Tarde da noite recoloco a casa toda em seu lugar.
Guardo os papéis todos que sobraram.
Confirmo para mim a solidez dos cadeados.
Nunca mais te disse uma palavra.
Do alto da serra de Petrópolis,
com um chapéu de ponta e e um regador,
Elizabeth reconfirmava, “Perder
é mais fácil que se pensa”.
Rasgo os papéis todos que sobraram.
“Os seus olhos pecam, mas seu corpo
não”,
dizia o tradutor preciso, simultâneo,
e suas mãos é que tremiam. ‘É perigoso”,
ria Carolina perita no papel Kodak.
A câmera em rasante viajava.
A voz em off nas montanhas, inextinguível
fogo domado da paixão, a voz
do espelho dos meus olhos,
negando-se a todas as viagens,
e a voz rascante da velocidade,
de todas três bebi um pouco
Ana C.
domingo, 30 de janeiro de 2011
sebo
O homem disse o próprio nome e ficou me olhando atentamente. Como alguém que tivesse atirado uma moeda num poço e esperasse o "plim" no fundo. Repeti o nome algumas vezes e finalmente me lembrei. Plim. Mas claro.
- Comprei um livro seu não faz muito.
Ele sorriu, mas apenas com a boca. Perguntou se podia entrar. Pedi para ele esperar até que eu desengatasse as sete trancas da porta.
- Você compreende - expliquei -, com essa onda de assassinatos...
Ele compreendia. Estranhos assassinatos. Todas as vítimas eram intelectuais. Ou pelo menos tinham livros em casa. Dezesseis vítimas até então. Se soubesse que seria a décima sétima eu não teria me apressado tanto com as correntes.
- Você leu meu livro? - ele perguntou.
- Li!
Essa terrível necessidade de não magoar os outros. Principalmente os autores novos.
- Não leu - disse ele.
- Li. Li!
Essa obscena compulsão de ser amado.
- Leu todo?
- Todo.
Ele ainda me olhava, desconfiado. Elaborei:
- Aliás, peguei e não larguei mais até chegar ao fim.
Ele ficou em silêncio. Elaborei mais:
- Depois li de novo.
Ele nada. Exclamei:
- Uma beleza!
- Onde é que ele está?
Meu Deus, ele queria a prova. Fiz um gesto vago na direção da estante.
Felizmente, nunca botei um livro fora na minha vida. Ainda tenho - ainda tinha - o meu Livro do bebê. Com a impressão do meu pé recém-nascido, pobre de mim. Venero livros.
Tenho pilhas e pilhas de livros. Gosto do cheiro de livros novos e antigos. Passo dias dentro de livrarias. Gosto de manusear livros, de sentir a textura do papel com os dedos, de sentir seu volume na mão. Ocupo-me tanto de livros e quase não me sobra tempo para a leitura.
Ele encontrou seu livro. Nós dois suspiramos, aliviados. Como é fácil fazer a alegria dos outros, pensei. Com uma pequena mentira eu talvez tivesse dado o empurrão definitivo numa vocação literária que, de outra forma, se frustraria. Num transbordamento de caridade, declarei:
- Que livro! Puxa!
Mas ele não me ouviu. Apertava o livro entre as mãos. Disse:
- O último. Finalmente.
- O quê?
Ele começou a avançar na minha direção. Contou que a tiragem do livro tinha sido pequena. Quinhentos exemplares. Sua mãe comprara 30 e morrera antes de distribuir aos parentes. Ele tinha ficado com 453. Dezessete cópias tinham acabado num sebo que, através dos anos, vendera todos. Ele seguira a pista de 16 dos 17 compradores e os estrangulara. Faltava o décimo sétimo.
- Por quê? - gritei. E acrescentei, anacronicamente: - Homem de Deus?
No livro tinha um cacófato horrível. Ele não podia suportar a idéia de descobrirem
seu cacófato.
- Eu não notei! Eu não notei! - protestei.
Não adiantou. Ninguém que tivesse lido o livro podia continuar vivo. Ele queria deixar o mundo tão inédito quanto nascera.
- Mas essas coisas não têm import... - comecei a dizer.
Mas ele me pegou e me estrangulou.
Bem feito! Para eu aprender a não ser bem-educado. Meu consolo é que depois ele descobriria que as páginas do livro não tinham sido abertas e o remorso envenenaria suas noites.
Enfim. É o que dá freqüentar sebos.
Sebo.
Luís Fernando Veríssimo
- Comprei um livro seu não faz muito.
Ele sorriu, mas apenas com a boca. Perguntou se podia entrar. Pedi para ele esperar até que eu desengatasse as sete trancas da porta.
- Você compreende - expliquei -, com essa onda de assassinatos...
Ele compreendia. Estranhos assassinatos. Todas as vítimas eram intelectuais. Ou pelo menos tinham livros em casa. Dezesseis vítimas até então. Se soubesse que seria a décima sétima eu não teria me apressado tanto com as correntes.
- Você leu meu livro? - ele perguntou.
- Li!
Essa terrível necessidade de não magoar os outros. Principalmente os autores novos.
- Não leu - disse ele.
- Li. Li!
Essa obscena compulsão de ser amado.
- Leu todo?
- Todo.
Ele ainda me olhava, desconfiado. Elaborei:
- Aliás, peguei e não larguei mais até chegar ao fim.
Ele ficou em silêncio. Elaborei mais:
- Depois li de novo.
Ele nada. Exclamei:
- Uma beleza!
- Onde é que ele está?
Meu Deus, ele queria a prova. Fiz um gesto vago na direção da estante.
Felizmente, nunca botei um livro fora na minha vida. Ainda tenho - ainda tinha - o meu Livro do bebê. Com a impressão do meu pé recém-nascido, pobre de mim. Venero livros.
Tenho pilhas e pilhas de livros. Gosto do cheiro de livros novos e antigos. Passo dias dentro de livrarias. Gosto de manusear livros, de sentir a textura do papel com os dedos, de sentir seu volume na mão. Ocupo-me tanto de livros e quase não me sobra tempo para a leitura.
Ele encontrou seu livro. Nós dois suspiramos, aliviados. Como é fácil fazer a alegria dos outros, pensei. Com uma pequena mentira eu talvez tivesse dado o empurrão definitivo numa vocação literária que, de outra forma, se frustraria. Num transbordamento de caridade, declarei:
- Que livro! Puxa!
Mas ele não me ouviu. Apertava o livro entre as mãos. Disse:
- O último. Finalmente.
- O quê?
Ele começou a avançar na minha direção. Contou que a tiragem do livro tinha sido pequena. Quinhentos exemplares. Sua mãe comprara 30 e morrera antes de distribuir aos parentes. Ele tinha ficado com 453. Dezessete cópias tinham acabado num sebo que, através dos anos, vendera todos. Ele seguira a pista de 16 dos 17 compradores e os estrangulara. Faltava o décimo sétimo.
- Por quê? - gritei. E acrescentei, anacronicamente: - Homem de Deus?
No livro tinha um cacófato horrível. Ele não podia suportar a idéia de descobrirem
seu cacófato.
- Eu não notei! Eu não notei! - protestei.
Não adiantou. Ninguém que tivesse lido o livro podia continuar vivo. Ele queria deixar o mundo tão inédito quanto nascera.
- Mas essas coisas não têm import... - comecei a dizer.
Mas ele me pegou e me estrangulou.
Bem feito! Para eu aprender a não ser bem-educado. Meu consolo é que depois ele descobriria que as páginas do livro não tinham sido abertas e o remorso envenenaria suas noites.
Enfim. É o que dá freqüentar sebos.
Sebo.
Luís Fernando Veríssimo
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
O Natal de tia Calu
Tia Calu deixara a porta semi-aberta, para não correr a todo instante a receber os rapazes. Maria Augusta, sozinha, não daria conta do recado. Eram salgadinhos de toda sorte, delicados pastéis, empadinhas apimentadas, camarões recheados, canapés de salmão importado, caprichosas invenções do seu reconhecido gênio culinário. Entre os presentes recebidos àquela manhã havia dois vidros grandes de caviar. Seriam a surpresa da noite. Cortava, amassava, picava, colocava, com requintes de decoradora, trabalho amoroso e sutil, em que punha a alma. Naquela noite todos viriam! Pela primeira vez todos estariam em sua casa, na doce festa de Natal.
Soaram passos na sala.
— Vai ver quem chegou, Maria Augusta.
A preta espiou à porta, viu um jovem oficial, de malinha na mão, contemplando risonho a grande árvore, fulgurante de luzes.
— Tem um que eu não conheço. Está fardado.
— Fardado?
Seu rosto subitamente se fechou. Tia Calu, em suas festas, não gostava que eles viessem de uniforme e todos sabiam disso. O uniforme era a lembrança viva do perigo permanente, da ceifadora implacável.
Tia Calu, em silêncio, lavou as mãos à torneira, enxugou-as lentamente.
— Você, meu filho?
— Pois é, tia Calu — disse o rapaz, alegre, ligeiramente constrangido. — Tenho que estar no campo às cinco horas. Vou para Assunção. Posso dormir aqui, depois da festa?
— Claro, seu pirata! — disse tia Calu abrindo-lhe os braços, beijando-o na testa.
E já brincalhona:
— Mas quem não trabalha não come e não dorme. Venha ajudar na cozinha, que está tudo atrasado e às dez horas a Maria Augusta vai-se embora. Tem festa também...
O capitão deixou a malinha a um canto, sacou fora o dólmã, arregaçou as mangas da camisa.
— Assim que eu gosto. Soldado enfrenta o inimigo em qualquer terreno. E se adapta... A capacidade de adaptação é tudo...
— Eh! Eh! Eh! — riu Maria Augusta, feliz. Ela gostava daquela rapaziada porque topava tudo, não tinha orgulho. Onde é que já se viu um capitão cheio de medalhas botar pastel na frigideira e ficar todo salpicado de gordura?
— Eh! Eh! Eh! Essa Dona Calu tem cada idéia! Mas já havia rumor novo na sala.
— Ô de casa! Pode-se entrar?
— Rua! — disse tia Calu aparecendo, os claros dentes abertos num sorriso. — Rua! Isto aqui não é casa da sogra! — Rua! Rua!
Estava com as mãos cheias de pacotinhos, que os dois lhe passavam.
— Vocês são umas crianças! Pra que essa bobagem?
E colocou, numa alegria de mãe feliz, os pacotes junto ao embrulhinho que o capitão auxiliar de cozinha depositara timidamente sobre um móvel.
— Vocês são impossíveis!
— Sabem que hoje não vai faltar ninguém?
— Não diga! — exclamou surpreso um dos recém-chegados.
— Não falta ninguém! O Guilherme chegou hoje do Pará. Já me telefonou. O Oto conseguiu habeas-corpus da família. Prometeu que vem. E até o Mesquita. Ele me telegrafou de Bagé. Conseguiu licença. Deve estar chegando...
E já dona-de-casa:
— Vão se servindo. Uísque tem à bessa.
— Uísque? Com os preços que andam por aí?
— Ora! Pra que é que a tia Calu trabalha? Não é pra vocês? Sobe o preço do uísque eu subo o preço das aulas, ora essa! Eu acompanho a marcha do câmbio...
Voltaram-se os três. Dois braços apontavam na porta, cada um terminando por uma garrafa de uísque. Tia Calu sorriu de novo:
— E depois, nem era preciso. Eu trabalho com um corpo incansável de contrabandistas... Eles não falham nunca!
Abraços e gargalhadas festejaram a aparição dos braços e garrafas.
— Gelo é só buscar lá dentro!
Voltou à cozinha:
— Vai fazer sala, capitão de bobagem. Seus companheiros estão chegando. Aqui você serve só para atrapalhar.
Vozes e exclamações festivas animavam a sala. Duas horas da manhã!
— Um uísque só — pediu o oficial que chegara primeiro.
— Guaraná, capitão. Hoje você é donzela. Também, pra que é que foi aceitar serviço para a manhã de Natal? É guaraná, se quiser. Você tem de voar muitas horas. E não amola, não, que daqui a pouco eu te ponho na cama...
Tia Calu se mirava amorosa nos doze rapazes. Estavam todos! Não faltava nenhum. Uma juventude magnífica, alguns prematuramente graves, alguns melancólicos, a família longe. O Heitor, um dos bravos da campanha na Itália, fumava muito sério, o copo de uísque na mão esquerda. No mundo, só tinha tia Calu. O único irmão perecera num desastre, dois anos antes, nas margens do Guaporé. Subira num avião obsoleto, que ele sabia sem condições de vôo. Dois outros recordavam uma viagem por Mato Grosso, em que o avião caíra. Haviam escapado por milagre. O mecânico desaparecera.
Tia Calu contemplava a sua macacada, como sempre dizia.
— Vocês não podiam respeitar um pouco esta casa? Isto é família, tá bem?
— Ora, tia Calu, não chacoalha — sorna um rapaz moreno, de sobrancelhas espessas.
Estava a contar ao amigo a história de uma garota conhecida em Anápolis.
E continuando, já alto de uísque:
— Você não faz idéia! Nunca vi criatura mais clara, cabelos mais louros! Mas louro natural, entendeu? Uma coisa maravilhosa! Custei a acreditar que fosse goiana. A gente sempre acha que goiano tem de ser índio...
— O Lauro era goiano e parecia alemão — disse tia Calu.
Ouve um silêncio pesado. Rápido. Lauro caíra seis meses antes. O motor falhara. O avião fora descoberto uma semana depois, quatro homens carbonizados em plena floresta. Tia Calu sentiu um arrepio. Ouvia ainda as três descargas em funeral, diante da cripta dos aviadores, no São João Batista. Vinte e oito anos.
(— Estou ficando velho, tia Calu. Parece que vou ficar pra semente...)
Tia Calu ergueu o copo de uísque à altura dos lábios. Sorria para o Capitão Eduardo:
— Está com inveja, hem, seu boboca? É pra você não aceitar vôo em véspera de Natal, tá bem?
O rapaz fez um muxoxo infantil:
— Ora, tia Calu.
— É pra aprender, entendeu? Olha, prova esses camarões... Trabalho de mestre... Duvido que você já tenha comido coisa melhor... Alguém cantarolava na cozinha, procurando mais gelo.
— Pára com essa taquara rachada — ordenou uma voz, ligeiramente engrolada.
Tia Calu se ergueu, dirigiu-se para o interior. Voz tinha o Meira. Estava agora em Pistóia. Tia Calu mordeu os lábios. Meira deixara um filhinho, tinha agora oito anos.
(— O que é que você vai ser quando homem, Vadinho?
— Ué! Aviador, tia Calu!)
Ela já estava na cozinha, um amontoado de bandejas, pratos, panelas, garrafas.
— Puxa! Você não presta nem pra tirar gelo, Simão. Nunca vi cara mais sem jeito! Escorre um pouco de água em cima, que eles se desprendem .
O rapaz olhou-a, atarantado. Tia Calu aproximou-se, em voz baixa:
— Você não tinha arranjado uma colocação no Ministério?
— Falhou, tia Calu.
Ela ficou séria, olhando a testa larga, os olhos ingênuos do moço. Fazendo viagens longas, voando em ferro velho, a mulher esperando bebê. Era o mais imprudente de todos. Na escola, até os instrutores tinham medo de subir com ele. Fora várias vezes censurado, até punido. Adorava os malabarismos no espaço. Ficava possuído, ao subir, de verdadeiro delírio. Dos malucos da turma, dos tidos como malucos, era o único sobrevivente. Por que não tivera ainda a sorte de cair e ficar inutilizado para os vôos, arranjando sinecura numa base qualquer, pegando uma promoção, livrando-a daquela agonia permanente?
— Vai ser menino ou menina?
— Pelo jeito, menina.
— Graças a Deus — disse tia Calu, arrumando uns canapés.
Voltou para a sala com a bandeja. O grupo cantava, agora, um dos sambas do pré-carnaval. Tia Calu parou à porta, contente de ver aquela sadia despreocupação. Eram o seu orgulho, aqueles rapazes. Caíam como pássaros atingidos em bando, por invisíveis caçadores. Tinham filhos, mãe, esposa, irmãs, gente que vivia em terra, sempre de coração pequenino. Voavam sempre, os nervos de aço, a vontade inquebrantável. Pela primeira vez os tinha todos ao mesmo tempo em casa. Rapazes de escol, exemplares raros de coragem, de saúde física, de saúde moral. Era como se fossem filhos. Nunca mãe nenhuma tivera tantos filhos, tantos filhos tão jovens, tão fortes, tão belos. Pena que não estivessem todos como Carlos. Ah! antes estivessem! E o coração apertado, pousou os olhos enternecidos em Carlos. Somente Carlos não cantava. Levava aos lábios um pastel de camarão. Uma entrada profunda no frontal, que lhe deformava a cabeça, garantia que Carlos não voaria mais.
Olhou o relógio de pulso.
— Duas e meia, capitão! Berço! Chega de guaraná! Vai dormir! Quer que eu te chame a que horas?
O rapaz, que cantava também, quis protestar.
— Não tem choro não. Vai dizendo boa-noite, dá um beijo na mamãe, vai dormir.
O capitão se ergueu, obedeceu docilmente. Pouco depois, um a um, o grupo se dispersava.
— Bom Natal, tia Calu.
Quando se viu só — o capitão ressonava. Maria Augusta saíra às dez horas, o apartamento em silêncio — tia Calu olhou a sala. Parecia um campo de batalha. Precisava pôr em ordem tudo aquilo, senão Maria Augusta resmungaria o dia inteiro. Começou a reunir os copos numa bandeja. Treze copos, doze de uísque, um dela, e o de guaraná, do capitão que ressonava. Aproximou-se, na mão a bandeja, ficou a observar-lhe o sono vagamente atormentado. A seguir, voltou e, a bandeja sempre na mão, atulhada de copos, enfrentou o retrato do filho na parede principal da sala, medalhas e citações ao lado. Durante toda a noite passara despercebido. Havia como que um acordo tácito. Tia Calu agora encarava o filho. Depois, os olhos enxutos, agitou a cabeça:
— E pensar que vocês eram setenta e oito, tenente, setenta e oito!
Orígenes Lessa
Soaram passos na sala.
— Vai ver quem chegou, Maria Augusta.
A preta espiou à porta, viu um jovem oficial, de malinha na mão, contemplando risonho a grande árvore, fulgurante de luzes.
— Tem um que eu não conheço. Está fardado.
— Fardado?
Seu rosto subitamente se fechou. Tia Calu, em suas festas, não gostava que eles viessem de uniforme e todos sabiam disso. O uniforme era a lembrança viva do perigo permanente, da ceifadora implacável.
Tia Calu, em silêncio, lavou as mãos à torneira, enxugou-as lentamente.
— Você, meu filho?
— Pois é, tia Calu — disse o rapaz, alegre, ligeiramente constrangido. — Tenho que estar no campo às cinco horas. Vou para Assunção. Posso dormir aqui, depois da festa?
— Claro, seu pirata! — disse tia Calu abrindo-lhe os braços, beijando-o na testa.
E já brincalhona:
— Mas quem não trabalha não come e não dorme. Venha ajudar na cozinha, que está tudo atrasado e às dez horas a Maria Augusta vai-se embora. Tem festa também...
O capitão deixou a malinha a um canto, sacou fora o dólmã, arregaçou as mangas da camisa.
— Assim que eu gosto. Soldado enfrenta o inimigo em qualquer terreno. E se adapta... A capacidade de adaptação é tudo...
— Eh! Eh! Eh! — riu Maria Augusta, feliz. Ela gostava daquela rapaziada porque topava tudo, não tinha orgulho. Onde é que já se viu um capitão cheio de medalhas botar pastel na frigideira e ficar todo salpicado de gordura?
— Eh! Eh! Eh! Essa Dona Calu tem cada idéia! Mas já havia rumor novo na sala.
— Ô de casa! Pode-se entrar?
— Rua! — disse tia Calu aparecendo, os claros dentes abertos num sorriso. — Rua! Isto aqui não é casa da sogra! — Rua! Rua!
Estava com as mãos cheias de pacotinhos, que os dois lhe passavam.
— Vocês são umas crianças! Pra que essa bobagem?
E colocou, numa alegria de mãe feliz, os pacotes junto ao embrulhinho que o capitão auxiliar de cozinha depositara timidamente sobre um móvel.
— Vocês são impossíveis!
— Sabem que hoje não vai faltar ninguém?
— Não diga! — exclamou surpreso um dos recém-chegados.
— Não falta ninguém! O Guilherme chegou hoje do Pará. Já me telefonou. O Oto conseguiu habeas-corpus da família. Prometeu que vem. E até o Mesquita. Ele me telegrafou de Bagé. Conseguiu licença. Deve estar chegando...
E já dona-de-casa:
— Vão se servindo. Uísque tem à bessa.
— Uísque? Com os preços que andam por aí?
— Ora! Pra que é que a tia Calu trabalha? Não é pra vocês? Sobe o preço do uísque eu subo o preço das aulas, ora essa! Eu acompanho a marcha do câmbio...
Voltaram-se os três. Dois braços apontavam na porta, cada um terminando por uma garrafa de uísque. Tia Calu sorriu de novo:
— E depois, nem era preciso. Eu trabalho com um corpo incansável de contrabandistas... Eles não falham nunca!
Abraços e gargalhadas festejaram a aparição dos braços e garrafas.
— Gelo é só buscar lá dentro!
Voltou à cozinha:
— Vai fazer sala, capitão de bobagem. Seus companheiros estão chegando. Aqui você serve só para atrapalhar.
Vozes e exclamações festivas animavam a sala. Duas horas da manhã!
— Um uísque só — pediu o oficial que chegara primeiro.
— Guaraná, capitão. Hoje você é donzela. Também, pra que é que foi aceitar serviço para a manhã de Natal? É guaraná, se quiser. Você tem de voar muitas horas. E não amola, não, que daqui a pouco eu te ponho na cama...
Tia Calu se mirava amorosa nos doze rapazes. Estavam todos! Não faltava nenhum. Uma juventude magnífica, alguns prematuramente graves, alguns melancólicos, a família longe. O Heitor, um dos bravos da campanha na Itália, fumava muito sério, o copo de uísque na mão esquerda. No mundo, só tinha tia Calu. O único irmão perecera num desastre, dois anos antes, nas margens do Guaporé. Subira num avião obsoleto, que ele sabia sem condições de vôo. Dois outros recordavam uma viagem por Mato Grosso, em que o avião caíra. Haviam escapado por milagre. O mecânico desaparecera.
Tia Calu contemplava a sua macacada, como sempre dizia.
— Vocês não podiam respeitar um pouco esta casa? Isto é família, tá bem?
— Ora, tia Calu, não chacoalha — sorna um rapaz moreno, de sobrancelhas espessas.
Estava a contar ao amigo a história de uma garota conhecida em Anápolis.
E continuando, já alto de uísque:
— Você não faz idéia! Nunca vi criatura mais clara, cabelos mais louros! Mas louro natural, entendeu? Uma coisa maravilhosa! Custei a acreditar que fosse goiana. A gente sempre acha que goiano tem de ser índio...
— O Lauro era goiano e parecia alemão — disse tia Calu.
Ouve um silêncio pesado. Rápido. Lauro caíra seis meses antes. O motor falhara. O avião fora descoberto uma semana depois, quatro homens carbonizados em plena floresta. Tia Calu sentiu um arrepio. Ouvia ainda as três descargas em funeral, diante da cripta dos aviadores, no São João Batista. Vinte e oito anos.
(— Estou ficando velho, tia Calu. Parece que vou ficar pra semente...)
Tia Calu ergueu o copo de uísque à altura dos lábios. Sorria para o Capitão Eduardo:
— Está com inveja, hem, seu boboca? É pra você não aceitar vôo em véspera de Natal, tá bem?
O rapaz fez um muxoxo infantil:
— Ora, tia Calu.
— É pra aprender, entendeu? Olha, prova esses camarões... Trabalho de mestre... Duvido que você já tenha comido coisa melhor... Alguém cantarolava na cozinha, procurando mais gelo.
— Pára com essa taquara rachada — ordenou uma voz, ligeiramente engrolada.
Tia Calu se ergueu, dirigiu-se para o interior. Voz tinha o Meira. Estava agora em Pistóia. Tia Calu mordeu os lábios. Meira deixara um filhinho, tinha agora oito anos.
(— O que é que você vai ser quando homem, Vadinho?
— Ué! Aviador, tia Calu!)
Ela já estava na cozinha, um amontoado de bandejas, pratos, panelas, garrafas.
— Puxa! Você não presta nem pra tirar gelo, Simão. Nunca vi cara mais sem jeito! Escorre um pouco de água em cima, que eles se desprendem .
O rapaz olhou-a, atarantado. Tia Calu aproximou-se, em voz baixa:
— Você não tinha arranjado uma colocação no Ministério?
— Falhou, tia Calu.
Ela ficou séria, olhando a testa larga, os olhos ingênuos do moço. Fazendo viagens longas, voando em ferro velho, a mulher esperando bebê. Era o mais imprudente de todos. Na escola, até os instrutores tinham medo de subir com ele. Fora várias vezes censurado, até punido. Adorava os malabarismos no espaço. Ficava possuído, ao subir, de verdadeiro delírio. Dos malucos da turma, dos tidos como malucos, era o único sobrevivente. Por que não tivera ainda a sorte de cair e ficar inutilizado para os vôos, arranjando sinecura numa base qualquer, pegando uma promoção, livrando-a daquela agonia permanente?
— Vai ser menino ou menina?
— Pelo jeito, menina.
— Graças a Deus — disse tia Calu, arrumando uns canapés.
Voltou para a sala com a bandeja. O grupo cantava, agora, um dos sambas do pré-carnaval. Tia Calu parou à porta, contente de ver aquela sadia despreocupação. Eram o seu orgulho, aqueles rapazes. Caíam como pássaros atingidos em bando, por invisíveis caçadores. Tinham filhos, mãe, esposa, irmãs, gente que vivia em terra, sempre de coração pequenino. Voavam sempre, os nervos de aço, a vontade inquebrantável. Pela primeira vez os tinha todos ao mesmo tempo em casa. Rapazes de escol, exemplares raros de coragem, de saúde física, de saúde moral. Era como se fossem filhos. Nunca mãe nenhuma tivera tantos filhos, tantos filhos tão jovens, tão fortes, tão belos. Pena que não estivessem todos como Carlos. Ah! antes estivessem! E o coração apertado, pousou os olhos enternecidos em Carlos. Somente Carlos não cantava. Levava aos lábios um pastel de camarão. Uma entrada profunda no frontal, que lhe deformava a cabeça, garantia que Carlos não voaria mais.
Olhou o relógio de pulso.
— Duas e meia, capitão! Berço! Chega de guaraná! Vai dormir! Quer que eu te chame a que horas?
O rapaz, que cantava também, quis protestar.
— Não tem choro não. Vai dizendo boa-noite, dá um beijo na mamãe, vai dormir.
O capitão se ergueu, obedeceu docilmente. Pouco depois, um a um, o grupo se dispersava.
— Bom Natal, tia Calu.
Quando se viu só — o capitão ressonava. Maria Augusta saíra às dez horas, o apartamento em silêncio — tia Calu olhou a sala. Parecia um campo de batalha. Precisava pôr em ordem tudo aquilo, senão Maria Augusta resmungaria o dia inteiro. Começou a reunir os copos numa bandeja. Treze copos, doze de uísque, um dela, e o de guaraná, do capitão que ressonava. Aproximou-se, na mão a bandeja, ficou a observar-lhe o sono vagamente atormentado. A seguir, voltou e, a bandeja sempre na mão, atulhada de copos, enfrentou o retrato do filho na parede principal da sala, medalhas e citações ao lado. Durante toda a noite passara despercebido. Havia como que um acordo tácito. Tia Calu agora encarava o filho. Depois, os olhos enxutos, agitou a cabeça:
— E pensar que vocês eram setenta e oito, tenente, setenta e oito!
Orígenes Lessa
sábado, 8 de janeiro de 2011
Samba de Breque
Esta história é verdade. Um tio meu vinha subindo a Rua Lopes Quintas, na Gávea -- era noite -- quando ouviu sons de cavaquinho provenientes de um dos muitos casebres que minha avó viúva permite nos seus terrenos. O cavaco cavucava em cima de um samba de breque e esse meu tio, compositor ele próprio, resolveu dar uma estirada até a casa, que era a de um conhecido seu, companheiro de música, um rapaz operário com mulher e uma penca de filhos. Tinha toda a intimidade com a família e às vezes ficava por lá horas inteiras com o amigo, cada qual palhetando no seu cavaquinho, puxando música madrugada adentro. Nessa noite o ambiente era diverso. À luz mortiça da sala meu tio viu a família dolorosamente reunida em torno de uma pequena mesa mortuária, sobre a qual repousava o corpo de um "anjinho". Era o caçula da casa que tinha morrido, e meu tio, parado à porta, não teve outro jeito senão entrar, dar as condolências de praxe e reunir-se ao velório. O ambiente era de dor discreta -- tantos filhos! -- de modo que ao fim de poucos minutos resolveu partir. Tocou no braço da mulher e fez-lhe um sinal. Mas esta, saindo da sua perplexidade, pediu-lhe que entrasse para ver o amigo. Foi encontrá-lo num miserável aposento interior, sentado num catre, o cavaquinho na mão.
-- Pois é, velhinho. Veja só... O meu caçula...
Meu tio bateu-lhe no ombro, consolando-o. A presença amiga trouxe para o pai uma pequena e doce crise de lágrimas de que ele muito se desculpou com ar machão:
-- Poxa, seu! Até pareço mulher! Não repara, hein companheiro...
Meu tio, com ar mais machão ainda, fez qual-que-bobagem, essa coisa. Depois o rapaz disse:
-- Tenho um negocinho para te mostrar...
E teve um gesto vago, apontando a sala onde estava o filho morto, como a significar qualquer coisa que meu tio não compreendeu bem.
-- Manda lá.
Conta meu tio que, depois de uma introdução dentro das regras, o rapaz entrou com um samba de breque que, cantado em voz respeitosamente baixa e ainda úmida de choro, dizia mais ou menos o seguinte:
Tava feliz
Tinha vindo do trabalho
E ainda tinha tomado
Uma privação de sentidos no boteco ao lado
Que bom que estava o carteado...
O dia ganho
E mais um extra pra família
Resolvi ir para casa
E gozar
A paz do lar
-- Não há maior maravilha!
Mal abro a porta
Dou com uma mesa na sala
A minha mulher sem fala
E no ambiente flores mil
E sobre a mesa
Todo vestido de anjinho
O Manduca meu filhinho
Tinha esticado o pernil.
Diz meu tio que, entre horrorizado e comovido com aquela ingênua e macabra celebração do filho morto, ouviu o amigo, a pipocar lágrimas dos olhos fixos no vácuo, rasgar o breque do samba em palhetadas duras:
— O meu filhinho
Já durinho
Geladinho!
Vinicius de Moraes
-- Pois é, velhinho. Veja só... O meu caçula...
Meu tio bateu-lhe no ombro, consolando-o. A presença amiga trouxe para o pai uma pequena e doce crise de lágrimas de que ele muito se desculpou com ar machão:
-- Poxa, seu! Até pareço mulher! Não repara, hein companheiro...
Meu tio, com ar mais machão ainda, fez qual-que-bobagem, essa coisa. Depois o rapaz disse:
-- Tenho um negocinho para te mostrar...
E teve um gesto vago, apontando a sala onde estava o filho morto, como a significar qualquer coisa que meu tio não compreendeu bem.
-- Manda lá.
Conta meu tio que, depois de uma introdução dentro das regras, o rapaz entrou com um samba de breque que, cantado em voz respeitosamente baixa e ainda úmida de choro, dizia mais ou menos o seguinte:
Tava feliz
Tinha vindo do trabalho
E ainda tinha tomado
Uma privação de sentidos no boteco ao lado
Que bom que estava o carteado...
O dia ganho
E mais um extra pra família
Resolvi ir para casa
E gozar
A paz do lar
-- Não há maior maravilha!
Mal abro a porta
Dou com uma mesa na sala
A minha mulher sem fala
E no ambiente flores mil
E sobre a mesa
Todo vestido de anjinho
O Manduca meu filhinho
Tinha esticado o pernil.
Diz meu tio que, entre horrorizado e comovido com aquela ingênua e macabra celebração do filho morto, ouviu o amigo, a pipocar lágrimas dos olhos fixos no vácuo, rasgar o breque do samba em palhetadas duras:
— O meu filhinho
Já durinho
Geladinho!
Vinicius de Moraes
domingo, 25 de julho de 2010
O Contenção
Gíria da favela
Contenção – olheiro
Cesinha tomou banho e as seis horas da tarde estava na sua base, a base três. A base três era a pior base para ficar observando se a policia entrava ou não na favela. Era ruim porque no local não tinha apenas uma rua, era uma encruzilhada onde tinha de se preocupar com os carros que vinham das quatro direções,o camburão ou a radio patrulha e ainda os carros civis que os policiais as vezes entravam na favela, na maior parte das vezes em missões não oficiais. Podiam vir de qualquer uma delas, da esquerda, da direita, pela frente, por trás, por isso era bom estar sempre alerta. To vendo alguma coisa lá longe! Caralho! Que carro é aquele? Acho que não é a policia não! Quando o carro se aproximou, Cesinha pode notar que era um gol branco de algum morador. Não teria que estourar o foguete de doze tiros. Durante uns dez minutos, não passou nenhum carro e ele pode respirar sossegado. Seu sossego durou pouco, dessa vez era um carro da policia, um camburão, assim que teve certeza se tratar de um carro da policia, tirou o isqueiro do bolso, saiu correndo e estalou o foguete. Da sua base foi correndo para um bar que ficava numa rua atrás da base três, ali Cesinha se misturava com os freqüentadores e podia ficar observando o momento em que os policiais fossem embora, para voltar a sua base, a base três. A incursão da policia durou pouco, eles estavam somente passando, sem nenhuma missão, foram na direção da boca, porem como os policiais não viram ninguem na pista e nem nada que chamasse a atenção deles, continuaram sua ronda e foram para outra parte da favela. Quinze minutos depois pegou outro foguete no quintal de uma casa abandonada e voltou para a base.
Ao longe pode ver Natalia vindo na direção dele. Natalia era a alegria dos fogueteiros, já tinha saído com quase todos que a boca tinha, cerca de quinze moleques. Ela parou ao lado dele sorrindo.
- oi Cesinha, tudo bem.
- to legal e você?
- tudo bem comigo.
- depois que eu sair daqui, vamos lá em casa?
Natalia olhou para Cesinha e riu. Natalia era uma menina bonita, tinha uns quinze pra dezeseis anos, era loirinha, tinha olhos negros bem envolventes. Poderia namorar um rapaz trabalhador, que não fosse envolvido com o trafico de drogas. Porem ela tinha mesmo era tesão por bandido, gostava de ficar conversando com os contenções e ficar fumando maconha com eles nas esquinas, geralmente sempre ia para algum lugar dar para eles depois do expediente. Já tinha transado no mato, no quintal da casa dos outros, no banheiro de boteco, tudo isso nas madrugadas, onde todos os gatos são pardos.
- vou sim, leva um pra gente torrar lá.
- pode deixar vou levar um do boldinho.
- que horas você vai sair daqui hoje.
- vou sair daqui lá pras três horas.
- três e meia eu vou lá na sua casa, vou ficar um pouco no baile com as garotas e depois eu vou pra lá.
- vou te aguardar hein.
Natalia foi embora e Cesinha voltou para o seu trabalho, começou a pensar nas coisas que ele e Natalia iriam fazer mais tarde, sabia que ela era muito boa de cama, já tinha transado antes e todas as vezes ela deixava nele, aquele gostinho de quero mais. Careta ela fodia muito bem, agora chapada de maconha ele a era um verdadeiro demônio na cama, fazia tudo e um pouco mais. Distraído pensando nela, cometeu um erro muito grave para um fogueteiro, confundiu um carro comum com um carro da policia e estalou o foguete. Quando o carro passou próximo dele, viu que tinha feito uma merda. Todos os bandidos se esconderiam ao ouvirem os fogos e depois ao saberem que foi um alarme falso, iam cobrar de quem deu o alarme. Não se passou dez minutos depois do alarme falso e um outro moleque da boca foi falar com ele.
- Aí tão te chamando lá na laje, querem desenrolar contigo a merda que você fez. Eu vou ficar aqui no seu lugar.
A laje onde os bandidos ficavam na noite fazendo a vigilância da favela, não era muito longe dali da base três, onde ele estava. Cesinha entrou no quintal da casa, subiu no muro e foi para a laje. Chegando lá em cima um dos traficantes foi logo lhe dando com o cabo do fuzil na barriga.
- qual foi a tua compadre. Você é maluco? Estourou os fogos sem ver a policia?
- Poxa, foi mal. Eu confundi uma blazer com a blazer da policia.
- foi mal é o caralho. Tu acha que eu gosto de correr atoa da policia. Se liga na tua responsa. Aí da um corretivo nesse filho da puta.
Cesinha fechou os olhos, sabia que ia apanhar. Tomou uma banda e quando caiu, levou chute pelo corpo todo, só teve tempo de proteger o rosto. Apanhou bem doído. Desceu da laje todo dolorido e com alguns hematomas, mas nada que o impedisse de continuar seu trabalho, ainda bem que não cortaram meu pagamento. Pensou e sorriu. Apesar das dores que sentia. Ainda transaria com Natalia. Voltou para sua base, o moleque que ficou no lugar dele, entregou o foguete e o isqueiro, antes de ir embora olhou para Cesinha.
- ainda bem que não te bateram muito. Uma vez tomei uma coça, que cheguei a mijar sangue.
- mas foi a primeira vez que eu errei, eles não tinham que reclamar, mas semana que vem vou sair dessa, vou começar a traficar maluco, essa de ser contenção não ta dando mais não, o bagulho é ser vapor.
Sozinho de novo na minha base. Tomara que a policia não venha de novo. Caralho, minha costela esta doendo um pouco, quando eu chegar em casa, vou pedir pra minha mãe colocar aqui um pouquinho de saião amassado com sal grosso e com certeza amanha vai estar legal. Não vou deixar a Natalia escapar de mim hoje. Hoje ela vai ser toda minha.
Um camburão da PM entrou a toda na favela, antes mesmo que cesinha pudesse estourar os fogos, os policiais largaram o dedo em cima dele, que saiu correndo e cerca de trinta metros depois da base três, conseguiu estalar os fogos, pular um muro e se esconder no quintal de uma casa. Pode escutar o barulho dos pneus do carro da policia e uns trinta segundos depois alguns tiros. Cesinha ficou escondido na casa cerca de meia hora e depois como não ouviu mais nada, saiu do esconderijo. Na rua encontrou um amigo com quem costumava fumar maconha nas horas de folga.
- ta tranqüilo? – perguntou cesinha.
- agora ta tranqüilo sim. Os caras ouviram os tiros e depois os fogos. Foi em cima de tu que os home deram?
- foi sim maluco, eu corri e estalei né.
- aí os home chegaram na boca neguinho e largaram o aço nos viciados tudo. Foi viciado pra tudo quanto é lado, os home desceram e deram tapa na cara de um monte deles. Sinistro. Esse plantão de hoje, os policia são neurótico, tudo endemoninhado, nem arrego eles aceitam. – explicou o puxa saco de traficante.
Cesinha continuou em sua base, olhou para o relógio, iam dar dez da noite. Porra! To cheio de fome. Esperou cerca de dez minutos até que viu Hugo, um menino de dez anos de idade, que fazia favores para os bandidos e contenções e que com certeza dentro de pouco tempo estaria na boca.
- cole menor chega aí!
O moleque veio, apertou a mão de cesinha.
- fala ai braço!
- da uma moral ai pra mim, vai até ali no MC lanches e compra um x - tudo e uma vitamina de banana sem aveia, fala que é pra mim.
- tranqüilo! Posso pegar um hambúrguer pra mim, to na maior larica?
- já é!
Cesinha estava saboreando o seu podrão, quando para seu azar viu o camburão se aproximando, deu uma ultima dentada no x-podrão, saiu correndo, acendeu o isqueiro e estalou o foguete. Se escondeu novamente no bar. Para seu azar o camburão foi na direção do bar. Cesinha pegou um taco de sinuca e ficou com ele na mão. O camburão parou na frente do bar, o sargento desceu e chamou cesinha.
- chega aí moleque.
Cesinha foi até o carro da policia.
- ta fazendo o que aqui? – perguntou o policial.
- eu estava jogando sinuca.
- jogando sinuca o caralho! Você é fogueteiro isso sim!
Sem que Cesinha esperasse, o sargento deu um tapa no pé do ouvido dele. A pancada foi com tanta força que sua orelha ficou quente e seu ouvido zumbindo. O sargento voltou para o camburão e foi embora. Cesinha voltou para o bar, lavou o rosto no banheiro e voltou para a sua base.
No restante da noite não teve mais nenhuma incursão da policia, depois da troca de plantão, os traficantes pagaram o arrego.
Gíria da favela
Arrego – dinheiro pago a policia para que durante determinado plantão não haja incursões nas favelas.
Bebeto, o outro moleque que fazia o terceiro turno da base três chegou, Cesinha entregou o isqueiro e o foguete, apertou a mão dele e foi embora. Foi a ultima vez que ele viu Bebeto, na manha seguinte Bebeto foi morto pela policia. Cesinha foi na boca, pegou sua diária, quarenta reais e foi para casa esperar por Natalia.
Julio Pecly
Contenção – olheiro
Cesinha tomou banho e as seis horas da tarde estava na sua base, a base três. A base três era a pior base para ficar observando se a policia entrava ou não na favela. Era ruim porque no local não tinha apenas uma rua, era uma encruzilhada onde tinha de se preocupar com os carros que vinham das quatro direções,o camburão ou a radio patrulha e ainda os carros civis que os policiais as vezes entravam na favela, na maior parte das vezes em missões não oficiais. Podiam vir de qualquer uma delas, da esquerda, da direita, pela frente, por trás, por isso era bom estar sempre alerta. To vendo alguma coisa lá longe! Caralho! Que carro é aquele? Acho que não é a policia não! Quando o carro se aproximou, Cesinha pode notar que era um gol branco de algum morador. Não teria que estourar o foguete de doze tiros. Durante uns dez minutos, não passou nenhum carro e ele pode respirar sossegado. Seu sossego durou pouco, dessa vez era um carro da policia, um camburão, assim que teve certeza se tratar de um carro da policia, tirou o isqueiro do bolso, saiu correndo e estalou o foguete. Da sua base foi correndo para um bar que ficava numa rua atrás da base três, ali Cesinha se misturava com os freqüentadores e podia ficar observando o momento em que os policiais fossem embora, para voltar a sua base, a base três. A incursão da policia durou pouco, eles estavam somente passando, sem nenhuma missão, foram na direção da boca, porem como os policiais não viram ninguem na pista e nem nada que chamasse a atenção deles, continuaram sua ronda e foram para outra parte da favela. Quinze minutos depois pegou outro foguete no quintal de uma casa abandonada e voltou para a base.
Ao longe pode ver Natalia vindo na direção dele. Natalia era a alegria dos fogueteiros, já tinha saído com quase todos que a boca tinha, cerca de quinze moleques. Ela parou ao lado dele sorrindo.
- oi Cesinha, tudo bem.
- to legal e você?
- tudo bem comigo.
- depois que eu sair daqui, vamos lá em casa?
Natalia olhou para Cesinha e riu. Natalia era uma menina bonita, tinha uns quinze pra dezeseis anos, era loirinha, tinha olhos negros bem envolventes. Poderia namorar um rapaz trabalhador, que não fosse envolvido com o trafico de drogas. Porem ela tinha mesmo era tesão por bandido, gostava de ficar conversando com os contenções e ficar fumando maconha com eles nas esquinas, geralmente sempre ia para algum lugar dar para eles depois do expediente. Já tinha transado no mato, no quintal da casa dos outros, no banheiro de boteco, tudo isso nas madrugadas, onde todos os gatos são pardos.
- vou sim, leva um pra gente torrar lá.
- pode deixar vou levar um do boldinho.
- que horas você vai sair daqui hoje.
- vou sair daqui lá pras três horas.
- três e meia eu vou lá na sua casa, vou ficar um pouco no baile com as garotas e depois eu vou pra lá.
- vou te aguardar hein.
Natalia foi embora e Cesinha voltou para o seu trabalho, começou a pensar nas coisas que ele e Natalia iriam fazer mais tarde, sabia que ela era muito boa de cama, já tinha transado antes e todas as vezes ela deixava nele, aquele gostinho de quero mais. Careta ela fodia muito bem, agora chapada de maconha ele a era um verdadeiro demônio na cama, fazia tudo e um pouco mais. Distraído pensando nela, cometeu um erro muito grave para um fogueteiro, confundiu um carro comum com um carro da policia e estalou o foguete. Quando o carro passou próximo dele, viu que tinha feito uma merda. Todos os bandidos se esconderiam ao ouvirem os fogos e depois ao saberem que foi um alarme falso, iam cobrar de quem deu o alarme. Não se passou dez minutos depois do alarme falso e um outro moleque da boca foi falar com ele.
- Aí tão te chamando lá na laje, querem desenrolar contigo a merda que você fez. Eu vou ficar aqui no seu lugar.
A laje onde os bandidos ficavam na noite fazendo a vigilância da favela, não era muito longe dali da base três, onde ele estava. Cesinha entrou no quintal da casa, subiu no muro e foi para a laje. Chegando lá em cima um dos traficantes foi logo lhe dando com o cabo do fuzil na barriga.
- qual foi a tua compadre. Você é maluco? Estourou os fogos sem ver a policia?
- Poxa, foi mal. Eu confundi uma blazer com a blazer da policia.
- foi mal é o caralho. Tu acha que eu gosto de correr atoa da policia. Se liga na tua responsa. Aí da um corretivo nesse filho da puta.
Cesinha fechou os olhos, sabia que ia apanhar. Tomou uma banda e quando caiu, levou chute pelo corpo todo, só teve tempo de proteger o rosto. Apanhou bem doído. Desceu da laje todo dolorido e com alguns hematomas, mas nada que o impedisse de continuar seu trabalho, ainda bem que não cortaram meu pagamento. Pensou e sorriu. Apesar das dores que sentia. Ainda transaria com Natalia. Voltou para sua base, o moleque que ficou no lugar dele, entregou o foguete e o isqueiro, antes de ir embora olhou para Cesinha.
- ainda bem que não te bateram muito. Uma vez tomei uma coça, que cheguei a mijar sangue.
- mas foi a primeira vez que eu errei, eles não tinham que reclamar, mas semana que vem vou sair dessa, vou começar a traficar maluco, essa de ser contenção não ta dando mais não, o bagulho é ser vapor.
Sozinho de novo na minha base. Tomara que a policia não venha de novo. Caralho, minha costela esta doendo um pouco, quando eu chegar em casa, vou pedir pra minha mãe colocar aqui um pouquinho de saião amassado com sal grosso e com certeza amanha vai estar legal. Não vou deixar a Natalia escapar de mim hoje. Hoje ela vai ser toda minha.
Um camburão da PM entrou a toda na favela, antes mesmo que cesinha pudesse estourar os fogos, os policiais largaram o dedo em cima dele, que saiu correndo e cerca de trinta metros depois da base três, conseguiu estalar os fogos, pular um muro e se esconder no quintal de uma casa. Pode escutar o barulho dos pneus do carro da policia e uns trinta segundos depois alguns tiros. Cesinha ficou escondido na casa cerca de meia hora e depois como não ouviu mais nada, saiu do esconderijo. Na rua encontrou um amigo com quem costumava fumar maconha nas horas de folga.
- ta tranqüilo? – perguntou cesinha.
- agora ta tranqüilo sim. Os caras ouviram os tiros e depois os fogos. Foi em cima de tu que os home deram?
- foi sim maluco, eu corri e estalei né.
- aí os home chegaram na boca neguinho e largaram o aço nos viciados tudo. Foi viciado pra tudo quanto é lado, os home desceram e deram tapa na cara de um monte deles. Sinistro. Esse plantão de hoje, os policia são neurótico, tudo endemoninhado, nem arrego eles aceitam. – explicou o puxa saco de traficante.
Cesinha continuou em sua base, olhou para o relógio, iam dar dez da noite. Porra! To cheio de fome. Esperou cerca de dez minutos até que viu Hugo, um menino de dez anos de idade, que fazia favores para os bandidos e contenções e que com certeza dentro de pouco tempo estaria na boca.
- cole menor chega aí!
O moleque veio, apertou a mão de cesinha.
- fala ai braço!
- da uma moral ai pra mim, vai até ali no MC lanches e compra um x - tudo e uma vitamina de banana sem aveia, fala que é pra mim.
- tranqüilo! Posso pegar um hambúrguer pra mim, to na maior larica?
- já é!
Cesinha estava saboreando o seu podrão, quando para seu azar viu o camburão se aproximando, deu uma ultima dentada no x-podrão, saiu correndo, acendeu o isqueiro e estalou o foguete. Se escondeu novamente no bar. Para seu azar o camburão foi na direção do bar. Cesinha pegou um taco de sinuca e ficou com ele na mão. O camburão parou na frente do bar, o sargento desceu e chamou cesinha.
- chega aí moleque.
Cesinha foi até o carro da policia.
- ta fazendo o que aqui? – perguntou o policial.
- eu estava jogando sinuca.
- jogando sinuca o caralho! Você é fogueteiro isso sim!
Sem que Cesinha esperasse, o sargento deu um tapa no pé do ouvido dele. A pancada foi com tanta força que sua orelha ficou quente e seu ouvido zumbindo. O sargento voltou para o camburão e foi embora. Cesinha voltou para o bar, lavou o rosto no banheiro e voltou para a sua base.
No restante da noite não teve mais nenhuma incursão da policia, depois da troca de plantão, os traficantes pagaram o arrego.
Gíria da favela
Arrego – dinheiro pago a policia para que durante determinado plantão não haja incursões nas favelas.
Bebeto, o outro moleque que fazia o terceiro turno da base três chegou, Cesinha entregou o isqueiro e o foguete, apertou a mão dele e foi embora. Foi a ultima vez que ele viu Bebeto, na manha seguinte Bebeto foi morto pela policia. Cesinha foi na boca, pegou sua diária, quarenta reais e foi para casa esperar por Natalia.
Julio Pecly
sábado, 3 de julho de 2010
MARGARIDA
A garota em êxtase brandiu o postal que recebera do namorado em excursão na Grécia :
- Coisa mais linda! Olha só o que ele escreveu: "Eu queria desfolhar teu coração como se ele fosse a mais margarida de todas as margaridas. "Marquinhos é genial, o senhor não acha?
- Pode ser que seja, não conheço Marquinhos. Se bem que antes da era Pierre Cardin, genial era Dante, Da Vinci, Einstein, outros assim. Mas essa frase não é de Marquinhos.
- Não é de Marquinhos?! Tá com a letra dele, assinada por ele.
- Estou vendo que assinou, mas é de Darío.
- Quem? O Darío, do Atlético Mineiro? Sem essa.
- Não minha florzinha, Darío, Rubén Darío, o poeta da Nicarágua.
- Não conheço. Então Rubén Darío falou para Marquinhos e Marquinhos
- Achou bacana e pediu emprestado a ele?
- Tenho a impressão que o Marquinhos não pediu nada emprestado a Rubén Darío. Tomou sem consultar.
- Como é que o senhor sabe?
- É muito difícil consultar o Darío.
- Por quê? Ele não dá bola para gente? Não gosta da mocidade? É careta?
- Não é nada disso. O Darío não é encontrado em parte alguma.
- Ah, ele gosta de bancar o invisível, né?
- Não creio que goste, mas é exatamente o caso dele: invisível.
- Não dá para entender.
- Vai entender logo. Ele morreu em 1916.
- Ah! E como é que o Marquinhos descobriu essa margarida, me conte!
- Simples. Leu num livro de poemas de Rubén Darío.
- Marquinhos não é ligado a leitura. Duvido.
- Se não leu no livro, leu em alguma revista, em alguma parte.
- Hã...
Ficou tão triste- os olhos, a boca, a testa franzida- que achei de meu dever confortá-la:
- Que importância tem isso? A frase é de Darío, é de Marquinhos, é de toda pessoa sensível, capaz de assimilar o coração à margarida... Desculpe: à margarida.
Muxoxo:
- Se é de todos, não é de ninguém, não vale nada.
- Pelo contrário. Fica valendo mais, torna-se sentimento universal.
- Ah, o senhor está por fora. Eu queria a margarida só para mim. Copiada não tem graça. A graça era imaginar Marquinhos, muito sério, desfolhando meu coração transformado em margarida, para saber se eu gosto dele, um pouquinho, bastante, muito loucamente, nada. E a margarida sempre com uma pétala escondida por baixo da outra, entende? Para ele não ter certeza, porque essa certeza eu não dava... Era gozado.
- Continue imaginando.
- Agora não dá pé. Marquinhos roubou a margarida, quis dar uma de poeta. Não colou.
- Espere um pouco. Eu disse que a margarida era de Rubén Darío? Esta cabeça! Esquece, minha filha. Agora me lembro que Rubén Darío nem podia ouvir falar em margarita, começava a espirrar, a tossir, ficava sufocado, uma coisa horrível. Alergia- que no tempo dele ainda não estava batizada. Pois é. Garanto a você, posso jurar que a margarida não é de Darío.
- De quem é então?
- De Marquinhos, ué.
- Tem certeza que nunca ninguém antes de Marquinhos escreveu ä mais margarida de todas as margaridas"? o senhor lê milhões, pode me responder. Tem certeza?
- Absoluta. Marquinhos é genial, reconheço. Mas, por via das dúvidas, continue escondendo uma pétala de reserva, sim?
- Pode deixar por minha conta. Puxa, quase que eu parava de transar com o Marquinhos por causa do senhor. Agora tá legal, tchau, vovô!
Vovô: foi assim que ela me agradeceu a mentira generosa, a bandida.
Carlos Drumond de Andrade
- Coisa mais linda! Olha só o que ele escreveu: "Eu queria desfolhar teu coração como se ele fosse a mais margarida de todas as margaridas. "Marquinhos é genial, o senhor não acha?
- Pode ser que seja, não conheço Marquinhos. Se bem que antes da era Pierre Cardin, genial era Dante, Da Vinci, Einstein, outros assim. Mas essa frase não é de Marquinhos.
- Não é de Marquinhos?! Tá com a letra dele, assinada por ele.
- Estou vendo que assinou, mas é de Darío.
- Quem? O Darío, do Atlético Mineiro? Sem essa.
- Não minha florzinha, Darío, Rubén Darío, o poeta da Nicarágua.
- Não conheço. Então Rubén Darío falou para Marquinhos e Marquinhos
- Achou bacana e pediu emprestado a ele?
- Tenho a impressão que o Marquinhos não pediu nada emprestado a Rubén Darío. Tomou sem consultar.
- Como é que o senhor sabe?
- É muito difícil consultar o Darío.
- Por quê? Ele não dá bola para gente? Não gosta da mocidade? É careta?
- Não é nada disso. O Darío não é encontrado em parte alguma.
- Ah, ele gosta de bancar o invisível, né?
- Não creio que goste, mas é exatamente o caso dele: invisível.
- Não dá para entender.
- Vai entender logo. Ele morreu em 1916.
- Ah! E como é que o Marquinhos descobriu essa margarida, me conte!
- Simples. Leu num livro de poemas de Rubén Darío.
- Marquinhos não é ligado a leitura. Duvido.
- Se não leu no livro, leu em alguma revista, em alguma parte.
- Hã...
Ficou tão triste- os olhos, a boca, a testa franzida- que achei de meu dever confortá-la:
- Que importância tem isso? A frase é de Darío, é de Marquinhos, é de toda pessoa sensível, capaz de assimilar o coração à margarida... Desculpe: à margarida.
Muxoxo:
- Se é de todos, não é de ninguém, não vale nada.
- Pelo contrário. Fica valendo mais, torna-se sentimento universal.
- Ah, o senhor está por fora. Eu queria a margarida só para mim. Copiada não tem graça. A graça era imaginar Marquinhos, muito sério, desfolhando meu coração transformado em margarida, para saber se eu gosto dele, um pouquinho, bastante, muito loucamente, nada. E a margarida sempre com uma pétala escondida por baixo da outra, entende? Para ele não ter certeza, porque essa certeza eu não dava... Era gozado.
- Continue imaginando.
- Agora não dá pé. Marquinhos roubou a margarida, quis dar uma de poeta. Não colou.
- Espere um pouco. Eu disse que a margarida era de Rubén Darío? Esta cabeça! Esquece, minha filha. Agora me lembro que Rubén Darío nem podia ouvir falar em margarita, começava a espirrar, a tossir, ficava sufocado, uma coisa horrível. Alergia- que no tempo dele ainda não estava batizada. Pois é. Garanto a você, posso jurar que a margarida não é de Darío.
- De quem é então?
- De Marquinhos, ué.
- Tem certeza que nunca ninguém antes de Marquinhos escreveu ä mais margarida de todas as margaridas"? o senhor lê milhões, pode me responder. Tem certeza?
- Absoluta. Marquinhos é genial, reconheço. Mas, por via das dúvidas, continue escondendo uma pétala de reserva, sim?
- Pode deixar por minha conta. Puxa, quase que eu parava de transar com o Marquinhos por causa do senhor. Agora tá legal, tchau, vovô!
Vovô: foi assim que ela me agradeceu a mentira generosa, a bandida.
Carlos Drumond de Andrade
quarta-feira, 2 de junho de 2010
Esaú
Esaú estava no quarto diante do espelho, penteava o cabelo e acabava de se aprontar para o culto. Seu irmão Jacó com quem dividia o quarto entrou, na mão ele trazia um pão com manteiga, já reduzido à metade.
- E aí mano, ta se arrumando todo assim pra que? Pra pegar as irmãs da igreja né!
Esaú olhou para o irmão e disse bem sério:
- As mulheres da igreja não são iguais a essas mulheres do mundo não.
- no que elas são diferentes? – Jacó colocou o pão na boca e apertou o pênis. – o que uma gosta as outras também gostam.
- pelo que eu vi, você não entende nada de mulher. Vamos para o culto hoje?
- hoje não! Ainda não chegou a minha hora. Vai orando por mim, na hora certa eu vou seguir o caminho.
- Ai que mora o problema meu irmão. Agora nesse momento pode ser a tua ultima hora. Essa pode ser a ultima vez que Jesus te chama.
- que nada cara, to novo ainda, to curtindo a vida, na hora certa eu e Jesus a gente vai se entender.
- vou continuar orando por você meu irmão, do mesmo jeito que eu faço todos os dias. Deixa eu ir pro culto senão eu me atraso.
- Ora mesmo por mim Esaú.
- Eu oro, porque eu sei como esse mundo ai fora é perigoso.
Na rua Esaú cumprimentava os irmãos, não só os da sua igreja, como os de outras igrejas.
- Paz do senhor meus irmãos. – desejou ele para um grupo de cinco irmãos de uma mesma família. O pai, a mãe e os três filhos desejaram o mesmo para ele.
Quando chegou na igreja, faltavam quinze minutos para começar o culto. Ficou parado na entrada da igreja conversando com alguns irmãos. Queria saber na casa de qual irmão seria o culto de quarta a noite.
- o culto vai ser na casa do irmão Altamiro. Vai ser um culto de agradecimento, o filho dele mais novo, passou no vestibular. – respondeu o irmão Joel.
- Oh gloria, irmão! Que bênção hein! Jesus sempre operando. – Esaú ficou feliz, pois sabia do esforço do irmão Altamiro para pagar cursos para o filho.
O irmão Sávio avisou a todos que estava na hora de entrarem, pois o culto matutino dominical iria começar. Esaú sentou no seu local de costume, o quinto banco da fileira do meio. O pastor agradeceu a presença de todos e fez uma oração.
– Senhor meu deus, meu pai, criador dos céus e da terra. Que deu seu único filho para que pudéssemos ser perdoados de todos os nossos pecados. Tomai hoje a frente de nosso culto, que possamos sair daqui, sabendo que seu amor por nós é imenso. Não podendo ser medido por padrões humanos. Olhai por todos nós, perdoai nossos pecados. Ilumine nossos pensamentos e toma a frente desse culto. Isso é o que lhe pedimos, em nome de Jesus. Amem!
O pastor fez um breve resumo das atividades semanais, fez as prestações de contas referentes ao dizimo e as ofertas que foram devolvidas pelos irmãos, deu os parabéns aos aniversariantes do mês, orou novamente e pediu que todos os irmãos abrissem suas bíblias no livro do apostolo São João, no capitulo três, no versículo dezesseis. Todos leram juntos, oraram de novo. Em cima desse versículo o pastor Ebirom pautou a mensagem.
– Irmãos! Quando Jesus andou por esse mundo, acham que foi atoa? Claro que não, ele andava levando os ensinamentos dele e pra nos mostrar que devemos, andar sempre nos caminhos do senhor e pregar. Pregar para todas as criaturas. Devemos pregar em qualquer local que tivermos. Na fila do banco, no ônibus, na feira, no hospital. Nossa missão nesse mundo é levar a cura para os doentes e qual é a cura? A palavra de deus que esta aqui!
Nesse momento o pastor ergueu a bíblia e todos irmãos disseram em uníssono.
- Louvado seja a Deus! Aleluia! Aleluia!
Do lado de fora da igreja ouve-se uma seqüência de muitos tiros. O pastor da uma parada na pregação.
- Por favor irmão, fecha a porta da igreja e não se preocupem irmãos. Aqui dentro estamos debaixo da proteção de deus.
O culto continuou sem mais interrupções. Antes de terminar, o pastor fez a oração final.
– que deus nos proteja irmãos! Que cuide de nos, que nos proteja agora que vamos voltar para os
nossos lares, nos de uma boa semana. É isso que humildemente lhe peço, senhor meu deus, criador dos
céus e da terra. Em nome de Jesus. Amem!
Os irmãos abrem seus olhos e sorrindo, cumprimentaram-se. O porteiro foi até a porta, abriu e olhou para fora, vendo se havia ainda algum perigo.
- Ta tudo tranqüilo irmãos. Não esta tendo mais tiro.
Esaú conversava com a irmã Ângela, uma senhora gorda, mãe de três meninas e uma excelente cozinheira. Não era atoa que ela era bem gordinha.
- onde já se viu tiroteio em plana luz do dia.
- essa favela está uma confusão danada, irmã. Esse lugar aqui já foi muito bom. Mas eu sinto irmã, que Jesus tem uma obra pra esse local.
- Aleluia irmão! O sangue de Jesus tem poder! – enquanto falava, erguendo as mãos para o alto, seus seios fartos balançavam. – meu irmão, aparece lá em casa hoje a noite, minha prima da igreja de Madureira vai estar lá. O irmão é solteiro, ela também é solteira. Quem sabe não é ela que deus reservou pro irmão.
– irmã, eu até vou na sua casa, mas pra fazer uma visita a senhora. Não precisa a senhora ficar me apresentado seus parentes, a pessoa certa pra mim, vai chegar na hora certa. Nós temos que viver no nosso tempo e deus tem o tempo dele. Eu vou sim! Pode me aguardar, hoje eu não trabalho e a irmã sabe que eu me amarro nos seus doces. Eles são maravilhosos. Deixa eu ir, tenho que fazer uma prateleira pra minha mãe. Paz do senhor.
– paz do senhor meu irmão.
Esaú sai da igreja, a favela estava uma bagunça. Era sempre assim depois de um tiroteio. Ao falar com as pessoas, ele sentiu uma diferença no olhar delas, parecia que tinha acontecido alguma coisa. E tinha. Um pouco mais a frente de onde ele estava, havia uma aglomeração de pessoas em volta de um corpo coberto com um lençol branco. Sua tia chorava e ao vê-lo, veio em correndo em sua direção. Na mente de Esaú, ele adivinhou o que houve. A bíblia caiu da mão dele. Esaú começou a chorar. A tia tentou abraça-lo, ele se desvencilhou dela.
- Não vai me dizer que é o Jacó tia?
O silencio da tia foi a confirmação do que ele mais temia. Mataram seu irmão mais novo. Esaú se aproximou do corpo do irmão e ficou olhando.
- O trato não era esse! O trato não era esse! – gritou entre as lagrimas que desciam de seus olhos.
Esaú se abaixa e descobre o corpo do irmão. Três tiros no peito, acabaram com a vida de mais um viciado, que algum tempo atrás já tinha sido um bom filho. Durante alguns segundos, Esaú ficou abaixado, quieto, apenas olhando para o corpo sem vida do irmão. Esaú ficou de pé, e começou a andar em volta do corpo do irmão. Ele falava como se tivesse brigando com o irmão, por ele ter feito algo muito errado.
– não cara porque você não me escutou. Eu te falei que isso ia acontecer, eu te falei. E agora? E a mãe? E tua filha? E eu mano, vou chamar quem de irmão? Eu não tenho mais irmão. E a mãe e a mãe?
A mãe de Esaú, uma senhora com mais de sessenta anos, vem correndo o maximo que pode, sendo amparada por duas moças. Ela para ao lado do corpo do filho morto e apenas o observa. Não diz nada durante cerca de um minuto. Depois ela olha para Esaú e da uma ordem. Sua voz sai áspera, doída.
- vamos levar ele pra casa, filho meu não vai servir de espetáculo pra ninguém ficar olhando.
Ezaul pega o corpo do irmão e o carrega pelas ruas, sendo seguido por algumas pessoas. Esaú deposita o corpo do irmão em cima da cama da mãe e incontinente abre o armário.
- ta procurando o que meu filho?
- vou matar o Valquir mãe. A gente tinha um trato, eu estava pagando aos poucos a divida que o Jacó tinha com ele e ele furou o trato.
– Eu não quero perder dois filhos no mesmo dia.
- a senhora não vai não minha mãe.
– então não vai atrás desse cara.
– tenho que ir mãe.
– E a sua igreja.
– mãe, isso é entre eu e o Valquir. Jesus não tem nada a ver com isso.
– Não vai!
Ezaul verifica a pistola, tira o pente, coloca de novo, destrava e coloca na cintura. Sentada a mãe vê seu filho sair, nesse momento ela começa a chorar.
Na rua, Esaú não vê nada, vai caminhando decidido a procura de Valquir. Ao passar pela porta de um bar, não consegue ouvir um comentário as suas.
- coitada da mãe dele, já perdeu um filho e vai perder o outro.
Conforme vai caminhando pelas ruas da favela, todos os fofoqueiros e fofoqueiras, vão falando.
- o Valquir vai matar ele.
- vai nada maluco! Quando o Esaú era da boca, ele era o cara mais sinistro.
- ele era crente falso, uma vez traficante, sempre traficante.
- nem todo aquele que diz senhor, senhor, será salvo.
Numa esquina três caras fumam maconha, Valquir e mais dois.
– passei mesmo! Era maior vacilão, tava devendo a firma mesmo. Esse filha da puta ia morrer mesmo. Tava viciadão em craque. – Valquir falava sem nenhum ressentimento.
– tu viu o cara estrebuchou e ficou la de bigode. – disse Guga, um vapor.
GÍRIA DA FAVELA
FICOU DE BIGODE – MORTO, ESTIRADO NO CHÃO
– a vida do crime é assim, cadeia ou cemitério.
Ao dobrar a esquina, Esaú avistou Valquir e os outros dois bandidos.
De pistola em punho, surpreendeu os três.
- quero só o Valquir.
Os dois covardes saíram correndo, deixando os dois inimigos sozinhos. Os moradores que estavam por perto ao ver os dois frente a frente se esconderam, tinham medo de uma bala perdida sobrar pra eles. Se esconderam, mais de modo que pudessem assistir a tudo que estava por acontecer.
– Agora é entre nos dois. Qual era o nosso trato?
– o trato morreu irmão. Teu irmão já devia o dobro do que ele tava devendo e você não pagou nem a metade. Neguinho já tava me cobrando. Era eu, ou teu irmão, tinha que ser feito cara.
– sabe que eu vim aqui pra te matar!
– irmão! Se tu é sujeito homem, eu também sou. Ta ligado! Nem entrei nessa de bobeira não. Só que eu também vou tentar a sorte. Se é de chorar a minha mãe, que chore a tua.
Ezaul levanta a pistola e atira na direção de Valquir que se joga no chão. Ouve-se um choro de criança. Esaú olha na direção e vê uma menina caída no chão chorando. Valquir se levanta aponta a arma na direção de Esaú, só que a arma trava e o barulho chama a atenção de Esaú, que levanta e atira na direção de Valquir. Valquir corre em ziguezague e nenhum tiro pega nele. Quando Esaú retoma a razão, ele vê uma menina de uns nove anos de idade caída com uma mancha vermelha no peito. Esaú se aproxima da garota, ela não se mexe. Esaú a pega no colo e tenta correr para leva-la ao hospital e não consegue, seu corpo simplesmente não sai do lugar.
- Não! Você não vai morrer! - Gritava Esaú.
- Cala a boca caralho! Vai dormir porra! Eu quero dormir caralho!
Eram os últimos meses de Esaú na cadeia. Finalmente ele ia concluir o que não conseguira seis anos atrás. O mesmo sonho todas as noites, ele tentava levar a menina que sem querer havia baleado e não conseguia. Ele não conseguia, durante os seis anos em que permaneceu na cadeia, tinha esse sonho quase todos os dias.
Estava sentado no pátio tomando um banho de sol e pensando. Só mais três meses que vou ficar aqui nesse inferno. Do bolso tirou uma carta antiga que sua tia tinha escrito e começou a reler. “... ela não agüentou, perdeu um filho num dia e no outro, prenderam o outro filho. Ela sempre dizia que não ia resistir muito tempo. Mas triste ainda ela ficou quando você mandou avisar que não era pra ela te visitar na cadeia. Ela jantou, viu a novela e foi dormir. De manha quando eu fui acordar ela, ela não despertou, teve um ataque cardíaco enquanto dormia e morreu como um anjo. O medico que fez a autopsia, disse que ela morreu sem nenhum sofrimento. Agora ela esta do lado do filho e olhando por nos lá de cima. Sua mãe era uma pessoa muito boa Esaú, ela esta num bom lugar. Se cuida meu filho, toma cuidado com as pessoas ruins que estão aí dentro. Um abraço dessa sua tia que te ama muito. Beijos da sua tia Telma.” Depois Esaú tirou outra carta do bolso e releu, “ ... poxa primo, não queria nunca estar te escrevendo uma carta dessas, infelizmente estou te escrevendo pra dizer que a tia telma faleceu. Ela saiu de casa pra pagar uma conta no centro da cidade e acabou sendo atropelada por um ônibus no cruzamento da presidente Vargas com a Rio Branco. Estou te escrevendo porque sei que ela gostava muito de você. E achei que você devia saber. Um abraço cara, do seu primo Luiz Otavio.” Caramba, em seis anos de cadeia perdi as pessoas mais importantes da minha vida, minha mãe e minha tia. Então só e resta fazer uma única coisa na favela, matar o Valquir. Depois vou para algum lugar ver se continuo o resto da minha vida. Pensava Esaú.
Esaú saiu da cadeia por bom comportamento, quando as portas se abriram e ele pode ver a rua. E do outro lado da rua, o outro filho de sua tia telma o esperava num chevete cara de cachorro 77, muito bem conservado.
- trouxe o que eu te pedi?
Luiz Felipe olhou para o primo, parecia muito mais velho que os trinta anos que tinha. A cadeia mudou muito o rosto de Esaú.
- Trouxe, ta aqui comigo.
Luiz Felipe tirou uma pistola do porta luva, quatro pentes e entregou para Esaú. Ele pegou a quarenta e cinco na mão, destravou, olhou, colocou um pente e os outros três pentes ele colocou no bolso de trás das calças.
A viagem demorou cerca de quarenta minutos, terminou quando chegaram na entrada da favela.
- tu me deixa aqui. Daqui em diante eu sigo a pé.
Na favela não se falava de outra coisa. Na casa de endola, enquanto embalavam as drogas, os traficantes fofocavam.
- tão falando que o Esaú sai hoje da cadeia, será que é verdade?
- eu já ouvi dizer que ele até já saiu, ta só estudando a favela, pra ver a melhor hora de atacar.
- sou mais o Valquir neguinho, o cara ta na rua, já o outro ta na cadeia, deve ta gordo e nem conseguindo correr.
- Sei não, quando ele tava formado ele era sinistro.
Nas ruas da favela, os moradores também estavam preocupados, com medo e fofocando.
- vou pegar meus filhos na escola e vou ficar dentro de casa.
- tomara que o Esaú mate mesmo o Valquir. Ele é safado.
- Esaú vai é se foder!
Como todos estavam sabendo, sempre tinha os fofoqueiros que iam bater tudo o que acontecia na boca. Um desses fofoqueiros era o fuinha, que ficava na favela, vasculhando tudo, ouvindo nos cantos, para dar a noticia aos chefes do trafico e em troca, ganhar droga.
- Cole valquir, tão a maior fofoca na favela, tão dizendo que o Esaú vai sair da cadeia hoje só pra te catar.
- Meu “cumpadi”, ele que venha, se ele ta quente eu to fervendo. Quero terminar essa porra toda, já faz mais de seis anos que estou esperando esse momento.
Esaú saiu do carro a cerca de duzentos metros da entrada da favela. Quando chegou na favela, respirou fundo e sentiu aquele cheiro de maconha e perfume barato, que ele sempre gostou. Já fui muito feliz aqui. Pensou. Mal entrou na favela, a irmã Ângela o parou.
– meu irmão!
Ezaul olhou pra trás e não teve nenhuma reação ao vê-la.
– não faz o que você veio fazer nessa comunidade.
– irmã, nada vai me fazer mudar de idéia.
– você é um homem de deus.
– não minha irmã. Já fui um homem de deus. Hoje eu sou um enviado do demônio, vim cobrar uma divida. Eu já estou no inferno irmã e vim aqui buscar o Valquir, lá é o lugar dele.
– me dói muito ouvir isto irmão. Mais ainda há tempo de você se arrepender e pedir perdão a Jesus.
– irmã eu perdi muitas pessoas que eu amava. Hoje eu vivo por viver, como por comer, respiro por respirar. Eu to morto em vida. E irmã, vá pra casa, não quero que ninguém que eu goste se machuque, mas vou fazer o que vim aqui pra fazer.
– Jesus te ama meu irmão.
– nos brigamos irmã.
Ezaul segue seu caminho favela a dentro.
Galo entrou correndo na casa onde Valquir estava escondido.
- Cole Valquir! O Esaú esta na favela.
- porra maluco! Manda ele vir e tentar a sorte.
- Aí Valquir se você quiser a gente monta um bonde, caça ele pela favela e mata ele.
- Não galo, ele é meu, se alguém vai matar esse desgraçado vai ser eu.
Conforme vai caminhando favela a dentro e as pessoas vão vendo ele passar, Esaú pode ouvir os comentários, alguns a favor dele, outros contras. Porem nada disso interessava a ele, na sua mente só tinha um pensamento. Matar o Valquir. Esaú pula um muro e entra numa casa muito mal conservada, com o quintal muito sujo, as paredes mais ainda, sem nenhuma dificuldade ele abre uma porta e entra dentro da casa, quem ele procura, Teleco, está deitado numa cama imunda. Ao se dar conta da presença de Esaú, ele tenta fugir.
– da mais um passo que tu vai pro inferno.
Teleco para.
– o que você esta fazendo aqui na minha casa Esaú?
– quero informações e foi isso que você sempre trocou pra ganhar maconha e cocaína, e pelo visto desde o meus tempos de boca que você faz isso e continua fazendo.
– o que você quer de mim?
- onde se esconde o valquir.
– poxa seu eu soubesse disso eu te dizia.
– mais você sabe?
– sei não cara! Eu sou só um viciado
– eu vou te matar cara.
– não me mata não, eu era amigo do teu irmão.
– amigo o caralho! Meu irmão foi morto e vocês só andavam juntos, parte da divida de droga dele, era sua.
– se eu te falar eles vão me matar depois.
– melhor depois do que agora.
– eu vou te dizer, já to morto mesmo. Mata o Valquir mesmo, esse desgraçado não merece viver mesmo, teu irmão era meu braço. Ele não merecia morrer daquele jeito.
teleco começa a chorar.
- A gente era amigo sabia, eu fugi naquele dia que mataram seu irmão, fui pra casa de uma tia em Minas, só voltei a dois anos atrás, minha mãe pagou minha divida com esse maluco. Ele é safado. Vou te dizer onde ele se esconde. Mais aí mata esse filha da puta mesmo.
– se você me der a boa, não vai ter erro.
– então já é.
Esaú continua sua caminhada favela adentro. Nesse momento já não estão nas ruas muitas pessoas, pois elas sabem que uma troca de tiros entre Esaú e Valquir, vai acontecer em algum momento. Dois meninos jogam bola de gude, um deles da um teco e erra, a bola vai longe, na direção de Esaú, os meninos ao verem Esaú, param, o dono da bola, pega a bolinha perto de Esaú e os dois vão correndo para suas casas. Ele entra num boteco.
– fala aí seu Bené.
Seu Bené esta de costas, ajeitando umas garrafas. Ao se virar e ver Esaú ele se assusta.
– disseram que você ia vir aqui na favela, matar o cara que matou seu irmão. Você veio né.
– vim sim seu Bené.
Seu Bené olha para um lado, olha para o outro. E fala baixinho com Esaú.
– mata mesmo, os moradores detestam esse cara desde do dia que ele matou seu irmão na covardia. Mata ele e vira o dono dessa favela.
– já sai dessa seu Bené. Vou só matar esse desgraçado e vou seguir meu caminho.
– então meu filho, livra a gente dessa desgraça que é esse cara.
– pode deixar seu Bené. - Esaú olha para a rua. E vira-se de novo para o balcão.
Seu Bené pega um copo e uma garrafa e capricha na dose. Esaú pega o copo e bebe de uma talagada só e bota o copo vazio no balcão. Ele tira um dinheiro do bolso.
– não meu filho, essa é por conta da casa.
Esaú aperta a mão do dono do bar.
– então deixa eu ir nessa.
Esaú sai do bar. Escurece na favela. Esaú caminha mais um pouco pela favela, para debaixo de uma arvore, uma amendoeira. Ele sobe na arvore e de lá de cima vê as pessoas passando.
Na casa onde Valquir esta escondido, ele conversa com um outro bandido e tem mais outro capanga tomando conta da entrada da casa.
- chegou a hora, a noite chegou e ta na hora de bandido sair de debaixo do edredom, que o bicho vai pegar. Vou matar esse cara e ter minha moral de volta. Vocês dois vem comigo.
Os três saem da casa e vão caminhando pelas ruas da favela. Depois de cerca de meia hora de caminhada pela favela, perguntando as pessoas se elas viram Esaú e recebendo sempre um não como resposta. Deixou Valquir enfurecido.
– essa favela ta contra mim, porra eu matei aquele viciado do caralho do irmão dele, porque o cara me devia muito, a gente que é bandido tem que dar o exemplo.
– vamos chamar mais pessoas pra elas nos ajudarem a achar esse filha da puta. – Dedão tentava ajudar o patrão.
– mais gente! Vocês tão maluco, quer que eu chame os bandidos todos pra tentar achar um bundão que saiu da cadeia e disse que ia vir aqui me matar. Não! Nos mesmos vamos achar ele.
Do alto da arvore, Esaú se espreguiça a ver os três se aproximando dele. De onde esta consegue ouvir Valquir falando.
– galinha de casa não se corre atrás, vou pra minha casa e vamos ficar esperando ele, quando ele vier a gente larga o aço.
Esaú espera os três passarem pela arvore e depois pula, já com a pistola na mão, da um tiro em Dedão e outro em Juca, Valquir fica sem reação.
- é agora Valquir! – disse Esaú sem nenhuma emoção na voz.
– vai tomar no cu! Perdi! me mata logo! – gritou Valquir.
– acredita em deus? – Perguntou Esaú.
Valquir ri.
– tu acha que deus me quer no paraíso?
– não quer mesmo não.
– ta esperando o que?
– pensei que nessa hora que eu sonhei tanto acontecer nesses anos que eu fiquei na cadeia, eu ia me sentir o cara mais feliz do mundo. Eu não to sentindo nada.
– eu matei teu irmão sim, mais se você estivesse no meu lugar, como já esteve, você teria que fazer a mesma coisa.
Esaú, aponta a pistola pra valquir atira três vezes. Valquir cai morto no chão. Esaú se vira e começa a caminhar. Tira um pente do bolso de trás das calças e joga fora. Tira o pente da pistola e joga fora também. Por ultimo ele joga a pistola e vai caminhando por uma rua que o leva para fora da favela. Um senhor vem na direção dele, quando os dois vão se cruzar, o senhor tira uma faca da cintura e enfia na barriga de Esaú. Esaú olha para o homem com os olhos arregalados.
– porque?... – Esaú queria entender porque esse homem lhe dera uma facada mortal. Não queria morrer sem saber o porque.
– minha filhinha! – respondeu secamente o homem.
Esaú começa a chorar, o senhor vai embora caminhando. Esaú cambaleia e consegue se sentar na beira da calçada, com as costas encostadas no poste, ele chora. Morre sentado, encostado num poste, com a mão na barriga.
Julio Pecly
- E aí mano, ta se arrumando todo assim pra que? Pra pegar as irmãs da igreja né!
Esaú olhou para o irmão e disse bem sério:
- As mulheres da igreja não são iguais a essas mulheres do mundo não.
- no que elas são diferentes? – Jacó colocou o pão na boca e apertou o pênis. – o que uma gosta as outras também gostam.
- pelo que eu vi, você não entende nada de mulher. Vamos para o culto hoje?
- hoje não! Ainda não chegou a minha hora. Vai orando por mim, na hora certa eu vou seguir o caminho.
- Ai que mora o problema meu irmão. Agora nesse momento pode ser a tua ultima hora. Essa pode ser a ultima vez que Jesus te chama.
- que nada cara, to novo ainda, to curtindo a vida, na hora certa eu e Jesus a gente vai se entender.
- vou continuar orando por você meu irmão, do mesmo jeito que eu faço todos os dias. Deixa eu ir pro culto senão eu me atraso.
- Ora mesmo por mim Esaú.
- Eu oro, porque eu sei como esse mundo ai fora é perigoso.
Na rua Esaú cumprimentava os irmãos, não só os da sua igreja, como os de outras igrejas.
- Paz do senhor meus irmãos. – desejou ele para um grupo de cinco irmãos de uma mesma família. O pai, a mãe e os três filhos desejaram o mesmo para ele.
Quando chegou na igreja, faltavam quinze minutos para começar o culto. Ficou parado na entrada da igreja conversando com alguns irmãos. Queria saber na casa de qual irmão seria o culto de quarta a noite.
- o culto vai ser na casa do irmão Altamiro. Vai ser um culto de agradecimento, o filho dele mais novo, passou no vestibular. – respondeu o irmão Joel.
- Oh gloria, irmão! Que bênção hein! Jesus sempre operando. – Esaú ficou feliz, pois sabia do esforço do irmão Altamiro para pagar cursos para o filho.
O irmão Sávio avisou a todos que estava na hora de entrarem, pois o culto matutino dominical iria começar. Esaú sentou no seu local de costume, o quinto banco da fileira do meio. O pastor agradeceu a presença de todos e fez uma oração.
– Senhor meu deus, meu pai, criador dos céus e da terra. Que deu seu único filho para que pudéssemos ser perdoados de todos os nossos pecados. Tomai hoje a frente de nosso culto, que possamos sair daqui, sabendo que seu amor por nós é imenso. Não podendo ser medido por padrões humanos. Olhai por todos nós, perdoai nossos pecados. Ilumine nossos pensamentos e toma a frente desse culto. Isso é o que lhe pedimos, em nome de Jesus. Amem!
O pastor fez um breve resumo das atividades semanais, fez as prestações de contas referentes ao dizimo e as ofertas que foram devolvidas pelos irmãos, deu os parabéns aos aniversariantes do mês, orou novamente e pediu que todos os irmãos abrissem suas bíblias no livro do apostolo São João, no capitulo três, no versículo dezesseis. Todos leram juntos, oraram de novo. Em cima desse versículo o pastor Ebirom pautou a mensagem.
– Irmãos! Quando Jesus andou por esse mundo, acham que foi atoa? Claro que não, ele andava levando os ensinamentos dele e pra nos mostrar que devemos, andar sempre nos caminhos do senhor e pregar. Pregar para todas as criaturas. Devemos pregar em qualquer local que tivermos. Na fila do banco, no ônibus, na feira, no hospital. Nossa missão nesse mundo é levar a cura para os doentes e qual é a cura? A palavra de deus que esta aqui!
Nesse momento o pastor ergueu a bíblia e todos irmãos disseram em uníssono.
- Louvado seja a Deus! Aleluia! Aleluia!
Do lado de fora da igreja ouve-se uma seqüência de muitos tiros. O pastor da uma parada na pregação.
- Por favor irmão, fecha a porta da igreja e não se preocupem irmãos. Aqui dentro estamos debaixo da proteção de deus.
O culto continuou sem mais interrupções. Antes de terminar, o pastor fez a oração final.
– que deus nos proteja irmãos! Que cuide de nos, que nos proteja agora que vamos voltar para os
nossos lares, nos de uma boa semana. É isso que humildemente lhe peço, senhor meu deus, criador dos
céus e da terra. Em nome de Jesus. Amem!
Os irmãos abrem seus olhos e sorrindo, cumprimentaram-se. O porteiro foi até a porta, abriu e olhou para fora, vendo se havia ainda algum perigo.
- Ta tudo tranqüilo irmãos. Não esta tendo mais tiro.
Esaú conversava com a irmã Ângela, uma senhora gorda, mãe de três meninas e uma excelente cozinheira. Não era atoa que ela era bem gordinha.
- onde já se viu tiroteio em plana luz do dia.
- essa favela está uma confusão danada, irmã. Esse lugar aqui já foi muito bom. Mas eu sinto irmã, que Jesus tem uma obra pra esse local.
- Aleluia irmão! O sangue de Jesus tem poder! – enquanto falava, erguendo as mãos para o alto, seus seios fartos balançavam. – meu irmão, aparece lá em casa hoje a noite, minha prima da igreja de Madureira vai estar lá. O irmão é solteiro, ela também é solteira. Quem sabe não é ela que deus reservou pro irmão.
– irmã, eu até vou na sua casa, mas pra fazer uma visita a senhora. Não precisa a senhora ficar me apresentado seus parentes, a pessoa certa pra mim, vai chegar na hora certa. Nós temos que viver no nosso tempo e deus tem o tempo dele. Eu vou sim! Pode me aguardar, hoje eu não trabalho e a irmã sabe que eu me amarro nos seus doces. Eles são maravilhosos. Deixa eu ir, tenho que fazer uma prateleira pra minha mãe. Paz do senhor.
– paz do senhor meu irmão.
Esaú sai da igreja, a favela estava uma bagunça. Era sempre assim depois de um tiroteio. Ao falar com as pessoas, ele sentiu uma diferença no olhar delas, parecia que tinha acontecido alguma coisa. E tinha. Um pouco mais a frente de onde ele estava, havia uma aglomeração de pessoas em volta de um corpo coberto com um lençol branco. Sua tia chorava e ao vê-lo, veio em correndo em sua direção. Na mente de Esaú, ele adivinhou o que houve. A bíblia caiu da mão dele. Esaú começou a chorar. A tia tentou abraça-lo, ele se desvencilhou dela.
- Não vai me dizer que é o Jacó tia?
O silencio da tia foi a confirmação do que ele mais temia. Mataram seu irmão mais novo. Esaú se aproximou do corpo do irmão e ficou olhando.
- O trato não era esse! O trato não era esse! – gritou entre as lagrimas que desciam de seus olhos.
Esaú se abaixa e descobre o corpo do irmão. Três tiros no peito, acabaram com a vida de mais um viciado, que algum tempo atrás já tinha sido um bom filho. Durante alguns segundos, Esaú ficou abaixado, quieto, apenas olhando para o corpo sem vida do irmão. Esaú ficou de pé, e começou a andar em volta do corpo do irmão. Ele falava como se tivesse brigando com o irmão, por ele ter feito algo muito errado.
– não cara porque você não me escutou. Eu te falei que isso ia acontecer, eu te falei. E agora? E a mãe? E tua filha? E eu mano, vou chamar quem de irmão? Eu não tenho mais irmão. E a mãe e a mãe?
A mãe de Esaú, uma senhora com mais de sessenta anos, vem correndo o maximo que pode, sendo amparada por duas moças. Ela para ao lado do corpo do filho morto e apenas o observa. Não diz nada durante cerca de um minuto. Depois ela olha para Esaú e da uma ordem. Sua voz sai áspera, doída.
- vamos levar ele pra casa, filho meu não vai servir de espetáculo pra ninguém ficar olhando.
Ezaul pega o corpo do irmão e o carrega pelas ruas, sendo seguido por algumas pessoas. Esaú deposita o corpo do irmão em cima da cama da mãe e incontinente abre o armário.
- ta procurando o que meu filho?
- vou matar o Valquir mãe. A gente tinha um trato, eu estava pagando aos poucos a divida que o Jacó tinha com ele e ele furou o trato.
– Eu não quero perder dois filhos no mesmo dia.
- a senhora não vai não minha mãe.
– então não vai atrás desse cara.
– tenho que ir mãe.
– E a sua igreja.
– mãe, isso é entre eu e o Valquir. Jesus não tem nada a ver com isso.
– Não vai!
Ezaul verifica a pistola, tira o pente, coloca de novo, destrava e coloca na cintura. Sentada a mãe vê seu filho sair, nesse momento ela começa a chorar.
Na rua, Esaú não vê nada, vai caminhando decidido a procura de Valquir. Ao passar pela porta de um bar, não consegue ouvir um comentário as suas.
- coitada da mãe dele, já perdeu um filho e vai perder o outro.
Conforme vai caminhando pelas ruas da favela, todos os fofoqueiros e fofoqueiras, vão falando.
- o Valquir vai matar ele.
- vai nada maluco! Quando o Esaú era da boca, ele era o cara mais sinistro.
- ele era crente falso, uma vez traficante, sempre traficante.
- nem todo aquele que diz senhor, senhor, será salvo.
Numa esquina três caras fumam maconha, Valquir e mais dois.
– passei mesmo! Era maior vacilão, tava devendo a firma mesmo. Esse filha da puta ia morrer mesmo. Tava viciadão em craque. – Valquir falava sem nenhum ressentimento.
– tu viu o cara estrebuchou e ficou la de bigode. – disse Guga, um vapor.
GÍRIA DA FAVELA
FICOU DE BIGODE – MORTO, ESTIRADO NO CHÃO
– a vida do crime é assim, cadeia ou cemitério.
Ao dobrar a esquina, Esaú avistou Valquir e os outros dois bandidos.
De pistola em punho, surpreendeu os três.
- quero só o Valquir.
Os dois covardes saíram correndo, deixando os dois inimigos sozinhos. Os moradores que estavam por perto ao ver os dois frente a frente se esconderam, tinham medo de uma bala perdida sobrar pra eles. Se esconderam, mais de modo que pudessem assistir a tudo que estava por acontecer.
– Agora é entre nos dois. Qual era o nosso trato?
– o trato morreu irmão. Teu irmão já devia o dobro do que ele tava devendo e você não pagou nem a metade. Neguinho já tava me cobrando. Era eu, ou teu irmão, tinha que ser feito cara.
– sabe que eu vim aqui pra te matar!
– irmão! Se tu é sujeito homem, eu também sou. Ta ligado! Nem entrei nessa de bobeira não. Só que eu também vou tentar a sorte. Se é de chorar a minha mãe, que chore a tua.
Ezaul levanta a pistola e atira na direção de Valquir que se joga no chão. Ouve-se um choro de criança. Esaú olha na direção e vê uma menina caída no chão chorando. Valquir se levanta aponta a arma na direção de Esaú, só que a arma trava e o barulho chama a atenção de Esaú, que levanta e atira na direção de Valquir. Valquir corre em ziguezague e nenhum tiro pega nele. Quando Esaú retoma a razão, ele vê uma menina de uns nove anos de idade caída com uma mancha vermelha no peito. Esaú se aproxima da garota, ela não se mexe. Esaú a pega no colo e tenta correr para leva-la ao hospital e não consegue, seu corpo simplesmente não sai do lugar.
- Não! Você não vai morrer! - Gritava Esaú.
- Cala a boca caralho! Vai dormir porra! Eu quero dormir caralho!
Eram os últimos meses de Esaú na cadeia. Finalmente ele ia concluir o que não conseguira seis anos atrás. O mesmo sonho todas as noites, ele tentava levar a menina que sem querer havia baleado e não conseguia. Ele não conseguia, durante os seis anos em que permaneceu na cadeia, tinha esse sonho quase todos os dias.
Estava sentado no pátio tomando um banho de sol e pensando. Só mais três meses que vou ficar aqui nesse inferno. Do bolso tirou uma carta antiga que sua tia tinha escrito e começou a reler. “... ela não agüentou, perdeu um filho num dia e no outro, prenderam o outro filho. Ela sempre dizia que não ia resistir muito tempo. Mas triste ainda ela ficou quando você mandou avisar que não era pra ela te visitar na cadeia. Ela jantou, viu a novela e foi dormir. De manha quando eu fui acordar ela, ela não despertou, teve um ataque cardíaco enquanto dormia e morreu como um anjo. O medico que fez a autopsia, disse que ela morreu sem nenhum sofrimento. Agora ela esta do lado do filho e olhando por nos lá de cima. Sua mãe era uma pessoa muito boa Esaú, ela esta num bom lugar. Se cuida meu filho, toma cuidado com as pessoas ruins que estão aí dentro. Um abraço dessa sua tia que te ama muito. Beijos da sua tia Telma.” Depois Esaú tirou outra carta do bolso e releu, “ ... poxa primo, não queria nunca estar te escrevendo uma carta dessas, infelizmente estou te escrevendo pra dizer que a tia telma faleceu. Ela saiu de casa pra pagar uma conta no centro da cidade e acabou sendo atropelada por um ônibus no cruzamento da presidente Vargas com a Rio Branco. Estou te escrevendo porque sei que ela gostava muito de você. E achei que você devia saber. Um abraço cara, do seu primo Luiz Otavio.” Caramba, em seis anos de cadeia perdi as pessoas mais importantes da minha vida, minha mãe e minha tia. Então só e resta fazer uma única coisa na favela, matar o Valquir. Depois vou para algum lugar ver se continuo o resto da minha vida. Pensava Esaú.
Esaú saiu da cadeia por bom comportamento, quando as portas se abriram e ele pode ver a rua. E do outro lado da rua, o outro filho de sua tia telma o esperava num chevete cara de cachorro 77, muito bem conservado.
- trouxe o que eu te pedi?
Luiz Felipe olhou para o primo, parecia muito mais velho que os trinta anos que tinha. A cadeia mudou muito o rosto de Esaú.
- Trouxe, ta aqui comigo.
Luiz Felipe tirou uma pistola do porta luva, quatro pentes e entregou para Esaú. Ele pegou a quarenta e cinco na mão, destravou, olhou, colocou um pente e os outros três pentes ele colocou no bolso de trás das calças.
A viagem demorou cerca de quarenta minutos, terminou quando chegaram na entrada da favela.
- tu me deixa aqui. Daqui em diante eu sigo a pé.
Na favela não se falava de outra coisa. Na casa de endola, enquanto embalavam as drogas, os traficantes fofocavam.
- tão falando que o Esaú sai hoje da cadeia, será que é verdade?
- eu já ouvi dizer que ele até já saiu, ta só estudando a favela, pra ver a melhor hora de atacar.
- sou mais o Valquir neguinho, o cara ta na rua, já o outro ta na cadeia, deve ta gordo e nem conseguindo correr.
- Sei não, quando ele tava formado ele era sinistro.
Nas ruas da favela, os moradores também estavam preocupados, com medo e fofocando.
- vou pegar meus filhos na escola e vou ficar dentro de casa.
- tomara que o Esaú mate mesmo o Valquir. Ele é safado.
- Esaú vai é se foder!
Como todos estavam sabendo, sempre tinha os fofoqueiros que iam bater tudo o que acontecia na boca. Um desses fofoqueiros era o fuinha, que ficava na favela, vasculhando tudo, ouvindo nos cantos, para dar a noticia aos chefes do trafico e em troca, ganhar droga.
- Cole valquir, tão a maior fofoca na favela, tão dizendo que o Esaú vai sair da cadeia hoje só pra te catar.
- Meu “cumpadi”, ele que venha, se ele ta quente eu to fervendo. Quero terminar essa porra toda, já faz mais de seis anos que estou esperando esse momento.
Esaú saiu do carro a cerca de duzentos metros da entrada da favela. Quando chegou na favela, respirou fundo e sentiu aquele cheiro de maconha e perfume barato, que ele sempre gostou. Já fui muito feliz aqui. Pensou. Mal entrou na favela, a irmã Ângela o parou.
– meu irmão!
Ezaul olhou pra trás e não teve nenhuma reação ao vê-la.
– não faz o que você veio fazer nessa comunidade.
– irmã, nada vai me fazer mudar de idéia.
– você é um homem de deus.
– não minha irmã. Já fui um homem de deus. Hoje eu sou um enviado do demônio, vim cobrar uma divida. Eu já estou no inferno irmã e vim aqui buscar o Valquir, lá é o lugar dele.
– me dói muito ouvir isto irmão. Mais ainda há tempo de você se arrepender e pedir perdão a Jesus.
– irmã eu perdi muitas pessoas que eu amava. Hoje eu vivo por viver, como por comer, respiro por respirar. Eu to morto em vida. E irmã, vá pra casa, não quero que ninguém que eu goste se machuque, mas vou fazer o que vim aqui pra fazer.
– Jesus te ama meu irmão.
– nos brigamos irmã.
Ezaul segue seu caminho favela a dentro.
Galo entrou correndo na casa onde Valquir estava escondido.
- Cole Valquir! O Esaú esta na favela.
- porra maluco! Manda ele vir e tentar a sorte.
- Aí Valquir se você quiser a gente monta um bonde, caça ele pela favela e mata ele.
- Não galo, ele é meu, se alguém vai matar esse desgraçado vai ser eu.
Conforme vai caminhando favela a dentro e as pessoas vão vendo ele passar, Esaú pode ouvir os comentários, alguns a favor dele, outros contras. Porem nada disso interessava a ele, na sua mente só tinha um pensamento. Matar o Valquir. Esaú pula um muro e entra numa casa muito mal conservada, com o quintal muito sujo, as paredes mais ainda, sem nenhuma dificuldade ele abre uma porta e entra dentro da casa, quem ele procura, Teleco, está deitado numa cama imunda. Ao se dar conta da presença de Esaú, ele tenta fugir.
– da mais um passo que tu vai pro inferno.
Teleco para.
– o que você esta fazendo aqui na minha casa Esaú?
– quero informações e foi isso que você sempre trocou pra ganhar maconha e cocaína, e pelo visto desde o meus tempos de boca que você faz isso e continua fazendo.
– o que você quer de mim?
- onde se esconde o valquir.
– poxa seu eu soubesse disso eu te dizia.
– mais você sabe?
– sei não cara! Eu sou só um viciado
– eu vou te matar cara.
– não me mata não, eu era amigo do teu irmão.
– amigo o caralho! Meu irmão foi morto e vocês só andavam juntos, parte da divida de droga dele, era sua.
– se eu te falar eles vão me matar depois.
– melhor depois do que agora.
– eu vou te dizer, já to morto mesmo. Mata o Valquir mesmo, esse desgraçado não merece viver mesmo, teu irmão era meu braço. Ele não merecia morrer daquele jeito.
teleco começa a chorar.
- A gente era amigo sabia, eu fugi naquele dia que mataram seu irmão, fui pra casa de uma tia em Minas, só voltei a dois anos atrás, minha mãe pagou minha divida com esse maluco. Ele é safado. Vou te dizer onde ele se esconde. Mais aí mata esse filha da puta mesmo.
– se você me der a boa, não vai ter erro.
– então já é.
Esaú continua sua caminhada favela adentro. Nesse momento já não estão nas ruas muitas pessoas, pois elas sabem que uma troca de tiros entre Esaú e Valquir, vai acontecer em algum momento. Dois meninos jogam bola de gude, um deles da um teco e erra, a bola vai longe, na direção de Esaú, os meninos ao verem Esaú, param, o dono da bola, pega a bolinha perto de Esaú e os dois vão correndo para suas casas. Ele entra num boteco.
– fala aí seu Bené.
Seu Bené esta de costas, ajeitando umas garrafas. Ao se virar e ver Esaú ele se assusta.
– disseram que você ia vir aqui na favela, matar o cara que matou seu irmão. Você veio né.
– vim sim seu Bené.
Seu Bené olha para um lado, olha para o outro. E fala baixinho com Esaú.
– mata mesmo, os moradores detestam esse cara desde do dia que ele matou seu irmão na covardia. Mata ele e vira o dono dessa favela.
– já sai dessa seu Bené. Vou só matar esse desgraçado e vou seguir meu caminho.
– então meu filho, livra a gente dessa desgraça que é esse cara.
– pode deixar seu Bené. - Esaú olha para a rua. E vira-se de novo para o balcão.
Seu Bené pega um copo e uma garrafa e capricha na dose. Esaú pega o copo e bebe de uma talagada só e bota o copo vazio no balcão. Ele tira um dinheiro do bolso.
– não meu filho, essa é por conta da casa.
Esaú aperta a mão do dono do bar.
– então deixa eu ir nessa.
Esaú sai do bar. Escurece na favela. Esaú caminha mais um pouco pela favela, para debaixo de uma arvore, uma amendoeira. Ele sobe na arvore e de lá de cima vê as pessoas passando.
Na casa onde Valquir esta escondido, ele conversa com um outro bandido e tem mais outro capanga tomando conta da entrada da casa.
- chegou a hora, a noite chegou e ta na hora de bandido sair de debaixo do edredom, que o bicho vai pegar. Vou matar esse cara e ter minha moral de volta. Vocês dois vem comigo.
Os três saem da casa e vão caminhando pelas ruas da favela. Depois de cerca de meia hora de caminhada pela favela, perguntando as pessoas se elas viram Esaú e recebendo sempre um não como resposta. Deixou Valquir enfurecido.
– essa favela ta contra mim, porra eu matei aquele viciado do caralho do irmão dele, porque o cara me devia muito, a gente que é bandido tem que dar o exemplo.
– vamos chamar mais pessoas pra elas nos ajudarem a achar esse filha da puta. – Dedão tentava ajudar o patrão.
– mais gente! Vocês tão maluco, quer que eu chame os bandidos todos pra tentar achar um bundão que saiu da cadeia e disse que ia vir aqui me matar. Não! Nos mesmos vamos achar ele.
Do alto da arvore, Esaú se espreguiça a ver os três se aproximando dele. De onde esta consegue ouvir Valquir falando.
– galinha de casa não se corre atrás, vou pra minha casa e vamos ficar esperando ele, quando ele vier a gente larga o aço.
Esaú espera os três passarem pela arvore e depois pula, já com a pistola na mão, da um tiro em Dedão e outro em Juca, Valquir fica sem reação.
- é agora Valquir! – disse Esaú sem nenhuma emoção na voz.
– vai tomar no cu! Perdi! me mata logo! – gritou Valquir.
– acredita em deus? – Perguntou Esaú.
Valquir ri.
– tu acha que deus me quer no paraíso?
– não quer mesmo não.
– ta esperando o que?
– pensei que nessa hora que eu sonhei tanto acontecer nesses anos que eu fiquei na cadeia, eu ia me sentir o cara mais feliz do mundo. Eu não to sentindo nada.
– eu matei teu irmão sim, mais se você estivesse no meu lugar, como já esteve, você teria que fazer a mesma coisa.
Esaú, aponta a pistola pra valquir atira três vezes. Valquir cai morto no chão. Esaú se vira e começa a caminhar. Tira um pente do bolso de trás das calças e joga fora. Tira o pente da pistola e joga fora também. Por ultimo ele joga a pistola e vai caminhando por uma rua que o leva para fora da favela. Um senhor vem na direção dele, quando os dois vão se cruzar, o senhor tira uma faca da cintura e enfia na barriga de Esaú. Esaú olha para o homem com os olhos arregalados.
– porque?... – Esaú queria entender porque esse homem lhe dera uma facada mortal. Não queria morrer sem saber o porque.
– minha filhinha! – respondeu secamente o homem.
Esaú começa a chorar, o senhor vai embora caminhando. Esaú cambaleia e consegue se sentar na beira da calçada, com as costas encostadas no poste, ele chora. Morre sentado, encostado num poste, com a mão na barriga.
Julio Pecly
Assinar:
Postagens (Atom)
