, teve um dia que estava frio e chuvoso, transaram oito vezes no mesmo dia, transavam e fumavam maconha. A principio Adriana se opôs a maconha, porem de tanto matrix falar que transar chapado era muito mais gostoso. Ela aceitou, gostou e daquele dia em diante, só transava chapada de maconha, depois passou a envenenar a maconha com cocaína. Cocaína ele conheceu depois de uma briga com matrix, onde ele a deixou toda machucada e com muitos hematomas. Tentando esquecer da coça, apertou um baseado e fumou sozinha. Matrix sempre deixava em casa alguns papelotes de cocaína, que eram para seu uso particular, Adriana cheirou os três papelotes que estavam guardado dentro de uma caixa de sapato. Desse dia em diante a cocaína nunca mais saiu de sua vida.
Um belo dia Adriana estava dormindo de tarde, já tinha feito o almoço, dado para as crianças comerem, viu a novela da tarde e foi tirar um cochilo. Acordou com July batendo violentamente na porta de seu barraco, levantou meia tonta e abriu a porta.
- O que foi July? Que desespero é esse?
- mataram o matrix!
- O que?
- Os “home” mataram o Matrix lá em cima da ponte!
Adriana começou a chorar, ela pediu a Deus que não fosse seu marido, porem no fundo, ela sabia que era ele. Deixou as crianças com a vizinha e foi ver o corpo. Quando chegou na ponte, de longe pode ver uma multidão e um camburão. Foi passando pelo meio da multidão e viu um corpo estirado no chão, coberto com um plástico preto. Deu um grito desesperado e correu na direção dele, foi impedida de ver o corpo por um policial.
- Deixa eu ver meu marido moço!
- não pode mexer no corpo! Tem que aguardar a perícia chegar. – falo secamente o policial.
- Ele é meu marido moço! O senhor não pode fazer isso. _ retrucou adriana.
O policial ia barra-la. Quando ouviu a multidão começar a gritar. Assassinos! Assassinos! Deixou Adriana passar e pediu reforços. Adriana se abaixou, tirou o plástico de cima do corpo do marido, pensava em dar um ultimo abraço nele. Desistiu quando viu o estrago que um tiro de fuzil fez no rosto dele. O crânio estava esfacelado, tinha um buraco tão grande que cabia uma mão fechada e havia muitos pedaços de miolos espalhados. Do rosto bonito, não sobrou nada. Não teria nem velório.
A boca pagou as despesas, velaram o corpo na associação de moradores, a empresa local de ônibus, emprestou um ônibus para levar os amigos e familiares de matrix ao cemitério. A empresa tinha um acordo com o trafico, se os traficantes impedissem que acorressem assaltos nos ônibus na área da favela, sempre que necessário, a empresa cederia ônibus para os enterros. Depois que voltou do cemitério e ficou sozinha com os filhos, Adriana sentou na beirada da cama e chorou. Na sua mente tinha uma pergunta. O que vai ser da minha vida e dos meus filhos. Durante três meses, conseguiu viver bem, matrix deixou uma boa quantidade de dinheiro guardado no banco e uma boa quantidade de ouro e prata. Vendendo tudo aos poucos se sustentou durante um bom tempo. Quando o dinheiro acabou, teve que arrumar um trabalho para sustentar os filhos, o único que conseguiu foi num ferro velho onde fazia a separação dos materiais recicláveis e foi nesse trabalho que conheceu o craque e passou a usa-lo desesperadamente, tentando esquecer um pouco da vida. E esqueceu tão bem, que em determinada vez, ficou usando craque por dois dias seguidos e não foi em casa cuidar dos filhos. Quando despertou e lembrou dos filhos, foi correndo para casa e não os encontrou lá. Suja e desesperada, saiu perguntando aos vizinhos se eles sabiam o que tinha acontecido com os dois filhos.
- Seu pai veio aqui e levou as crianças com ele. – explicou uma vizinha.
Adriana foi até a casa dos pais e perguntou ao seu pai, seu Antonio, onde estavam os seus filhos.
- Seus filhos estão comigo! – explicou o pai.
- Eu quero meus filhos!
- Pra que você quer os seus filhos? Quando eu peguei eles lá, as crianças estavam sujas e morrendo de fome.
- Mas são meus filhos. – tentou argumentar Adriana.
- Seus filhos? Você não cuida nem de você mesmo. Olha o seu estado. Depois que você voltou da clinica, parece que voltou pior. Eu vou cuidar dos seus filhos, eles não tem culpa da mãe que tem.
- Eu amo meus filhos pai!
- Ama nada! Você não ama nem a si mesmo. Olha o seu estado, você esta um farrapo humano. Quem não se ama, não consegue amar aos outros. Eu já decidi, eu vou cuidar dessas crianças, eles são meus netos e merecem uma vida digna.
- Eu posso ver eles pai, antes de ir embora?
- Não nesse estado. Se quiser ver eles só vou deixar quando você vier limpa e no seu estado normal, nem venha drogada que eu não vou deixar você ver as crianças.
Adriana saiu dali arrasada, parou num botequim, um cara pagou umas cervejas para ela, depois transaram no banheiro do boteco, ela ganhou cinco reais e foi para a boca comprar uma pedrinha. Adriana foi na casa do ex-bandido, desenrolaram e ela saiu de lá com dez reais, foi direto na boca. Alem da marica ela sempre carregava numa bolsinha algumas coisas de seu uso, fotos dos filhos, cigarros e um isqueiro. Comprou uma pedra de dez, sentou na beirada da calçada, suas mãos tremiam, sentia uma coisa estranha em seu intimo, um sentimento de tristeza, uma falta de expectativas, um vazio dentro de si. Só que desse vez, tudo isso vinha multiplicado por dez, nunca sentira algo assim antes. Colocou a pedra na marica e deu uma puxada, depois deu outra. Sentiu uma tonteira, sentiu algo saindo de dentro dela, algo que não dava para ninguem ver, somente ela. Sua vista ficou escura, sentiu como estivesse caindo num buraco escuro e depois não sentiu mais nada. Estava livre da vida miserável que tivera.
- Porra! Mais um viciado que morre perto da boca. Seus filhas da puta. – os dois vapores que estavam na boca olharam para o patrão. – Não disse que não era pra deixar ninguem fumar craque perto da boca!
- Foi mal aí patrão, nem vi essa doida aí. – respondeu um dos vapores.
O patrão pegou um radio e ligou para um comparsa.
- Qual foi! Manda alguém aqui na b3 com um carrinho de mão e gasolina. Não! Não é pra queimar x-9 nenhum. Uma cracuda morreu de overdose aqui. Da um sumiço no corpo. Queima e depois joga na lagoa.
E desligou o radio.
Julio Pecly
sexta-feira, 12 de março de 2010
O Drama de Um Detetive Sentimental em Busca de um Serial Killer Amoroso
Já faz duas semanas que estou no encalço deste perigoso meliante. Ele é um mistério, e os mistérios são tão fascinantes! Há duas semanas que mal como, não durmo, e não paro de pensar. Pensar é meu mal. Meu maior defeito. Minha doença. Quem me dera poder calar o meu pensamento. Quem me dera poder enfiar uma faca nele, ou dar um tiro de trinta e oito. Quem sabe assim ele não se cala! Pensamento idiota! Parece um garoto burguês, birrento e hiperativo. Pula, grita, apronta, chora, corre veloz e irrefreável. Mas nunca para. Nem na hora de dormir! Quisera eu ter um trinta e oito! É nessas horas que me arrependo de não ter servido o exército. Agora tenho que tolerar esse moleque birrento. Atualmente ele só quer buscar uma coisa: encontrar esse terrível meliante. Ele é minha obsessão, meu eixo, meu objetivo, meu alvo. Eu não sou normal. Não sou uma pessoa centrada, organizada, batizada, coisada. Eu tenho sérios desvios de personalidades. E a principal delas, a minha marca de nascença, é justamente a minha obsessão doentia por mistérios. Os mistérios são tão fascinantes! Quando pequenino, meu desenho favorito era Scooby Doo. Mas com o tempo eu vi que todas as soluções eram tão óbvias que nem valia a pena assistir. A única coisa que realmente me fazia assistir o desenho era a Velma, que fazia o meu gênero de garota. Até hoje tenho esse padrão de beleza. Sempre me interesso por garotas que tenham esse mesmo estilo dela, e, principalmente, a mesma inteligência dedutiva. Isso é justamente o que a deixava mais sexy! O jeito como ela graciosamente resolvia os mistérios... Sempre busquei a minha Velma nas garotas com quem me relacionei. Busco nessas garotas aquilo que não pude realizar com a Velma, já que ela é só um cartoon. Ah, quem me dera, conhecer Hanah e Barbera, para me dar uma Velma! Amanheci com um jeito meio poético hoje. É o que acontece comigo sempre que eu amanheço por mais de três dias sem pregar os olhos. Vai ver que é por isso que eu pisco tanto. Quando eu cresci, comecei a me interessar por coisas mais adultas, como Batman e Death Note. Nossa, L era meu ídolo, e Raito era meu ídolo! Meus olhos faiscavam de ver os dois se enfrentando em jogos de mistério tão acirrados! Algumas vezes, não muitas, eu conseguia me antecipar a eles, e prever algumas reações. A sacada é que eu não agia como se fosse uma situação real. Eu nunca tentei entrar na mente de L ou de Raito Yagami. Porque eu sabia que o mundo em que essa história acontecia, por mais similar que fosse com o nosso, ainda era um mundo que só existia na mente insana do autor. Aí é que eu entrava. Sempre tentei entrar na mente de Takeshi Obata. Ele era meu objetivo. Eu desvendei a mente dele. Sim, posso dizer isso sem medo de ser pedante. Nos últimos volumes do mangá, eu já era capaz de "adivinhar" cada passo do próximo. Eu me sentia o próprio autor. EU era Takeshi Obata! Meus colegas da época chegavam a ficar putos, porque eu sempre adivinhava o próximo volume. Alguns, indignados, pararam de comprar. Achavam que eu havia descoberto alguma fonte secreta por onde as resenhas estavam vazando. Não deixa de ser verdade. A fonte era a própria mente de Takeshi Obata. Nessa mesma época, comecei a conhecer meus mestres, irredutíveis: Augustin Dupin, que vem a ser um avatar de Edgar Allan Poe, Hercule Poirot, que vem a ser um avatar de Aghata Crhistie, e Sherlock Holmes, que vem a ser um avatar de Sir Arthur Conan Doyle. Não faço nada sem consultar meus mestres. Claro, sem contar com inúmeros outros não mestres mas que foram essenciais para o aprofundamento do meu desvio de personalidade, como Rubem Fonseca, com seu Mandrake, ou Marcos Rey. De certa forma, eles foram responsáveis pela minhas exdrúxulias. São meus mentores. Meu professor Xavier. Eles me ensinaram a usar minha loucura, ou habilidade. Eu via mistérios em tudo, e tentava decifrar tudo. Resolvia todas as questões de matemática antes de o professor passar pro resto da turma. Cruzadinha? Sudoku? Era o primeiro. Nas provas eu nunca estudei. Sempre descobria as respostas só de ler as questões e observar o meu redor, e recorrer à minha memória que é como um gravador. Eu só ouvia os professores falando. Nunca anotei nada. Eu até decorei todas as normas de geografia. Sabia citar de cor. Uma vez eu usei as regras dele contra ele mesmo. Óbvio que eu fui suspenso por três dias, porque ninguém pode desafiar a autoridade escolar e ficar impune. Ainda que saia como herói. Foi então que eu descobri que nunca se deve entrar em confronto direto com os alvos. Eu comecei a endoidar cedo, e hoje eu vivo da minha loucura, da minha capacidade de dedução. Minha mãe sempre achou que eu não ia ganhar dinheiro, que eu não fazia nada, não tinha nenhuma especialização, só ficava vadiando com aqueles quebra-cabeças ridículos. O único quebra-cabeça que eu nunca consegui montar até hoje foi minha mãe. Não sei se é porque ela tinha a cabeça dura. Nunca vou entendê-la. Nem August Dupin pode entendê-la. É com um gosto frio de vingança que eu mando um dinheiro pra ela todo mês. Eu nunca vi o rosto dela nem o que ela fala, mas pra mim é muito fácil deduzir. Olhe pra mim agora, mamãe! Eu vivo da minha loucura, eu compro suas pílulas com a minha loucura. É essa loucura que quer me levar ao fim.
Esse larápio desgraçado está consumindo todas as minhas energias. Só penso em desvendar esse mistério dia após dia. Esse é um dos mistérios mais difíceis da minha vida: perseguir um serial killer sentimental. Nunca fiz isso antes. E sabe o que é mais assustador? É que a vítima sou eu. Eu sou um investigador precoce da minha própria morte. Sou o abutre da minha própria carniça, eu que sempre me alimentei da carniça dos outros.
Eu sei que todo serial killer tem um desejo oculto: ser descoberto! Sim, essa é a ironia de toda a história. O serial killer é, por natureza, uma espécie de artista, e todo artista só que uma coisa: chamar atenção. Ainda que isso seja permeado por outros fatores, como por exemplo: a busca da beleza, ou a transformação social. Os serial killers são capazes disso tudo, e precisam de muita "arte" para fazer o que fazem. E, é obvio, eles querem reconhecimento, e até recompensas por isso. Com um killer sentimental não havia de ser diferente. Ele quer ser reconhecido, ele quer que eu o pegue. Nós somos personagens de um "teatro do improvável" sinistro. Somos os atores de um stand up comedy demoníaco. Temos funções bem definidas: o killer quer ser perseguido, e eu quero perseguí-lo. Mas por que ele quer ser perseguido? É justamente isso que me intriga. Porque se eu descobrir isso, então terei matado a charada. O que o serial killer quer comigo? Quer me matar? Quer se vingar de mim? Quer me destruir? Pegar meu dinheiro? Sugar o meu cérebro? Tudo o que sei é que esse killer é tão doido quanto eu. Somos como o Batman e o Coringa. Batman não mata o Coringa por princípios, e este mata o Batman porque ele o diverte. E até certo ponto, será que o Coringa, na verdade, não diverte o Batman? Será que o Batman ama o Coringa? Não quero injetar nenhuma conotação homossexual aqui. Quero apenas ilustrar minha relação com este serial killer. Os serial killers tem um jeito próprio de chamar atenção para si, de serem pegos: Eles deixam rastros. Rastros que são feitos para parecer displicência, para parecerem que não devem ser seguidos, mas na verdade são cuidadosamente deixados no caminho. E o padrão. Seria tolice achar que sou a única vitima desse killer, assim como o killer não é meu único caso. Mas atualmente é minha mais forte obsessão. Eu não desisto enquanto não resolvo um mistério. Essa é minha vida, minha paixão, o único rumo da minha estrada entediante.
O serial killer em questão já deixou algumas vítimas pelo caminho: um bobo da corte, um trovador e agora um menestrel. Dá pra perceber aí uma certa predileção, mas confusa. O único que obteve a graça do serial killer, até o momento, foi o menestrel. A única coisa certa é que nenhum deles tem mais alma nem coração. Onde está o coração deles? Mergulhado num vidro de formol? Trancado numa caixa de vidro? Porque tanta fome por músculos cardíacos? Eu queria saber. E também porque o meu está na lista negra (ou na hot list?). Há uma outra vítima cuja identidade é desconhecida ainda. Quem será? O bobo? O trovador? O menestrel? O detetive? Outro? Ela está morta ou ainda vai morrer? Ou talvez seja o primeiro serial killer que deu início ao ciclo de mortes... Talvez seja um killer que tenha destruído a alma do meu atual alvo... Há ainda muitas pistas avulsas: Canções, muitas canções, que, ousadamente, o killer me envia às vezes, como um desafio. Prenda-me, se for capaz! AH! Minhas faces queimam por esse mistérios. Minhas zonas erógenas ficam túrgidas ante tal ensejo! Que relação oculta terão estas canções de ninar com todo o mistério? E, finalmente, que relação terão com aquela chave... A chave que revelará o segredo do meu futuro, do meu triunfo ou da minha morte! O que me faz pensar... o que farei quando desvendar o mistério? Por que farei quando despir a verdade ante meus olhos, e vê-la nua e pura para mim? Porque perseguir tão avidamente um mistério que pode revelar minha desgraça? Porque tentar descobrir algo que talvez eu não queira saber? Então eu acho a resposta em mim mesmo, na minha compulsão. porque minha função não é entender o que acontece, minha função é revelar o segredo, sem me importar com o que vai ser feito dele. Essa é minha sina. Essa é minha compulsão. Talvez eu seja o verdadeiro serial killer! Talvez eu seja o killer sentimental que tanto persigo, ou um killer de mistérios, tentando matar, de mistério em mistério, os segredos do meu próprio coração. E talvez eu nunca descubra, porque o maior mistério de todos é a natureza humana.
Bem, as opções são limitadas: ou eu pego o serial killer, ou o serial killer me pega, ou talvez eu me entregue ao verdadeiro mistério: a mo
Devana Babu
Esse larápio desgraçado está consumindo todas as minhas energias. Só penso em desvendar esse mistério dia após dia. Esse é um dos mistérios mais difíceis da minha vida: perseguir um serial killer sentimental. Nunca fiz isso antes. E sabe o que é mais assustador? É que a vítima sou eu. Eu sou um investigador precoce da minha própria morte. Sou o abutre da minha própria carniça, eu que sempre me alimentei da carniça dos outros.
Eu sei que todo serial killer tem um desejo oculto: ser descoberto! Sim, essa é a ironia de toda a história. O serial killer é, por natureza, uma espécie de artista, e todo artista só que uma coisa: chamar atenção. Ainda que isso seja permeado por outros fatores, como por exemplo: a busca da beleza, ou a transformação social. Os serial killers são capazes disso tudo, e precisam de muita "arte" para fazer o que fazem. E, é obvio, eles querem reconhecimento, e até recompensas por isso. Com um killer sentimental não havia de ser diferente. Ele quer ser reconhecido, ele quer que eu o pegue. Nós somos personagens de um "teatro do improvável" sinistro. Somos os atores de um stand up comedy demoníaco. Temos funções bem definidas: o killer quer ser perseguido, e eu quero perseguí-lo. Mas por que ele quer ser perseguido? É justamente isso que me intriga. Porque se eu descobrir isso, então terei matado a charada. O que o serial killer quer comigo? Quer me matar? Quer se vingar de mim? Quer me destruir? Pegar meu dinheiro? Sugar o meu cérebro? Tudo o que sei é que esse killer é tão doido quanto eu. Somos como o Batman e o Coringa. Batman não mata o Coringa por princípios, e este mata o Batman porque ele o diverte. E até certo ponto, será que o Coringa, na verdade, não diverte o Batman? Será que o Batman ama o Coringa? Não quero injetar nenhuma conotação homossexual aqui. Quero apenas ilustrar minha relação com este serial killer. Os serial killers tem um jeito próprio de chamar atenção para si, de serem pegos: Eles deixam rastros. Rastros que são feitos para parecer displicência, para parecerem que não devem ser seguidos, mas na verdade são cuidadosamente deixados no caminho. E o padrão. Seria tolice achar que sou a única vitima desse killer, assim como o killer não é meu único caso. Mas atualmente é minha mais forte obsessão. Eu não desisto enquanto não resolvo um mistério. Essa é minha vida, minha paixão, o único rumo da minha estrada entediante.
O serial killer em questão já deixou algumas vítimas pelo caminho: um bobo da corte, um trovador e agora um menestrel. Dá pra perceber aí uma certa predileção, mas confusa. O único que obteve a graça do serial killer, até o momento, foi o menestrel. A única coisa certa é que nenhum deles tem mais alma nem coração. Onde está o coração deles? Mergulhado num vidro de formol? Trancado numa caixa de vidro? Porque tanta fome por músculos cardíacos? Eu queria saber. E também porque o meu está na lista negra (ou na hot list?). Há uma outra vítima cuja identidade é desconhecida ainda. Quem será? O bobo? O trovador? O menestrel? O detetive? Outro? Ela está morta ou ainda vai morrer? Ou talvez seja o primeiro serial killer que deu início ao ciclo de mortes... Talvez seja um killer que tenha destruído a alma do meu atual alvo... Há ainda muitas pistas avulsas: Canções, muitas canções, que, ousadamente, o killer me envia às vezes, como um desafio. Prenda-me, se for capaz! AH! Minhas faces queimam por esse mistérios. Minhas zonas erógenas ficam túrgidas ante tal ensejo! Que relação oculta terão estas canções de ninar com todo o mistério? E, finalmente, que relação terão com aquela chave... A chave que revelará o segredo do meu futuro, do meu triunfo ou da minha morte! O que me faz pensar... o que farei quando desvendar o mistério? Por que farei quando despir a verdade ante meus olhos, e vê-la nua e pura para mim? Porque perseguir tão avidamente um mistério que pode revelar minha desgraça? Porque tentar descobrir algo que talvez eu não queira saber? Então eu acho a resposta em mim mesmo, na minha compulsão. porque minha função não é entender o que acontece, minha função é revelar o segredo, sem me importar com o que vai ser feito dele. Essa é minha sina. Essa é minha compulsão. Talvez eu seja o verdadeiro serial killer! Talvez eu seja o killer sentimental que tanto persigo, ou um killer de mistérios, tentando matar, de mistério em mistério, os segredos do meu próprio coração. E talvez eu nunca descubra, porque o maior mistério de todos é a natureza humana.
Bem, as opções são limitadas: ou eu pego o serial killer, ou o serial killer me pega, ou talvez eu me entregue ao verdadeiro mistério: a mo
Devana Babu
quarta-feira, 3 de março de 2010
VIAGEM A PARIS
- Ouvi dizer que vai a Paris.
- Exato.
- A negócio?
- Não.
- Turista?
- Não.
- Missão política reservada?
- Não.
- Tão secreta assim?
- Não.
- Se não sou indiscreto...transa de amor?
- Não.
- Está muito misterioso.
- Não.
- Como não? Saúde, talvez.
- Não.
- Compreendo que não queira alarmar...
- Não.
- Busca apenas repouso.
- Não
- Fugir do trabalho, então.
- Não.
- Capricho do momento.
- Não.
- Tantos não devem significar um sim.
- Não.
- Significam sim. Vou repetir as hipóteses.
- Não.
- Temos pela frente uma indústria nova, de vulto.
- Não.
- De qualquer maneira, é financiamento internacional.
- Não.
- Então a coisa está ficando preta.
- Não.
- Está preta, e há jogadas que só em Paris.
- Não.
- Percebe-se alguma coisa no ar.
- Não.
- Não dá para perceber, mas há.
- Não.
- Mas pode haver a qualquer momento.
- Não.
- Nem hipótese?
- Não.
- Nenhuma nuvem distante, muito distante mesmo?
- Não.
- No ano que vem?
- Não.
- Ouvi mal?
- Não.
- Sendo assim, é segredo pessoal?
- Não.
- O coração é quem dita a viagem... eu sei.
- Não.
- Sim, sim. Pode confessar.
- Não.
- Hoje em dia essas coisas são públicas. Dão até cartaz.
- Não.
- Sei que não precisa disso, mas...
- Não.
- Por que não? Está com medo da imprensa?
- Não.
- Receia perder a situação social?
- Não.
- A situação financeira?
- Não.
- Política?
- Não
- Pois olhe, melhor é preparar o ambiente.
- Não.
- Claro que sim. Insinuar mudança em sua vida.
- Não.
- Discretamente.
- Não.
- De leve, só uma pincelada. Deixe comigo.
- Não.
- Não abro manchete nem boto aquela foto em duas colunas, aquela bacana, lembra?
- Não.
- Só cinco linhas.
- Não.
- Duas.
- Não.
- Mas tenho de dizer alguma coisa.
- Não.
- O senhor é notícia.
- Não.
- Pode dizer que não, mas é sim.
- Não.
- Puxa vida, o senhor hoje está medonho. Resolveu responder não a tudo que é pergunta minha?
- Não.
- Ah, é? Então vamos recomeçar: o senhor vai a Paris?
- Vou.
- E que é que vai fazer em Paris?
- Ver.
- Ver o quê?
- O Último Tango em Paris.
- E por que é que não me disse isso logo, homem de Deus?
- Você não me perguntou, por que eu havia de responder?
Carlos Drummond de Andrade
- Exato.
- A negócio?
- Não.
- Turista?
- Não.
- Missão política reservada?
- Não.
- Tão secreta assim?
- Não.
- Se não sou indiscreto...transa de amor?
- Não.
- Está muito misterioso.
- Não.
- Como não? Saúde, talvez.
- Não.
- Compreendo que não queira alarmar...
- Não.
- Busca apenas repouso.
- Não
- Fugir do trabalho, então.
- Não.
- Capricho do momento.
- Não.
- Tantos não devem significar um sim.
- Não.
- Significam sim. Vou repetir as hipóteses.
- Não.
- Temos pela frente uma indústria nova, de vulto.
- Não.
- De qualquer maneira, é financiamento internacional.
- Não.
- Então a coisa está ficando preta.
- Não.
- Está preta, e há jogadas que só em Paris.
- Não.
- Percebe-se alguma coisa no ar.
- Não.
- Não dá para perceber, mas há.
- Não.
- Mas pode haver a qualquer momento.
- Não.
- Nem hipótese?
- Não.
- Nenhuma nuvem distante, muito distante mesmo?
- Não.
- No ano que vem?
- Não.
- Ouvi mal?
- Não.
- Sendo assim, é segredo pessoal?
- Não.
- O coração é quem dita a viagem... eu sei.
- Não.
- Sim, sim. Pode confessar.
- Não.
- Hoje em dia essas coisas são públicas. Dão até cartaz.
- Não.
- Sei que não precisa disso, mas...
- Não.
- Por que não? Está com medo da imprensa?
- Não.
- Receia perder a situação social?
- Não.
- A situação financeira?
- Não.
- Política?
- Não
- Pois olhe, melhor é preparar o ambiente.
- Não.
- Claro que sim. Insinuar mudança em sua vida.
- Não.
- Discretamente.
- Não.
- De leve, só uma pincelada. Deixe comigo.
- Não.
- Não abro manchete nem boto aquela foto em duas colunas, aquela bacana, lembra?
- Não.
- Só cinco linhas.
- Não.
- Duas.
- Não.
- Mas tenho de dizer alguma coisa.
- Não.
- O senhor é notícia.
- Não.
- Pode dizer que não, mas é sim.
- Não.
- Puxa vida, o senhor hoje está medonho. Resolveu responder não a tudo que é pergunta minha?
- Não.
- Ah, é? Então vamos recomeçar: o senhor vai a Paris?
- Vou.
- E que é que vai fazer em Paris?
- Ver.
- Ver o quê?
- O Último Tango em Paris.
- E por que é que não me disse isso logo, homem de Deus?
- Você não me perguntou, por que eu havia de responder?
Carlos Drummond de Andrade
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