Sejam Bem Vindos - Leiam e comentem os contos - Sua opnião é muito importante.

sábado, 30 de março de 2013

PEQUENA ODE MINERAL

Desordem na alma que se atropela sob esta carne que transparece. Desordem na alma que de ti foge, vaga fumaça que se dispersa, informe nuvem que de ti cresce e cuja face nem reconheces. Tua alma foge como cabelos, cunhas, humores, palavras ditas que não se sabe onde se perdem e impregnam a terra com sua morte. Tua alma escapa como este corpo solto no tempo que nada impede. Procura a ordem que vês na pedra: nada se gasta mas permanece. Essa presença que reconheces não se devora tudo em que cresce. Nem mesmo cresce pois permanece fora do tempo que não a mede, pesado sólido que ao fluido vence, que sempre ao fundo das coisas desce. Procura a ordem desse silêncio que imóvel fala: silêncio puro. De pura espécie, voz de silêncio, mais do que a ausência que as vozes ferem. A MULHER SENTADA Mulher. Mulher e pombos. Mulher entre sonhos. Nuvens nos seus olhos? Nuvens sobre seus cabelos. (A visita espera na sala; a notícia, no telefone; a morte cresce na hora; a primavera, além da janela). Mulher sentada. Tranqüila na sala, como se voasse. IMITAÇÃO DAS ÁGUAS De flanco sobre o lençol, paisagem já tão marinha, a uma onda deitada, na praia, te parecias. Uma onda que parava ou melhor: que se continha; que contivesse um momento seu rumor de folhas líquidas. Uma onda que parava naquela hora precisa em que a pálpebra da onda cai sobre a própria pupila. Uma onda que parava naquela hora precisa em que a pálpebra da onda cai sobre a própria pupila. Uma onda que parava ao dobrar-se, interrompida, que imóvel se interrompesse no alto de sua crista e se fizesse montanha (por horizontal e fixa), mas que ao se fazer montanha continuasse água ainda. Uma onda que guardasse na paria cama, finita, a natureza sem fim do mar de que participa, e em sua imobilidade, que precária se adivinha, o dom de se derramar que as águas faz femininas mais o clima de águas fundas, a intimidade sombria e certo abraçar completo que dos líquidos copias. A MULHER E A CASA Tua sedução é menos de mulher do que de casa; pois vem de como é por dentro ou por detrás da fachada. Mesmo quando ela possui tua plácida elegância, esse teu reboco claro, riso franco de varandas, uma casa não é nunca só para ser contemplada; melhor: somente por dentro é possível contemplá-la. Seduz pelo que é dentro, ou será, quando se abra; pelo que pode ser dentro de suas paredes fechadas; pelo que dentro fizeram com seus vazios, com o nada; pelos espaços de dentro, não pelo que dentro guarda; pelos espaços de dentro: seus recintos, suas áreas, organizando-se dentro em corredores e salas, os quais sugerindo ao homem estâncias aconchegadas, paredes bem revestidas ou recessos bons de cavas, exercem sobre esse homem efeito igual ao que causas: a vontade de corrê-la por dentro, de visitá-la. QUESTÃO DE PONTUAÇÃO Todo mundo aceita que ao homem cabe pontuar a própria vida: que viva em ponto de exclamação (dizem: tem alma dionisíaca); viva em ponto de interrogação (foi filosofia, ora é poesia); viva equilibrando-se entre vírgulas e sem pontuação (na política): o homem só não aceita do homem que use a só pontuação fatal: que use, na frase que ele vive o inevitável ponto final. João Cabral de Melo Neto

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Os Nove Bilhões de Nomes de Deus O doutor Wagner conseguiu reprimir-se. Era meritório. Depois disse: - O seu pedido é um pouco desconcertante. Que eu saiba, é a primeira vez que um mosteiro tibetano faz a encomenda de um calculador eletrônico. Não quero ser curioso, mas estava longe de pensar que semelhante instituição pudesse necessitar desta máquina. Posso perguntar-lhe em que deseja utilizá-la? O Lama ajeitou as dobras de sua túnica de seda e pousou sobre a secretária a régua de calcular com a qual acabava de fazer conversões libra-dólar. - Naturalmente. O seu calculador eletrônico tipo 5 pode fazer, segundo diz o catálogo, todas as operações matemáticas até 10 decimais. No entanto, o que me interessa são letras, não números. Pedir-lhe-ei portanto que modifique o circuito de saída de forma que imprima letras em vez de colunas de números. - Não compreendo muito bem… - Desde que a nossa instituição foi fundada, há mais de três séculos, que nos consagramos a um determinado trabalho. É um trabalho que pode parecer-lhe estranho e peço-lhe que me escute com a maior largueza de espírito. - De acordo. - É simples. Tentamos organizar a lista de todos os nomes possíveis de Deus. - Perdão? O lama continuou imperturbavelmente: - Temos excelentes motivos para crer que todos esses nomes incluem quando muito nove letras do nosso alfabeto. - E ocuparam-se disso durante três séculos? - Sim. Tínhamos calculado que precisaríamos de quinze mil anos para terminar o trabalho. O doutor deu um assobio de vencido, e disse um pouco atordoado: - O.K., agora compreendo o porque deseja alugar uma das nossas máquinas. Mas qual é o objetivo da operação? Durante uma fração de segundo o lama hesitou e Wagner receou ter ofendido aquele estranho cliente que acabara de fazer a viagem Lassa-Nova Iorque com uma régua de calcular e o catálogo da companhia de contadores eletrônicos no bolso de sua túnica cor de açafrão. - Chame a isto um ritual se quiser – disse o lama – mas é uma da bases fundamentais da nossa religião. Os nomes de Ser Supremo, Deus, Júpiter, Jeová, Alá etc., não passam de etiquetas feitas pelos homens. Certas considerações filosóficas demasiado complexas para que as possa expor agora, deram-nos certeza de que, entre todas as perguntas e possíveis combinações das letras, se encontram os verdadeiros nomes de Deus. Ora, o nosso objetivo é descobri-los e escrevê-los todos. - Já compreendo: Começam por A.A.A.A.A.A.A.A.A., e acabarão por chegar a Z.Z.Z.Z.Z.Z.Z.Z.Z. - Simplesmente utilizamos o nosso alfabeto. Evidentemente que lhe há de ser fácil modificar a máquina de escrever elétrica, de forma que ela utilize nosso alfabeto. Mas o problema mais importante será o de preparar os círculos especiais de forma que eliminem antecipadamente as combinações inúteis. Por exemplo, nenhuma das letras deve aparecer mais de três vezes sucessivamente. - Três? Quer dizer duas. - Não. Três. Mas a explicação completa exigiria muito tempo, mesmo que o senhor compreendesse a nossa língua. Wagner disse precipitadamente: - Claro, claro. Continue por favor. - Ser-lhe-á fácil adaptar o calculador automático em função desse objetivo. Com um plano bem elaborado, uma máquina desse gênero pode trocar as letras umas após outras e imprimir um resultado. Desta forma, concluiu calmamente o lama, aquilo que nos levaria ainda quinze milênios estará terminado em cem dias. O Doutor Wagner sentia que ia perdendo o sentido das realidades. Através das janelas do edifício, os ruídos e as luzes de Nova Iorque perdiam a intensidade. Sentia-se transportado a um mundo diferente. Lá longe, no seu longínquo asilo montanhoso, geração após geração, os monges tibetanos há trezentos anos elaboravam sua lista de nomes desprovidos de sentido… Não havia então limite para a loucura dos homens? Mas o Doutor Wagner não devia deixar transparecer os seus pensamentos. O cliente tem sempre razão… E respondeu: - Não duvido que possam modificar a máquina do tipo 5, de forma a imprimir listas desse gênero. A instalação e a conservação é que mais me inquietam. Aliás, não será fácil enviá-la para o Tibete. - Nós trataremos disso. As peças separadas têm dimensões suficientemente pequenas para serem transportadas por avião. De resto, foi esse o motivo porque escolhemos a máquina. Envie as peças para a Índia, nós nos encarregamos do resto. - Deseja contratar dois dos nossos engenheiros? - Sim, para montarem e vigiarem a máquina durante esses cem dias. - Vou mandar instruções à direção de pessoal – disse Wagner enquanto escrevia na agenda. – Mas restam duas questões a resolver… Antes que tivesse podido terminar a frase, o lama tirou do bolso uma delgada folha de papel: - Esta é a situação de minha conta no Banco Asiático. - Muito obrigado. Está muito bem… Mas, se me permite, a segunda questão é de tal maneira elementar que hesito em mencioná-la. Acontece muitas vezes esquecermos qualquer coisa evidente… Têm uma fonte de energia elétrica? - Temos um gerador Diesel elétrico de 50 KW de potência, 110 volts. Foi instalado há cinco anos e funciona bem. Facilita-nos a vida no convento. Compramo-lo sobretudo para acionar os moinhos de orações. - Ah! Sim, evidentemente, eu devia ter pensado nisso… Do parapeito a vista era vertiginosa, mas habituamo-nos a tudo. Tinha decorrido três meses e George Hanley já não se importava com os seiscentos metros em vertical que separavam o mosteiro do quadriculado dos campos da planície. Apoiado sobre as pedras que o vento arredondara, o engenheiro contemplava com olhar triste as montanhas longínquas de que ignorava o nome. “A operação nome de Deus”, como batizara um humorista da Companhia, era sem dúvida a pior tarefa de louco em que jamais participara. Semana após semana, a máquina tipo 5, modificada, cobrira milhares de folhetos de uma incrível algaravia. Paciente e inexorável, o calculador reunira as letras do alfabeto tibetano em todas as combinações possíveis, esgotando série após série. Os monges recortavam certas palavras à saída da máquina de escrever elétrica e colavam-nas com devoção em enormes registros. Dentro de uma semana acabariam. Hanley ignorava quais os cálculos obscuros que os levavam à conclusão de que não deviam estudar conjuntos de dez, vinte, cem mil letras, e nem pretendia sabê-lo. nos seus pesadelos sonhava às vezes que o grande lama decidiria bruscamente complicar um pouco mais a operação e que o trabalho continuaria até o ano 2060. Aliás aquele estranho homenzinho parecia perfeitamente capaz de o fazer. A pesada porta de madeira estalou. Chuck vinha ter com ele no terraço. Chuck fumava, como de costume, um charuto: tornara-se popular com os lamas distribuindo-lhes havanas. Aqueles tipos poderiam ser completamente amalucados – pensou Hanley – mas não eram puritanos. As freqüentes expedições a aldeia não tinham sido desprovidas de interesse… - Ouve, George – disse Chuck – vamos ter aborrecimentos. - A máquina escangalhou-se? - Não. Chuck sentou-se sobre o parapeito. Era espantoso, pois habitualmente receava ter vertigens: - Acabo de descobrir o objetivo da operação. - Mas já o sabíamos! - Sabíamos o que os monges queriam fazer, mas não sabíamos por quê. - Bah! São uns loucos… - Escuta, George, o velho acaba de explicar-me. Eles crêem que assim que tenham escrito todos aqueles nomes ( e segundo pensam são cerca de nove bilhões), o objetivo divino será atingido. A raça humana terá realizado a tarefa para que foi criada. - E então? Esperam que nos suicidemos? - Inútil. Quando a lista estiver terminada, Deus intervirá e será o fim. - Quando terminarmos, será então o fim do mundo? Chuck teve um risinho nervoso: - Foi o que eu disse ao velho. Ele olhou-me de forma estranha, como um professor olha para um aluno particularmente estúpido, e disse-me: “Oh, não será assim tão insignificante!…” George refletiu por um instante. -É um tipo que visivelmente tem idéias largas, mas, mesmo assim, que importância tem isso? Nós já sabíamos que eram uns loucos. - Sim. Mas não vês o que pode acontecer? Se a lista ficar pronta e se as trombetas do anjo Gabriel, versão tibetana, não soarem, eles podem decidir que é por nossa culpa. Afinal de contas, era a nossa máquina que eles utilizavam. Não gosto disso… - Percebo… – disse lentamente Jorge – mas eu já vi tanta coisa! – Quando era garoto na Luisiana, apareceu um pregador que anunciou o fim do mundo para o domingo seguinte. Houve centenas de tipos que acreditaram nele. Alguns mesmo chegaram a vender suas casas. Mas ninguém se endureceu no domingo seguinte. As pessoas pensaram que ele apenas errara um pouco os cálculos, e muitas delas ainda acreditam. - Caso não te tenhas apercebido faço-te notar que não estamos na Luisiana. Estamos ambos sozinhos, no meio de centenas de monges. Adoro-os, mas preferia estar longe quando o velho lama aperceber-se que a operação falhou. - Há uma solução. Uma pequenina sabotagem inofensiva. O avião chega dentro de uma semana e a máquina termina o trabalho dentro de quatro dias à razão de 24 horas por dia. Basta-nos começar a reparar qualquer coisa durante dois ou três dias. Se calcularmos bem, poderemos estar lá embaixo, no aeroporto, quando o último nome sair da máquina. Sete dias mais tarde, enquanto os pequenos pôneis das montanhas desciam o caminho em espiral, Hanley disse: - Sinto um pouco de remorsos. Não fujo por medo, mas porque tenho pena. Não gostaria de ver a cara daqueles pobres homens quando a máquina parar. - Na minha opinião – disse Chuck – eles desconfiaram que fugimos, e não se incomodaram. Agora já sabem até que ponto a máquina é automática, e que não precisa de vigilância. E supõem que não haverá nenhuma depois. George voltou-se para trás e olhou. Os edifícios do mosteiro apareciam em silhueta escura sobre o poente. De vez em quando brilhavam pequeninas luzes sob a massa sombria das muralhas, como as vigias de um navio singrando no mar. Lâmpadas elétricas colocadas sobre o circuito da máquina n.º 5. Que aconteceria ao calculador elétrico? – pensou George. – Na fúria e desapontamento iriam os monges destruí-lo? Ou então recomeçariam tudo? Como de ainda lá estivesse, via o que naquele momento se passava na montanha atrás das muralhas. O grande lama e os seus assistentes examinavam as folhas, enquanto alguns noviços recortavam os nomes barrocos e os colavam no enorme caderno. e tudo aquilo era feito em religioso silêncio. Só se ouviam as teclas da máquina, batendo no papel como se fossem chuva miúda. O próprio calculador, que combinava milhares de letras por segundo, estava completamente silencioso… A voz de Chuck interrompeu o seu devaneio: - Lá está ele! Que grande alegria que dá! Semelhante a uma minúscula cruz prateada, o velho avião de transportes D.C.3 acabava de pousar lá embaixo no pequeno aeródromo improvisado. Aquela visão dava vontade de beber um grande copo de uísque gelado. Chuck começou a cantar, mas depressa se calou. As montanhas não o encorajavam. George consultou o relógio. - Estaremos lá dentro de uma hora – disse. E acrescentou: – Pensas que o cálculo já terminou? Chuck não respondeu e George levantou a cabeça. Viu o rosto de Chuck muito branco, voltado para o céu. - Olha – murmurou Chuck. George, por sua vez, levantou os olhos. Pela última vez, por cima deles, na paz das alturas, uma a uma as estrelas começavam a extinguir-se… Arthur C. Clarke

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Alcoólicas

É crua a vida. Alça de tripa e metal. Nela despenco: pedra mórula ferida. É crua e dura a vida. Como um naco de víbora. Como-a no livor da língua Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me No estreito-pouco Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida Tua unha plúmbea, meu casaco rosso. E perambulamos de coturno pela rua Rubras, góticas, altas de corpo e copos. A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos. E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima Olho d'água, bebida. A Vida é líquida. Também são cruas e duras as palavras e as caras Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos Vão se fazendo remansos, lentilhas d'água, diamantes Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas Vai se fazendo tempo de conquista. Langor e sofrimento Vão se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte É um rei que nos visita e nos cobre de mirra. Sussurras: ah, a vida é líquida. E bebendo, Vida, recusamos o sólido O nodoso, a friez-armadilha De algum rosto sóbrio, certa voz Que se amplia, certo olhar que condena O nosso olhar gasoso: então, bebendo? E respondemos lassas lérias letícias O lusco das lagartixas, o lustrino Das quilhas, barcas, gaivotas, drenos E afasta-se de nós o sólido de fechado cenho. Rejubilam-se nossas coronárias. Rejubilo-me Na noite navegada, e rio, rio, e remendo Meu casaco rosso tecido de açucena. Se dedutiva e líquida, a Vida é plena. Te amo, Vida, líquida esteira onde me deito Romã baba alcaçuz, teu trançado rosado Salpicado de negro, de doçuras e iras. Te amo, Líquida, descendo escorrida Pela víscera, e assim esquecendo Fomes País O riso solto A dentadura etérea Bola Miséria. Bebendo, Vida, invento casa, comida E um Mais que se agiganta, um Mais Conquistando um fulcro potente na garganta Um látego, uma chama, um canto. Amo-me. Embriagada. Interdita. Ama-me. Sou menos Quando não sou líquida. Hilda Hilst

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Oscar Niemeyer, o imortal abduzido.

Retornando do interior da Bolívia, estava eu absorto, entretido numa página em branco do Word, os dedos apostos sobre o teclado do laptop aguardavam sintonia adequada para inundar a tela com palavras que pudessem retratar algum fato ocorrido na viagem até que, surpreendido por balbucios, ouço acidentalmente a conversa dos vizinhos das poltronas de traz... Sem resistir aquele comentário os dedos iniciaram - quase que involuntariamente - vigoroso sapateado sobre o tablado das letras. * Como assim?!?!?! Não! Não! Só pode ser brincadeira. Se Elvis que era cara comum, um sujeito como outro qualquer, há quem brade a plenos pulmões que ele não morreu! Porque aquele que talvez seja o único genuinamente imortal do globo morreria? Os deuses da literatura assim que são entronados na ABL são condecorados com o nobre e honroso título de “Imortais”. Status que todos sabemos ser meramente simbólico, fictício, mas em se tratando do nosso pra lá de centenário arquiteto, isto é um fato, é verídico. “Oscar Niemeyer morreu”. Chupa essa manga!!!! Entre numa tendinha, por exemplo. Num lugar publico qualquer onde o povão fervilhe e pergunte a qualquer um sobre a idade daquele que edificou Brasília, e não se surpreenda se uma ou algumas pessoas responderem sem titubear, com firmeza e imprecisão. “110 ou 112 anos”. É provável que as especulações ganhem números ascendentes. “que nada, ele já passou disso! deve estar com quase 120, se não for mais!”. “que 120! ele deve estar beirando os 145”. A verdade é que ninguém confirmaria essa idade, mas também tenho certeza que ninguém duvidaria. Nós brasileiros, num contexto geral nos habituamos, nos adaptamos a ininterrupta e longeva marcha existencial que o arquiteto imprimiu no subconsciente da nação, das pessoas que em algum momento do cotidiano perguntam despretensiosa e corriqueiramente sobre Oscar Niemeyer, como ele está, qual sua atual idade... Perguntas comuns e corriqueiras que pululam nos mais remotos cantos do nosso Brasilzão, como quem pergunta pelo placar de uma partida de futebol. Todos, mesmo sabendo que a imortalidade é fruto da ficção, mesmo cientes dessa impossibilidade, lá no fundo acreditamos na imortalidade de Niemeyer. Essa possibilidade foi construída sem questionamentos, sem o peso desconcertante que as coisas extraordinárias causam. Esse fato foi penetrando e se fixando na cultura nacional de tal forma que ninguém parou para analisa o tamanho dessa aberração, simplesmente aceitaram essa condição de vida eterna. Ansiamos sem perceber por informações. Sejam numa nota de jornal, num noticiário televisivo, na internet ou até mesmo através de um amigo de trabalho, de um parente ou vizinho; algo ou alguém que nos sacie a sede de informação, que nos diga algo sobre o nosso imorredouro projetista. Quando os comentários não circulam, quando a estiagem de informações é longa, uma angustia, um inexplicável vazio nos acomete e esse peso estranho só desaparece quando as notícias informam que o último representante do clã dos “Macleod” soprou mais uma chama. Morre fulano, empacota sicrano, bate as botas beltrano... Mas o Oscar tá lá, firme. Ignorando ou ignorado pela morte, rompendo anos, apagando velinhas. Nessa marcha, de ano em ano, de década em década ele atravessou as fases, varou a 3ª idade, desdenhou da velhice, tornou-se ancião e sem ser detido conquistou a imortalidade. É verdade que ele tem andado um tanto quanto debilitado. As estadias nos hospitais tem se tornado frequente, mas e daí? Quem nunca se hospitalizou? Quem nunca passou por sucessivos exames? Momentos ruins são comuns em qualquer idade, mas daí morrer é muito diferente, é inconcebível. É sem dúvidas uma das maiores brincadeiras que a nação brasileira já sofreu. “Oscar Niemeyer morreu!”. Chupa essa manga!!!! * Pequena pausa para refletir e analisar o texto. O voo já se aproximava do seu destino, o aeroporto do Rio já inundava as vistas, do outro lado era possível vislumbrar a nave Niteroiense. O MAC era imponente e tornava as terras de Araribóia diferente, privilegiada. É isso!... * Os dedos prosseguiam em seu balé literário. Abduzido talvez! Convocado para projetar naves espaciais modernas, mais sofisticadas para os “manos” de outros orbes ou quem sabe tenha ido buscar inspirações em outros planetas para no futuro nos presentear com construções mais brilhantes, mais extraordinárias, mais curvilíneas. * No desembarque, guardei meus pertences com proposital lentidão, afim de que pudesse percorrer com os olhos a estirpe dos sujeitos que proclamaram aquela aberração. Eram dois Bolivianos de meia idade, cabelos grisalhos, trajados com ternos escuros, bem alinhados. Aparentavam ser empresários. Por de traz, acompanhando seus passos eu sacudia a cabeça em negação e resmungava mentalmente comigo mesmo “ Como podem falar uma bobagem dessas?” Assim que pus os pés do lado de fora do avião, um objeto grande que pairava no ar atraiu minha atenção, fez com que minha face se volvesse para o alto em sua direção. Olhei ao derredor e as pessoas seguiam tranquilas, em profunda alienação ao objeto que me petrificara. No interior do flutuante, através de uma espécie de vitral, similar a uma escotilha, um homem idoso acenava com a mão trêmula em minha direção. Atordoado e pasmo, com o coração a tamborilar cheguei a pensar em alucinação, pois somente eu enxergava aquilo. O idoso abriu a “escotilha”, deixou cair algo no solo. A nave partiu célere num movimento vertical e desapareceu nas nuvens como num acender ou apagar de lâmpada. Obvio que fui verificar de que se tratava. Depois de alguns passos, agachei e recolhi do chão os dois instrumentos, caminhei para o saguão do aeroporto, sentei-me, religuei o laptop para finalizar o texto enquanto avaliava o compasso e o escalímetro que acabara de pegar. Enquanto a máquina iniciava fui cumprimentado por um antigo vizinho que passou acompanhando uma bela e madura mulher. Abraçou-me efusivo e indagou “Está chegando ou partindo Dr Ernesto?” retribuí o carinho e informei que esta chegando. Ambos partiram embalados por uma conversa agradável e finalmente pude concluir o texto. * Está efetivamente comprovado “Oscar Niemeyer não morreu e ponto final” * - Quem é o sujeito? A mulher perguntou ao meu vizinho sobre mim. - Dr. Ernesto. Duvidoso médico psiquiatra. Respondeu de pronto enquanto prosseguiam, e acrescentou. “Dizem que ele é metido nesse negócio de ufologia”. Marco Antonio Rodrigues

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

domingo, 23 de dezembro de 2012

A resposta

Seu nome era Serafim Costa. Mas nome de quem, ou de que? Na cidade pequena , decerto a sua figura deveria ter se cruzado, muitas vezes, com a do menino fardado, de camisa branca e curtas calças azuis extraídas das velhas casimiras paternas. Ele, o comerciante abastado, talvez comendador, não conhecia o garoto. E este jamais poderia ligar o nome à pessoa. Assim, Serafim Costa era apenas um nome — a belíssima sonoridade de um estilhaço de mitologia, uma flor aérea que, em vez de pétalas, possuía sílabas. Ele morava no Farol, exatamente onde o bonde fazia a última curva. Os muros brancos, que cercavam o quarteirão, semi-escondiam a casa, também branca, além do jardim que aparecia entre as grades, e em cujos canteiros florejavam espessuras e certas musguentas flores amarelas, e um imenso besouro zoava. A casa era um palacete de dois andares, crivado de sacadas e cegas janelas, e que parecia desabitada. Possivelmente essa incorrigível falsária, a Memória, a pintou, sem tir-te nem guar-te, com a sua branca tinta adúltera, substituindo a verdade nativa, feita de alvorentes azulejos pintalgados de azul, por alguma caprichosa arquitetura rococó. De qualquer modo, de outro lado do muro reto, sem dúvida encimado por afiados cacos de garrafas para impedir o salto dos ladrões, a gente via as copas das mangueiras, cajueiros, palmeiras e outras árvores sob as quais alguns cães esperavam, impacientes, que a rotina bocejante do dia se esfarelasse para que eles pudessem latir, na noite raiada de estrelas, como que lembrando a Serafim Costa — que interromperia por meio minuto o seu sono tranqüilo e patriarcal — as suas presenças vigilantes. — Aqui mora Serafim Costa devia ter-me dito meu pai, num daqueles crepúsculos em que, de bonde, voltávamos para casa; ele com a sua velha pasta que inexplicavelmente não o acompanhou ao túmulo (o que talvez não o fizesse ser de pronto reconhecido no Paraíso), e nós ainda guardando nos ouvidos o bulício vesperal do instante em que, aberta a porta do grupo escolar, as crianças escoavam para a praça e se perdiam nas escurentas ruas tortuosas. O palacete branco vulgava riqueza, luxo, secreto esplendor. Além das portas fechadas, das presumíveis estatuetas de mármore, do aroma das dálias, do fino palor dos azulejos, das mudas venezianas, havia decerto um universo de opulência, que a nossa fantasia de meninos pobres mal podia imaginar. A tarde transcurecia; o portão fechado validava-se como o brasão de uma existência que, terminados os diálogos inevitáveis de seu ofício de grande comerciante sempre atarefado e vigilante, suspendia qualquer tráfico com as mesquinharias diurnas, igual a um navio que, após todo o baixo ritual da estiva, readquire a sua dignidade perdida sulcando o mar sem amarras. Era o palácio de Serafim Costa. E o nome, a magia desse nome que ocupou toda a minha infância, e era o preâmbulo mágico das encantações, demorava-se em mim, .solfejando-se no ar eternamente perfumado pelo Oceano. Meu pai, então guarda-livros de um armazém de tecidos, conhecia Serafim Costa, e nos mostrava a sua residência. "Aqui mora Serafim Costa." Não nos nomeava uma forma definida de casa (sobrado, bangalô, palacete); e certo aquela moradia, uma das mais luxuosas da pequena cidade, refugia às denominações irreversíveis. Ignoro se Serafim Costa era alagoano ou um dos muitos imigrantes portugueses que, estabelecidos em Maceió, enriqueceram em tecidos ou em secos e molhados e terminaram comendadores — mas em seu palacete, na exuberância do jardim equatorial, no chão assombrado de árvores enlanguescidas pelo mormaço, havia algo que era a fusão improfundável dos mais faustosos elementos nativos com uma substância remota e avoengueira, como que a reprodução de antiga planta deixada do outro lado do mar e tacitamente reconstruída pela poupança e ambição do imigrante afortunado. Por isso, meu pai dizia aqui, querendo assim significar tudo o que era o império de Serafim Costa: as grades do jardim, os sinuosos canteiros colmeados de folhas e flores, os calangros e insetos, a água espatifada de uma fonte, os familiares que não apareciam às janelas, talvez para não confundir a visão de todos os que, como eu, o imaginavam reinando solitário em sua mansão, sem quinhoar ostensivamente com ninguém o resultado, de sua vida vitoriosa, feita de zelo e siso. Embora eu não tivesse conhecido Serafim Costa, tornou-se-me familiar aos olhos um dos empregados de seu armazém. Era um velho corcunda, de fiapos brancos na cabeça calva, e devoto. Alguns anos depois, quando já tínhamos deixado de morar no sítio e passáramos a habitar numa rua do centro da cidade, estávamos todos, no sótão, assistindo à passagem de uma procissão que enchia a monotonia da tarde de domingo. Súbito, identifiquei na multidão o corcunda velho e devoto, e exclamei: — Olhe o Serafim Costa! A exclamação fez espécie a meu pai, que se virou para mim, surpreendido com a notícia. Seu ar era mais do que de dúvida — decerto eu dissera uma heresia, que reclamava pronta corrigenda ou a aura de uma prova irretocável. Com o dedo, apontei o velho corcunda que, de casimira preta na tarde de sol fugidiço, vencia, na aglomeração, os. paralelepípedos da rua. Meu pai reconheceu o empregado de Serafim Costa e exclamou, de bom rosto: — Não é o Serafim Costa — e achou engraçado que eu confundisse o empregado humilde e devoto com o poderoso e mitológico patrão. E assim ele ficou sendo, para mim, sempre e eternamente, um nome, inatingível figura do ar. Muitas vezes, passeando sozinho pelo sítio ou junto ao mar lampejante, eu repetia esse nome, despetalava-o na brisa como se ele fosse um malmequer, juntava de novo as pétalas das sílabas que cantavam mesmo momentaneamente esquartejadas. Serafim Costa! dizia eu bem alto para que os costados dos navios pudessem devolver-me, em forma de eco, essa primeira lição de poesia, essa infindável soletração do absoluto. Muitos anos depois, desintegrada a infância, e já envolto numa névoa de estrangeiro, voltei à curva do bonde. Era ali que morava Serafim Costa — o portão fechado era sinal de que ele estava lá dentro, movendo-se possivelmente entre frutas maduras, gatos sonolentos e bojudas porcelanas azuis. Trinta anos se tinham passado desde os dias em que o bonde, na volta da escola, nos fazia ver a misteriosa morada, o universo branco e verde estriado de agudas grades negras e manchas róseas. O invisível Serafim Costa já deveria estar morando, e de há muito, em outra alvacenta morada... Mas parei diante do portão cerrado, espiei o jardim silencioso, os vasos de azulejos, as escadarias de mármore, as altas janelas que pareciam sotéias. E chamei: Serafim Costa! Chamei a quem, a que? E ocorreu o milagre. O nome ficou suspenso no jardim onde se ocultava uma cobra papa-ovo, depois voou pelos ares, como um pássaro; chocou-se contra os costados dos cargueiros que, no destempo hirto, desembarcavam em Maceió os caixotes das mercadorias encomendadas, do outro lado do Oceano, pelo valimento comercial de Serafim Costa; e, metamorfoseado em eco, voltou de novo aos meus ouvidos, já agora na soberba hierarquia de um nome que não precisa mais de figura ou de anedota; e se tornou para sempre algo sonoro e puro, deslumbrante e enxuto. E, assim, obtive a resposta. Lêdo Ivo

domingo, 16 de dezembro de 2012

Macacos me mordam

Morador de uma cidade do interior de Minas me deu conhecimento do fato: diz ele que há tempos um cientista local passou telegrama para outro cientista, amigo seu, residente em Manaus: “Obsequio providenciar remessa 1 ou 2 macacos”. Necessitava ele de fazer algumas inoculações em macaco, animal difícil de ser encontrado na localidade. Um belo dia, já esquecido da encomenda, recebeu resposta: “Providenciada remessa 600 restante seguirá oportunamente”. Não entendeu bem: o amigo lhe arranjara apenas um macaco, por seiscentos cruzeiros? Ficou aguardando, e só foi entender quando o chefe da estação veio comunicar-lhe: – Professor, chegou sua encomenda. Aqui esta o conhecimento para o senhor assinar. Foi preciso trem especial. E acrescentou: – É macaco que não acaba mais! Ficou aterrado: o telégrafo errara ao transmitir “1 ou 2 macacos”, transmitira “1002 macacos”! E na estação, para começar, nada menos que seiscentos macacos engaiolados aguardavam desembaraço. Telegrafou imediatamente ao amigo: “Pelo amor Santa Maria Virgem suspenda remessa restante”. Ia para a estação, mas a população local, surpreendida pelo acontecimento, já se concentrava ali, curiosa, entusiasmada, apreensiva: – O que será que o professor pretende com tanto macaco? E a macacada, impaciente e faminta, aguardava destino, empilhada em gaiolas na plataforma da estação, divertindo a todos com suas macaquices. O professor não teve coragem de aproximar-se: fugiu correndo, foi se esconder no fundo de sua casa. A noite, porém, o agente da estação veio desentocá-la: – Professor, pelo amor de Deus, vem dar um jeito naquilo. O professor pediu tempo para pensar. O homem coçava a cabeça, perplexo: – Professor, nós todos temos muita estima e muito respeito pelo senhor, mas tenha paciência: se o senhor não der um jeito eu vou mandar trazer a macacada para sua casa. – Para minha casa? Você está maluco? O impasse prolongou-se ao longo de todo o dia seguinte. Na cidade não se comentava outra coisa, e os ditos espirituosos circulavam: – Macacos me mordam! – Macaco, olha o teu rabo. A noite, como o professor não se mexesse, o chefe da estação convocou as pessoas gradas do lugar: o prefeito, o delegado, o juiz. – Mandar de volta por conta da prefeitura? – A prefeitura não tem dinheiro para gastar com macacos. – O professor muito menos. – Já estão famintos, não sei o que fazer. – Matar? Mas isso seria uma carnificina! – Nada disso – ponderou o delegado: – Dizem que macaco guisado é um bom prato... Ao fim do segundo dia, o agente da estação, por conta própria, não tendo outra alternativa, apelou para o último recurso – o trágico, o espantoso recurso da pátria em perigo: soltar os macacos. E como os habitantes de Leide durante o cerco espanhol, soltando os diques do mar do Norte para salvar a honra da Holanda, mandou soltar os macacos. E os macacos foram soltos! E o mar do Norte, alegre e sinistro, saltou para a terra com a braveza dos touros que saltam para a arena quando se lhes abre o curral – ou como macacos saltam para a cidade quando se lhes abre a gaiola. Porque a macacada, alegre e sinistra, imediatamente invadiu a cidade em panico. Naquela noite ninguém teve sossego. Quando a mocinha distraída se despia para dormir, um macaco estendeu o braço da janela e arrebatou-lhe a camisola. No botequim, os fregueses da cerveja habitual deram com seu lugar ocupado por macacos. A bilheteira do cinema, horrorizada, desmaiara, ante o braço cabeludo que se estendeu através das grades para adquirir uma entrada. A partida de sinuca foi interrompida porque de súbito despregou-se do teto ao pano verde um macaco e fugiu com a bola 7. Ai de quem descascasse preguiçosamente uma banana! Antes de levá-la à boca um braço de macaco saído não se sabia de onde a surrupiava. No barbeiro, houve um momento em que não restava uma só cadeira vaga: todas ocupadas com macacos. E houve também o célebre macaco em casa de louças, nem um só pires restou intacto. A noite passou assim, em polvorosa. Caçadores improvisados se dispuseram a acabar com a praga – e mais de um esquivo notívago correu risco de levar um tiro nas suas esquivanças, confundido com macaco dentro da noite. No dia seguinte a situação perdurava: não houve aula na escola pública, porque os macacos foram os primeiros a chegar. O sino da igreja badalava freneticamente desde cedo, apinhado de macacos, ainda que o vigário houvesse por bem suspender a missa naquela manhã, porque havia macaco escondido até na sacristia. Depois, com o correr dos dias e dos macacos, eles foram escasseando. Alguns morreram de fome ou caçados implacavelmente. Outros fugiram para a floresta, outros acabaram mesmo comidos ao jantar, guisados como sugerira o delegado, nas mesas mais pobres. Um ou outro surgia ainda de vez em quando num telhado, esquálido, assustado, com bandeirinha branca pedindo paz à molecada que o perseguia com pedras. Durante muito tempo, porém, sua presença perturbadora pairou no ar da cidade. O professor não chegou a servir-se de nenhum para suas experiências. Caíra doente, nunca mais pusera os pés na rua, embora durante algum tempo muitos insistissem em visitá-la pela janela. Vai um dia, a cidade já em paz, o professor recebe outro telegrama de seu amigo em Manaus: “Seguiu resto encomenda”. Não teve dúvidas: assim mesmo doente, saiu de casa imediatamente, direto para a estação, abandonou a cidade para sempre, e nunca mais se ouviu falar nele. Fernando Sabino