sexta-feira, 14 de setembro de 2012
Onde está Deus?
Ainda, o município de Santa Clara conserva tranqüilidade de cidade do interior. Deve ter no máximo cinco mil habitantes. Na praça, em frente à capela, os jovens se encontram. Ouvem músicas, cantam, dançam, e os amores florescem entre os casais. Adiante, a sorveteria do Gaspar. O concorrido cinema. O teatro onde companhias se instalam em temporadas. Ocupando a esquina principal, a antiga padaria do seu Manoel produz o melhor pão de milho de toda região. Sim, Santa Clara se mantém quase alheia às transformações da vida moderna. Pena que a televisão vá modificando o sotaque ali característico. Mesmo assim, mantendo a tradição, as famílias conservam hospitalidade e se reúnem para o almoço domingueiro ou festejo de dia santo. O fato é que próximo à praça, numa rua transversal, mora dona Tereza. Mãe de dois filhos, cujo marido meteu-se em negócio de caixeiro viajante e sumiu a vista de todos. Ela, senhora de trinta anos, encara as dificuldades com talento no preparo de doces e salgados. Simpática e cuidadosa consegue dar sustento a casa, e aos meninos Toninho e Agenor, de 10 e 8 anos. Verdadeiros pentelhos. Pois não há duas pequenas almas mais endiabradas. Arte praticada por adultos é obra. Se, por crianças, é travessura. E, nessa arte, a dupla é amplamente reconhecida. Choque elétrico em gatos. Rato na gaveta da mesa da professora. Sapos nas mochilas das colegas de classe. Trocas de material escolar. Sumiço de lanches. Nó em roupas penduradas nos varais. Fechaduras de portas tampadas com chicletes. As brincadeiras valem reprimendas, mas eles não se emendam. Pneus de carros esvaziados. Assentos do cinema lambuzados de graxa. Nem a batina do sacristão é poupada. Um dia apareceu cheia de açúcar e repleta de formigas. Até o vinho sagrado fora substituído por refresco. Tudo que é peraltice, Toninho e Agenor praticam. A ausência do pai é a explicação dos temperamentos arredios. Em consideração a mãe, a vizinhança é paciente. São crianças, explicam. Amanhã ou depois tomam jeito. É certo, porém, que umas boas palmadas não iam mal! Dona Tereza é incapaz de levantar a mão aos filhos e sofre. Pois qualquer caso inusitado que aconteça no vilarejo, de imediato, os culpados são eles. Mas eis que um padre austero assume a igreja local. Traz fama de exigente quanto à disciplina das ovelhas rebeldes do rebanho de Cristo. Por conselho das vizinhas, dona Tereza resolve enviar Toninho e Agenor a uma sessão. Padre Afonso é alto e forte. Tem olhos miúdos, a barba cerrada e a cara quadrada. Não ri por nada. E seu oficio é regido de forma incontestável. Sabedor das traquinagens dos guris, o severo vigário segura uma vara de marmelo defronte ao altar. Ambos chegam temerosos, e notam falta das imagens nas paredes. Não sabem que estão sendo restauradas. De feitio peculiar, a pergunta inicia o sermão. Padre Afonso encorpa a voz e brada:
- Onde está Deus?
Eles ficam parados e não dizem nada. Com os braços estendidos acima da cabeça, vibra intencionalmente a vara no ar:
- Onde está Deus? Repetiu o clérigo em tom rigoroso.
Um duplo susto. Os meninos não esperam por mais. Saem correndo da igreja e só param em casa quando dentro do guarda-roupa. Dona Tereza, que já se preocupava com a demora dos filhos, os encontrou trêmulos:
- O que aconteceu?
- Mãe, agora a gente tá encrencado! Deus sumiu, e o padre acha que a culpa é nossa!
Marco Pezão
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
Histórias de pescador, digo, de coveiro
- Papai, morto chora?O pai atônito nada respondeu, fixou o olhar na confusão e a ali ficou parado até receber a ordem do chefe para chamar a polícia. Era tarde de um domingo de julho de 1979, o tempo nublado estava tão escuro quanto as roupas da família no velório. O nome do falecido, João Severino, coveiro num cemitério do Rio de Janeiro, não lembra. Diferente do cheiro de rosas que tomava o lugar. Tão vivo em sua memória quanto a certeza de que seu pai nunca havia ouvido falar naquele paradoxo da fisiologia humana, aliás, que ninguém que conhecesse ouviu falar. Nunca. Um cheiro que não existia no sertão onde nasceu. Que não existia no humilde casebre onde vivia com a família na favela próxima ao local de trabalho de seu pai. Naquela tarde era dia de trabalho escolar. João tinha 13 anos e foi incumbido a descrever a rotina de seu pai no trabalho profissional. Logo naquele dia de confusão. A pequena capela estava toda enfeitada. João não entendia o porquê de tantas flores, e flores amarradas num negócio redondo que ele nunca tinha visto, tantos véus e até bexigas de festa de criança. O falecido era pagodeiro e devoto de São Jorge. “Ô santozinho arrêtado”, comenta o coveiro. Os amigos estavam ou vestidos de branco ou de vermelho. A família, já citada. E a amante... a amante estava com um vestido dourado e com dois cachorros dessas raças de madame pintados de rosa no colo. “A danada queria mesmo se destacar, ‘mostra’ que estava ali para pedir os direitos dela”, ri João. O morto pagodeiro era dado com um santo pela família que até então não sabia da existência da amante com quem tinha uma vida paralela, três filhos, dois cachorros e quatro periquitos. Como o coveiro sabia de tantos detalhes, nem ele soube responder, disse que foi o que ouviu falar no meio da gritaria que tomou o velório. “Ai foi assim...” todos estavam orando, foi logo após a reza do padre que mais parecia um ator mexicano dessas novelas que passam no canal 11. Era moreno, alto e tinha um bigode esquisito. Claro que João só se deu conta disso anos depois quando seu pai comprou a primeira televisão em preto e branco da família. O padre estava no meio do pai nosso quando a mulher dourada entrou com os caninos que não paravam de latir. Era bonita, alta, um rosto esticado que escondia a idade. “Oh, não sei não, pela cara eu dava uns 30, pelo resto... ah pelo resto... o resto era de 20 de lamber os ‘bêiço’, e olha que eu só tinha 13, hein.” Loira de cabelos enrolados até a cintura, pernas grossas despidas no vestido curto e, dourado, e com um pandeiro... “nossa senhora”, que explicava a pulada de cerca. “Toda amante é carnuda e loura, né?! Ainda cometo um pecado desse”. A esposa era de um tipo certinha. Estava com um miúdo no colo que era esculpido o pai. Na cara que tinha uns 40. Era loira também, mas não dessas que dão água na boca e sim dessas que enchem os olhos de lágrimas só de encostar, parecia uma santa a orar pelo marido ali esticado. Até que sua atenção foi tomada pelo rosa dos cães e em seguida pelo dourado dos paetês. Aquilo não era roupa de velório, nem de gente decente. E apesar das bolas e das roupas dos amigos em homenagem a devoção ao santo, aquilo não era uma festa. Era um momento de tristeza. E também de gargalhadas assim que os outros pagodeiros da banda avistaram a amante e relembraram a história que acompanharam do danado nos últimos dez anos. A amante foi logo se aproximando do caixão. Parou ao lado da viúva oficial e segurou em seu ombro. Até então, pareciam amigas. Tirou os óculos de abelha, moda da época e limpou discretamente o borrão da maquiagem estragado pelas lágrimas. “Eu sinto muito à sua dor, mas preciso lhe contar...” e as lágrimas da santa oficial cessaram sem acreditar no que ouvia. A mais sincera confissão da traição sórdida da boca da amante de um homem que julgava digno, que lhe dera um herdeiro com muito custo e anos de tratamento e não três vindos com muita facilidade. Toda a história veio à tona, de uma só vez, sem querer saber se feriria a imagem do homem, sem querer saber se abalaria a falsa paz da família, sem querer saber se importunaria os ouvidos dos presentes. E daí começou a briga. Palavrões não foram proferidos, “briga santa, né?!”, mas a gritaria tomou conta e João não conseguiu encaixar todo o enredo, apenas o que descreve o texto. Bexigas estouraram e os aramados de flores foram jogados ao chão por impulso do desespero da viúva. “Que meu marido se debulhe em lágrimas se essa história for verdade”. Inacreditável. “O morto tá chorando”, gritou alguém. Todos pararam e encheram o entorno do caixão. Foi preciso força nos braços da viúva para afastar toda aquela gente e ver de perto o milagre. - Papai, morto chora?! - insistiu João. - Fica quieto menino! - Meu marido tá vivo! - Ei, o marido é meu! E isso é impossível, ele morreu nos meus braços. Segundo a história do coveiro, que viu com os próprios olhos “que a terra há de ‘cumê’”, o morto chorou. Mas não um choro de muita água. Uma lágrima, apenas. Uma pequena gota que fez do velório um episódio, para muitos assustados, de terror, para os mais descrentes em fantasmas, de comédia. Para João que não duvidava de nada depois que sentiu o mar pela primeira vez, o episódio seria um prato cheio para a professora de português que o enviou para aquela tarefa que, de inicialmente chata, tornou-se finalmente emocionante.••.
Marianna Kiss
domingo, 2 de setembro de 2012
MEMÓRIAS DE UM MENDIGO
Num dia qualquer do início de dezembro acordei cedo e notei minha garrafa vazia. A noite passada foi foda, o vento zunia desesperado em meus ouvidos, ainda bem que a pinga durou até eu dormir. É a maior delícia dormir sob o efeito da branquinha. Que vocês não venham me criticar, eu bebo não é por que gosto é a situação que me obriga. E agora deu pra ter manda chuva dando pauladas nas nossas cabeças, achando que nós somos sacos de lixos. Aí é que tem que beber mesmo. Esperei a multidão acabar, foi melhor assim, depois me levantei e fui na birosca do seu Jorge tomar um pingado e encher a minha garrafa. O que me chama a atenção no meio desse povo indo trabalhar, são as mulheres vestidas em trajes mil. No calor é pior ainda. Falo pior por que comigo o buraco é mais embaixo. Eu também sou ser humano e como tal também tenho desejos sexuais. Quero trepar, comer, realizar fantasias e gozar. E pra realizá-los é só por meio da masturbação, não há outro jeito. Nessa parte ainda dá pra realizar, o difícil é os meus sonhos que alimento desde que vim morar na rua. Sempre fui um sujeito muito confuso. Quando tinha meus vinte e quatro anos estava revoltado com muita coisa em minha volta. Nessa época eu lia bastante coisa sobre as revoluções, as teorias, os pensadores como: Karl Marx, Aristóteles, Descartes, Kant, Rousseau, Maquiavel e Platão. Eu não tinha com quem conversar, as pessoas que estavam em minha volta não acompanhavam o meu raciocínio. Pra ter certeza que tudo o que eu estava refletindo não era fruto do meu ser confuso, resolvi me posicionar. A primeira coisa foi me limitar a consumir determinados produtos dos Estados Unidos, e olha que argumentações não faltavam. Depois fui me fechando até acreditar na auto-gestão, e não mais pagar impostos, onde eu mesmo poderia consumir minhas próprias produções, desde meu café da manhã até a cama que acomodaria o meu sono. É claro que isso envolvia um carro também. Mas as minhas reflexões foram tão profundas que aqui estou, dormindo na rua sem pagar aluguel, sem colaborar com o pagamento da dívida externa, sem pagar imposto, sem contribuir com merda nenhuma. Quando tirei a conclusão me achei um grande idiota, pois para fazer minha própria roupa eu teria que comprar o pano, a linha de costura e uma máquina. Porra, o pano viria da industria, a linha e a máquina também, aí não dá. Lembro que cheguei a pensar até no pequeno tubo que viria enrolado a linha de costura. Vim morar na rua. Na época em que eu lia os pensadores também procurava informações atuais, pra isso eu precisava da porcaria da televisão que para assisti-la era necessário consumir energia, e era nesse momento que estavam discutindo a privatização das empresas fornecedoras de energia. Ás vezes apelava para os jornais vendidos nas bancas, mas era a mesma coisa, o dinheiro que eu pagava ao jornaleiro era dividido entre ele, o distribuidor, os editores, a gráfica e automaticamente cada um pagava suas contas com esse dinheiro. Queria arranjar um jeito de boicotar tudo, a empresa de telefonia, os artistas fabricados pela mídia, o tênis da apresentadora de televisão, a bicicleta de dezoito marchas, o carro do ano, a comida enlatada e várias coisas mais. Evitando consumir tudo isso, naturalmente eu não contribuiria com o salário daquele soldadinho de chumbo. Estava revoltado ao extremo, e pra não mandar todos tomarem no cu, resolvi morar na rua, pelo menos aqui não pago imposto nenhum, e olha que continuo atualizado. Tem uma banca de jornal ali na Ipiranga onde o jornaleiro que me considera muito, devido as minhas dissertações, deixa-me ler todas as notícias dos jornais diários. Não vou dizer que aqui é o paraíso, mas só pelo fato de eu não estar contribuindo com nada, já me realizo internamente. Agora pouco estava dando altas gargalhadas com um companheiro de rua. Felicidade em não fazer um filho que já iria nascer devendo. Já é noite. Junto meus panos, pego minha garrafa e me recolho.
Sacolinha
sexta-feira, 10 de agosto de 2012
Conversinha Mineira
- É bom mesmo o cafezinho daqui, meu amigo?
- Sei dizer não senhor: não tomo café.
- Você é dono do café, não sabe dizer?
- Ninguém tem reclamado dele não senhor.
- Então me dá café com leite, pão e manteiga.
- Café com leite só se for sem leite.
- Não tem leite?
- Hoje, não senhor.
- Por que hoje não?
- Porque hoje o leiteiro não veio.
- Ontem ele veio?
- Ontem não.
- Quando é que ele vem?
- Tem dia certo não senhor. Às vezes vem, às vezes não vem. Só que no dia que devia vir em geral não vem.
- Mas ali fora está escrito "Leiteria"!
- Ah, isso está, sim senhor.
- Quando é que tem leite?
- Quando o leiteiro vem.
- Tem ali um sujeito comendo coalhada. É feita de quê?
- O quê: coalhada? Então o senhor não sabe de que é feita a coalhada?
- Está bem, você ganhou. Me traz um café com leite sem leite. Escuta uma coisa: como é que vai indo a política aqui na sua cidade?
- Sei dizer não senhor: eu não sou daqui.
- E há quanto tempo o senhor mora aqui?
- Vai para uns quinze anos. Isto é, não posso agarantir com certeza: um pouco mais, um pouco menos.
- Já dava para saber como vai indo a situação, não acha?
- Ah, o senhor fala da situação? Dizem que vai bem.
- Para que Partido?
- Para todos os Partidos, parece.
- Eu gostaria de saber quem é que vai ganhar a eleição aqui.
- Eu também gostaria. Uns falam que é um, outros falam que outro. Nessa mexida...
- E o Prefeito?
- Que é que tem o Prefeito?
- Que tal o Prefeito daqui?
- O Prefeito? É tal e qual eles falam dele.
- Que é que falam dele?
- Dele? Uai, esse trem todo que falam de tudo quanto é Prefeito.
- Você, certamente, já tem candidato.
- Quem, eu? Estou esperando as plataformas.
- Mas tem ali o retrato de um candidato dependurado na parede, que história é essa?
- Aonde, ali? Uê, gente: penduraram isso aí...
Fernando Sabino
quinta-feira, 26 de julho de 2012
Bom tempo, sem tempo
Não chovia, meses a fio. Ou chovia demais. As plantas secavam, os animais morriam, os moradores emigravam. As plantas submergiam, os animais morriam, as pessoas não tinham tempo de emigrar. Assim era a vida naquele lugar privilegiado, onde medrava tudo para todos, havendo bom tempo. Mas não havia bom tempo. Havia o exagero dos elementos. O mágico chegou para reorganizar a vida, e mandou que as chuvas cessassem. Cessaram. Ordenou que a seca findasse. Findou. Sobreveio um tempo temperado, ameno, bom para tudo, e os moradores estranharam. Assim também não é possível, diziam. Podemos fazer tantas coisas boas ao mesmo tempo que não há tempo para fazê-las. Antes, quando estiava ou chovia um pouco - isto é, no intervalo das grandes enchentes ou das grandes secas -, a gente aproveitava para fazer alguma coisa. Se o sol abrasava, podíamos fugir. Se a água vinha em catadupa, os que escapavam tinham o que contar. Quem voltasse do êxodo vinha de alma nova. Quem sobrevivesse à enchente era proclamado herói. Mas agora, tudo normal, como aproveitar tantas condições estupendas, se não temos capacidade para isto? Queriam linchar o mágico, mas ele fugiu a toda.
Carlos Drumond de Andrade
domingo, 8 de julho de 2012
Uma segunda chance
Depois do acidente os olhos de minha mãe nunca mais sorriram, perderam o brilho, ela virou uma mulher triste, só não se matou porque tinha outro filho para criar. Meu pai nunca falou sobre o acontecimento, guardou tudo dentro dele. Talvez tivesse sido este o motivo do AVC que o matou. Quanto a mim, cresci numa redoma de vidro, onde nada podia me machucar. Os livros foram meus melhores amigos.
Num bairro próximo de minha casa tinha um sebo onde eu comprei os livros mais importantes da minha vida, aqueles que ajudaram a moldar minha personalidade, li os livros de Julio Verne, coleção Vaga-Lume, Robert Louis Stevenson, Pedro Bandeira, Marcos Rey, Raquel de Queiroz, entre outros. O dono do sebo era um cara muito esquisito, parecia ter saído de algum livro. Ali havia uma coisa que sempre me intrigou, uma maquina de escrever antiga, que ficava dentro de uma redoma de vidro com fechadura. Com o passar dos anos fizemos amizade e nosso assunto eram livros, escritores e historias. Sempre perguntava a ele o porque de tanto cuidado com aquela maquina de escrever. Ele dizia que a maquina era magica, o que fosse escrito nela, poderia se transformar em realidade.
O tempo foi passando, a dor de minha mãe não foi diminuindo, estudei, me formei, consegui um emprego, casei, tive filhos e enterrei minha mãe. Um dia estava em casa e recebo uma encomenda, aquela mesma maquina da minha infância. Estava exatamente como eu me lembrava, dentro de uma redoma de vidro. Junto com a chave veio uma carta. “Você é a única pessoa que vai saber usa-la como deve ser”. Curioso como sempre, quis saber porque o dono do sebo mandou a maquina para mim. No dia seguinte fui no sebo, ao chegar lá, aquela loja onde passei momentos maravilhosos junto com os livros e conversando com o dono, simplesmente não estava mais lá. Entrei na loja, que agora vendia peças automobilísticas e perguntei para um funcionário o que tinha acontecido com o sebo. Ele me explicou que o dono da loja morreu e que os herdeiros fecharam o sebo e venderam a loja. Saí de lá triste, era muito difícil saber que um local que marcou sua infância, simplesmente não mais existe. Durante alguns dias fiquei depressivo, pensando na pequenez da vida. Coloquei a maquina no meu escritório, bem de frente para mim, ela ficava me olhando, como que pedindo para escrever alguma coisa.
Depois de quase um ano olhando para a maquina decidi escrever. Acordei decidido a escrever sobre o dia em que meu irmão foi atropelado e morreu.
Nós dois saímos de casa, eu tinha dez anos e ele sete. Cada um com sua lata de linha e pipa. A gente gostava de brincar no campinho que ficava perto de casa, no dia anterior havia chovido muito, a lama tomou conta do lugar, resolvemos brincar na rua. Era uma rua tranquila, passavam poucos carros. Mandei um irmão levar a pipa para que eu pudesse puxa-la. Ele ficou segurando a pipa de baixo do fio, mandei ele chegar mais para o meio da rua..
Nesse momento parei de escrever, quando ele foi para o meio da rua, veio um carro, dirigido por um bêbado e passou por cima dele, foi morte instantânea. Só a lembrança me fez tremer, não iria escrever o que aconteceu. Iria escrever o que deveria ter acontecido.
...Mandei meu irmão ir para o outro lado da rua, um carro entrou na rua a toda velocidade e por pouco não atropelou meu irmão, passou pelo local onde ele estivera segundos atrás e se chocou no poste.
Voltamos para casa. Os olhos de minha mão não ficaram tristes, meu pai não morreu. Tivemos uma segunda chance.
Julio Pecly
segunda-feira, 18 de junho de 2012
O Grande Assalto
Avenida Santo Amaro. Às 13 h.
Um homem mal vestido para em frente a uma concessionária de automóveis fechada e nota as bolas promocionais amarradas à porta.
Um policial desce da viatura, olha para todos os lados e observa um suspeito parado em frente a uma concessionária. O suspeito está mal vestido e descalço.
Uma senhora sentada no banco do ônibus que pára na avenida para pegar passageiros comenta com a moça sentada ao seu lado que tem um mendigo todo sujo parado em frente a uma loja de automóveis.
Um senhor passa por um homem todo sujo. segura a carteira e começa a andar apressado. Logo que nota a viatura estacionada mais à frente, se sente seguro, amenizando os passos.
Um jovem tenta desviar de trás do ônibus parado, os policias que ele vê logo à frente lhe trazem desconforto, pais seu carro está repleto de drogas que serão comercializadas na faculdade onde estuda.
O homem malvestido resolve agir, dá três passos à frente, levanta as mãos e agarra duas bolas promocionais; faz a conta rapidamente e se sente realizado, quando pensa que ao vender as bolas comprará algo para beber.
Uma moça alertada pela senhora ao seu lado no ônibus, chama a atenção de vários passageiros para o homem que, segundo ela, é um mendigo, e diz alto que ele acabou de roubar algo na concessionária.
Um jovem com o carro cheio de drogas para vender na sua faculdade nota o homem correndo com duas bolas e dá ré no carro ao ver os policiais vindo em sua direção.
Um policial alcança o homem mal vestido e bate com o cabo do revólver em sua cabeça várias vezes; o homem tido como mendigo pelos passageiros de um ônibus em frente cai e as bolas rolam pelo asfalto.
Um motorista que dirige na mesma linha há oito anos tenta ficar com o ônibus parado para ver os policiais darem chutes e socos em um homem malvestido que está caído na calçada, mas o trânsito está livre e ele avança passando por cima e estourando duas bolas promocionais.
Ferrez
Assinar:
Postagens (Atom)
