Gíria da favela
Contenção – olheiro
Cesinha tomou banho e as seis horas da tarde estava na sua base, a base três. A base três era a pior base para ficar observando se a policia entrava ou não na favela. Era ruim porque no local não tinha apenas uma rua, era uma encruzilhada onde tinha de se preocupar com os carros que vinham das quatro direções,o camburão ou a radio patrulha e ainda os carros civis que os policiais as vezes entravam na favela, na maior parte das vezes em missões não oficiais. Podiam vir de qualquer uma delas, da esquerda, da direita, pela frente, por trás, por isso era bom estar sempre alerta. To vendo alguma coisa lá longe! Caralho! Que carro é aquele? Acho que não é a policia não! Quando o carro se aproximou, Cesinha pode notar que era um gol branco de algum morador. Não teria que estourar o foguete de doze tiros. Durante uns dez minutos, não passou nenhum carro e ele pode respirar sossegado. Seu sossego durou pouco, dessa vez era um carro da policia, um camburão, assim que teve certeza se tratar de um carro da policia, tirou o isqueiro do bolso, saiu correndo e estalou o foguete. Da sua base foi correndo para um bar que ficava numa rua atrás da base três, ali Cesinha se misturava com os freqüentadores e podia ficar observando o momento em que os policiais fossem embora, para voltar a sua base, a base três. A incursão da policia durou pouco, eles estavam somente passando, sem nenhuma missão, foram na direção da boca, porem como os policiais não viram ninguem na pista e nem nada que chamasse a atenção deles, continuaram sua ronda e foram para outra parte da favela. Quinze minutos depois pegou outro foguete no quintal de uma casa abandonada e voltou para a base.
Ao longe pode ver Natalia vindo na direção dele. Natalia era a alegria dos fogueteiros, já tinha saído com quase todos que a boca tinha, cerca de quinze moleques. Ela parou ao lado dele sorrindo.
- oi Cesinha, tudo bem.
- to legal e você?
- tudo bem comigo.
- depois que eu sair daqui, vamos lá em casa?
Natalia olhou para Cesinha e riu. Natalia era uma menina bonita, tinha uns quinze pra dezeseis anos, era loirinha, tinha olhos negros bem envolventes. Poderia namorar um rapaz trabalhador, que não fosse envolvido com o trafico de drogas. Porem ela tinha mesmo era tesão por bandido, gostava de ficar conversando com os contenções e ficar fumando maconha com eles nas esquinas, geralmente sempre ia para algum lugar dar para eles depois do expediente. Já tinha transado no mato, no quintal da casa dos outros, no banheiro de boteco, tudo isso nas madrugadas, onde todos os gatos são pardos.
- vou sim, leva um pra gente torrar lá.
- pode deixar vou levar um do boldinho.
- que horas você vai sair daqui hoje.
- vou sair daqui lá pras três horas.
- três e meia eu vou lá na sua casa, vou ficar um pouco no baile com as garotas e depois eu vou pra lá.
- vou te aguardar hein.
Natalia foi embora e Cesinha voltou para o seu trabalho, começou a pensar nas coisas que ele e Natalia iriam fazer mais tarde, sabia que ela era muito boa de cama, já tinha transado antes e todas as vezes ela deixava nele, aquele gostinho de quero mais. Careta ela fodia muito bem, agora chapada de maconha ele a era um verdadeiro demônio na cama, fazia tudo e um pouco mais. Distraído pensando nela, cometeu um erro muito grave para um fogueteiro, confundiu um carro comum com um carro da policia e estalou o foguete. Quando o carro passou próximo dele, viu que tinha feito uma merda. Todos os bandidos se esconderiam ao ouvirem os fogos e depois ao saberem que foi um alarme falso, iam cobrar de quem deu o alarme. Não se passou dez minutos depois do alarme falso e um outro moleque da boca foi falar com ele.
- Aí tão te chamando lá na laje, querem desenrolar contigo a merda que você fez. Eu vou ficar aqui no seu lugar.
A laje onde os bandidos ficavam na noite fazendo a vigilância da favela, não era muito longe dali da base três, onde ele estava. Cesinha entrou no quintal da casa, subiu no muro e foi para a laje. Chegando lá em cima um dos traficantes foi logo lhe dando com o cabo do fuzil na barriga.
- qual foi a tua compadre. Você é maluco? Estourou os fogos sem ver a policia?
- Poxa, foi mal. Eu confundi uma blazer com a blazer da policia.
- foi mal é o caralho. Tu acha que eu gosto de correr atoa da policia. Se liga na tua responsa. Aí da um corretivo nesse filho da puta.
Cesinha fechou os olhos, sabia que ia apanhar. Tomou uma banda e quando caiu, levou chute pelo corpo todo, só teve tempo de proteger o rosto. Apanhou bem doído. Desceu da laje todo dolorido e com alguns hematomas, mas nada que o impedisse de continuar seu trabalho, ainda bem que não cortaram meu pagamento. Pensou e sorriu. Apesar das dores que sentia. Ainda transaria com Natalia. Voltou para sua base, o moleque que ficou no lugar dele, entregou o foguete e o isqueiro, antes de ir embora olhou para Cesinha.
- ainda bem que não te bateram muito. Uma vez tomei uma coça, que cheguei a mijar sangue.
- mas foi a primeira vez que eu errei, eles não tinham que reclamar, mas semana que vem vou sair dessa, vou começar a traficar maluco, essa de ser contenção não ta dando mais não, o bagulho é ser vapor.
Sozinho de novo na minha base. Tomara que a policia não venha de novo. Caralho, minha costela esta doendo um pouco, quando eu chegar em casa, vou pedir pra minha mãe colocar aqui um pouquinho de saião amassado com sal grosso e com certeza amanha vai estar legal. Não vou deixar a Natalia escapar de mim hoje. Hoje ela vai ser toda minha.
Um camburão da PM entrou a toda na favela, antes mesmo que cesinha pudesse estourar os fogos, os policiais largaram o dedo em cima dele, que saiu correndo e cerca de trinta metros depois da base três, conseguiu estalar os fogos, pular um muro e se esconder no quintal de uma casa. Pode escutar o barulho dos pneus do carro da policia e uns trinta segundos depois alguns tiros. Cesinha ficou escondido na casa cerca de meia hora e depois como não ouviu mais nada, saiu do esconderijo. Na rua encontrou um amigo com quem costumava fumar maconha nas horas de folga.
- ta tranqüilo? – perguntou cesinha.
- agora ta tranqüilo sim. Os caras ouviram os tiros e depois os fogos. Foi em cima de tu que os home deram?
- foi sim maluco, eu corri e estalei né.
- aí os home chegaram na boca neguinho e largaram o aço nos viciados tudo. Foi viciado pra tudo quanto é lado, os home desceram e deram tapa na cara de um monte deles. Sinistro. Esse plantão de hoje, os policia são neurótico, tudo endemoninhado, nem arrego eles aceitam. – explicou o puxa saco de traficante.
Cesinha continuou em sua base, olhou para o relógio, iam dar dez da noite. Porra! To cheio de fome. Esperou cerca de dez minutos até que viu Hugo, um menino de dez anos de idade, que fazia favores para os bandidos e contenções e que com certeza dentro de pouco tempo estaria na boca.
- cole menor chega aí!
O moleque veio, apertou a mão de cesinha.
- fala ai braço!
- da uma moral ai pra mim, vai até ali no MC lanches e compra um x - tudo e uma vitamina de banana sem aveia, fala que é pra mim.
- tranqüilo! Posso pegar um hambúrguer pra mim, to na maior larica?
- já é!
Cesinha estava saboreando o seu podrão, quando para seu azar viu o camburão se aproximando, deu uma ultima dentada no x-podrão, saiu correndo, acendeu o isqueiro e estalou o foguete. Se escondeu novamente no bar. Para seu azar o camburão foi na direção do bar. Cesinha pegou um taco de sinuca e ficou com ele na mão. O camburão parou na frente do bar, o sargento desceu e chamou cesinha.
- chega aí moleque.
Cesinha foi até o carro da policia.
- ta fazendo o que aqui? – perguntou o policial.
- eu estava jogando sinuca.
- jogando sinuca o caralho! Você é fogueteiro isso sim!
Sem que Cesinha esperasse, o sargento deu um tapa no pé do ouvido dele. A pancada foi com tanta força que sua orelha ficou quente e seu ouvido zumbindo. O sargento voltou para o camburão e foi embora. Cesinha voltou para o bar, lavou o rosto no banheiro e voltou para a sua base.
No restante da noite não teve mais nenhuma incursão da policia, depois da troca de plantão, os traficantes pagaram o arrego.
Gíria da favela
Arrego – dinheiro pago a policia para que durante determinado plantão não haja incursões nas favelas.
Bebeto, o outro moleque que fazia o terceiro turno da base três chegou, Cesinha entregou o isqueiro e o foguete, apertou a mão dele e foi embora. Foi a ultima vez que ele viu Bebeto, na manha seguinte Bebeto foi morto pela policia. Cesinha foi na boca, pegou sua diária, quarenta reais e foi para casa esperar por Natalia.
Julio Pecly
domingo, 25 de julho de 2010
sábado, 3 de julho de 2010
MARGARIDA
A garota em êxtase brandiu o postal que recebera do namorado em excursão na Grécia :
- Coisa mais linda! Olha só o que ele escreveu: "Eu queria desfolhar teu coração como se ele fosse a mais margarida de todas as margaridas. "Marquinhos é genial, o senhor não acha?
- Pode ser que seja, não conheço Marquinhos. Se bem que antes da era Pierre Cardin, genial era Dante, Da Vinci, Einstein, outros assim. Mas essa frase não é de Marquinhos.
- Não é de Marquinhos?! Tá com a letra dele, assinada por ele.
- Estou vendo que assinou, mas é de Darío.
- Quem? O Darío, do Atlético Mineiro? Sem essa.
- Não minha florzinha, Darío, Rubén Darío, o poeta da Nicarágua.
- Não conheço. Então Rubén Darío falou para Marquinhos e Marquinhos
- Achou bacana e pediu emprestado a ele?
- Tenho a impressão que o Marquinhos não pediu nada emprestado a Rubén Darío. Tomou sem consultar.
- Como é que o senhor sabe?
- É muito difícil consultar o Darío.
- Por quê? Ele não dá bola para gente? Não gosta da mocidade? É careta?
- Não é nada disso. O Darío não é encontrado em parte alguma.
- Ah, ele gosta de bancar o invisível, né?
- Não creio que goste, mas é exatamente o caso dele: invisível.
- Não dá para entender.
- Vai entender logo. Ele morreu em 1916.
- Ah! E como é que o Marquinhos descobriu essa margarida, me conte!
- Simples. Leu num livro de poemas de Rubén Darío.
- Marquinhos não é ligado a leitura. Duvido.
- Se não leu no livro, leu em alguma revista, em alguma parte.
- Hã...
Ficou tão triste- os olhos, a boca, a testa franzida- que achei de meu dever confortá-la:
- Que importância tem isso? A frase é de Darío, é de Marquinhos, é de toda pessoa sensível, capaz de assimilar o coração à margarida... Desculpe: à margarida.
Muxoxo:
- Se é de todos, não é de ninguém, não vale nada.
- Pelo contrário. Fica valendo mais, torna-se sentimento universal.
- Ah, o senhor está por fora. Eu queria a margarida só para mim. Copiada não tem graça. A graça era imaginar Marquinhos, muito sério, desfolhando meu coração transformado em margarida, para saber se eu gosto dele, um pouquinho, bastante, muito loucamente, nada. E a margarida sempre com uma pétala escondida por baixo da outra, entende? Para ele não ter certeza, porque essa certeza eu não dava... Era gozado.
- Continue imaginando.
- Agora não dá pé. Marquinhos roubou a margarida, quis dar uma de poeta. Não colou.
- Espere um pouco. Eu disse que a margarida era de Rubén Darío? Esta cabeça! Esquece, minha filha. Agora me lembro que Rubén Darío nem podia ouvir falar em margarita, começava a espirrar, a tossir, ficava sufocado, uma coisa horrível. Alergia- que no tempo dele ainda não estava batizada. Pois é. Garanto a você, posso jurar que a margarida não é de Darío.
- De quem é então?
- De Marquinhos, ué.
- Tem certeza que nunca ninguém antes de Marquinhos escreveu ä mais margarida de todas as margaridas"? o senhor lê milhões, pode me responder. Tem certeza?
- Absoluta. Marquinhos é genial, reconheço. Mas, por via das dúvidas, continue escondendo uma pétala de reserva, sim?
- Pode deixar por minha conta. Puxa, quase que eu parava de transar com o Marquinhos por causa do senhor. Agora tá legal, tchau, vovô!
Vovô: foi assim que ela me agradeceu a mentira generosa, a bandida.
Carlos Drumond de Andrade
- Coisa mais linda! Olha só o que ele escreveu: "Eu queria desfolhar teu coração como se ele fosse a mais margarida de todas as margaridas. "Marquinhos é genial, o senhor não acha?
- Pode ser que seja, não conheço Marquinhos. Se bem que antes da era Pierre Cardin, genial era Dante, Da Vinci, Einstein, outros assim. Mas essa frase não é de Marquinhos.
- Não é de Marquinhos?! Tá com a letra dele, assinada por ele.
- Estou vendo que assinou, mas é de Darío.
- Quem? O Darío, do Atlético Mineiro? Sem essa.
- Não minha florzinha, Darío, Rubén Darío, o poeta da Nicarágua.
- Não conheço. Então Rubén Darío falou para Marquinhos e Marquinhos
- Achou bacana e pediu emprestado a ele?
- Tenho a impressão que o Marquinhos não pediu nada emprestado a Rubén Darío. Tomou sem consultar.
- Como é que o senhor sabe?
- É muito difícil consultar o Darío.
- Por quê? Ele não dá bola para gente? Não gosta da mocidade? É careta?
- Não é nada disso. O Darío não é encontrado em parte alguma.
- Ah, ele gosta de bancar o invisível, né?
- Não creio que goste, mas é exatamente o caso dele: invisível.
- Não dá para entender.
- Vai entender logo. Ele morreu em 1916.
- Ah! E como é que o Marquinhos descobriu essa margarida, me conte!
- Simples. Leu num livro de poemas de Rubén Darío.
- Marquinhos não é ligado a leitura. Duvido.
- Se não leu no livro, leu em alguma revista, em alguma parte.
- Hã...
Ficou tão triste- os olhos, a boca, a testa franzida- que achei de meu dever confortá-la:
- Que importância tem isso? A frase é de Darío, é de Marquinhos, é de toda pessoa sensível, capaz de assimilar o coração à margarida... Desculpe: à margarida.
Muxoxo:
- Se é de todos, não é de ninguém, não vale nada.
- Pelo contrário. Fica valendo mais, torna-se sentimento universal.
- Ah, o senhor está por fora. Eu queria a margarida só para mim. Copiada não tem graça. A graça era imaginar Marquinhos, muito sério, desfolhando meu coração transformado em margarida, para saber se eu gosto dele, um pouquinho, bastante, muito loucamente, nada. E a margarida sempre com uma pétala escondida por baixo da outra, entende? Para ele não ter certeza, porque essa certeza eu não dava... Era gozado.
- Continue imaginando.
- Agora não dá pé. Marquinhos roubou a margarida, quis dar uma de poeta. Não colou.
- Espere um pouco. Eu disse que a margarida era de Rubén Darío? Esta cabeça! Esquece, minha filha. Agora me lembro que Rubén Darío nem podia ouvir falar em margarita, começava a espirrar, a tossir, ficava sufocado, uma coisa horrível. Alergia- que no tempo dele ainda não estava batizada. Pois é. Garanto a você, posso jurar que a margarida não é de Darío.
- De quem é então?
- De Marquinhos, ué.
- Tem certeza que nunca ninguém antes de Marquinhos escreveu ä mais margarida de todas as margaridas"? o senhor lê milhões, pode me responder. Tem certeza?
- Absoluta. Marquinhos é genial, reconheço. Mas, por via das dúvidas, continue escondendo uma pétala de reserva, sim?
- Pode deixar por minha conta. Puxa, quase que eu parava de transar com o Marquinhos por causa do senhor. Agora tá legal, tchau, vovô!
Vovô: foi assim que ela me agradeceu a mentira generosa, a bandida.
Carlos Drumond de Andrade
quarta-feira, 2 de junho de 2010
Esaú
Esaú estava no quarto diante do espelho, penteava o cabelo e acabava de se aprontar para o culto. Seu irmão Jacó com quem dividia o quarto entrou, na mão ele trazia um pão com manteiga, já reduzido à metade.
- E aí mano, ta se arrumando todo assim pra que? Pra pegar as irmãs da igreja né!
Esaú olhou para o irmão e disse bem sério:
- As mulheres da igreja não são iguais a essas mulheres do mundo não.
- no que elas são diferentes? – Jacó colocou o pão na boca e apertou o pênis. – o que uma gosta as outras também gostam.
- pelo que eu vi, você não entende nada de mulher. Vamos para o culto hoje?
- hoje não! Ainda não chegou a minha hora. Vai orando por mim, na hora certa eu vou seguir o caminho.
- Ai que mora o problema meu irmão. Agora nesse momento pode ser a tua ultima hora. Essa pode ser a ultima vez que Jesus te chama.
- que nada cara, to novo ainda, to curtindo a vida, na hora certa eu e Jesus a gente vai se entender.
- vou continuar orando por você meu irmão, do mesmo jeito que eu faço todos os dias. Deixa eu ir pro culto senão eu me atraso.
- Ora mesmo por mim Esaú.
- Eu oro, porque eu sei como esse mundo ai fora é perigoso.
Na rua Esaú cumprimentava os irmãos, não só os da sua igreja, como os de outras igrejas.
- Paz do senhor meus irmãos. – desejou ele para um grupo de cinco irmãos de uma mesma família. O pai, a mãe e os três filhos desejaram o mesmo para ele.
Quando chegou na igreja, faltavam quinze minutos para começar o culto. Ficou parado na entrada da igreja conversando com alguns irmãos. Queria saber na casa de qual irmão seria o culto de quarta a noite.
- o culto vai ser na casa do irmão Altamiro. Vai ser um culto de agradecimento, o filho dele mais novo, passou no vestibular. – respondeu o irmão Joel.
- Oh gloria, irmão! Que bênção hein! Jesus sempre operando. – Esaú ficou feliz, pois sabia do esforço do irmão Altamiro para pagar cursos para o filho.
O irmão Sávio avisou a todos que estava na hora de entrarem, pois o culto matutino dominical iria começar. Esaú sentou no seu local de costume, o quinto banco da fileira do meio. O pastor agradeceu a presença de todos e fez uma oração.
– Senhor meu deus, meu pai, criador dos céus e da terra. Que deu seu único filho para que pudéssemos ser perdoados de todos os nossos pecados. Tomai hoje a frente de nosso culto, que possamos sair daqui, sabendo que seu amor por nós é imenso. Não podendo ser medido por padrões humanos. Olhai por todos nós, perdoai nossos pecados. Ilumine nossos pensamentos e toma a frente desse culto. Isso é o que lhe pedimos, em nome de Jesus. Amem!
O pastor fez um breve resumo das atividades semanais, fez as prestações de contas referentes ao dizimo e as ofertas que foram devolvidas pelos irmãos, deu os parabéns aos aniversariantes do mês, orou novamente e pediu que todos os irmãos abrissem suas bíblias no livro do apostolo São João, no capitulo três, no versículo dezesseis. Todos leram juntos, oraram de novo. Em cima desse versículo o pastor Ebirom pautou a mensagem.
– Irmãos! Quando Jesus andou por esse mundo, acham que foi atoa? Claro que não, ele andava levando os ensinamentos dele e pra nos mostrar que devemos, andar sempre nos caminhos do senhor e pregar. Pregar para todas as criaturas. Devemos pregar em qualquer local que tivermos. Na fila do banco, no ônibus, na feira, no hospital. Nossa missão nesse mundo é levar a cura para os doentes e qual é a cura? A palavra de deus que esta aqui!
Nesse momento o pastor ergueu a bíblia e todos irmãos disseram em uníssono.
- Louvado seja a Deus! Aleluia! Aleluia!
Do lado de fora da igreja ouve-se uma seqüência de muitos tiros. O pastor da uma parada na pregação.
- Por favor irmão, fecha a porta da igreja e não se preocupem irmãos. Aqui dentro estamos debaixo da proteção de deus.
O culto continuou sem mais interrupções. Antes de terminar, o pastor fez a oração final.
– que deus nos proteja irmãos! Que cuide de nos, que nos proteja agora que vamos voltar para os
nossos lares, nos de uma boa semana. É isso que humildemente lhe peço, senhor meu deus, criador dos
céus e da terra. Em nome de Jesus. Amem!
Os irmãos abrem seus olhos e sorrindo, cumprimentaram-se. O porteiro foi até a porta, abriu e olhou para fora, vendo se havia ainda algum perigo.
- Ta tudo tranqüilo irmãos. Não esta tendo mais tiro.
Esaú conversava com a irmã Ângela, uma senhora gorda, mãe de três meninas e uma excelente cozinheira. Não era atoa que ela era bem gordinha.
- onde já se viu tiroteio em plana luz do dia.
- essa favela está uma confusão danada, irmã. Esse lugar aqui já foi muito bom. Mas eu sinto irmã, que Jesus tem uma obra pra esse local.
- Aleluia irmão! O sangue de Jesus tem poder! – enquanto falava, erguendo as mãos para o alto, seus seios fartos balançavam. – meu irmão, aparece lá em casa hoje a noite, minha prima da igreja de Madureira vai estar lá. O irmão é solteiro, ela também é solteira. Quem sabe não é ela que deus reservou pro irmão.
– irmã, eu até vou na sua casa, mas pra fazer uma visita a senhora. Não precisa a senhora ficar me apresentado seus parentes, a pessoa certa pra mim, vai chegar na hora certa. Nós temos que viver no nosso tempo e deus tem o tempo dele. Eu vou sim! Pode me aguardar, hoje eu não trabalho e a irmã sabe que eu me amarro nos seus doces. Eles são maravilhosos. Deixa eu ir, tenho que fazer uma prateleira pra minha mãe. Paz do senhor.
– paz do senhor meu irmão.
Esaú sai da igreja, a favela estava uma bagunça. Era sempre assim depois de um tiroteio. Ao falar com as pessoas, ele sentiu uma diferença no olhar delas, parecia que tinha acontecido alguma coisa. E tinha. Um pouco mais a frente de onde ele estava, havia uma aglomeração de pessoas em volta de um corpo coberto com um lençol branco. Sua tia chorava e ao vê-lo, veio em correndo em sua direção. Na mente de Esaú, ele adivinhou o que houve. A bíblia caiu da mão dele. Esaú começou a chorar. A tia tentou abraça-lo, ele se desvencilhou dela.
- Não vai me dizer que é o Jacó tia?
O silencio da tia foi a confirmação do que ele mais temia. Mataram seu irmão mais novo. Esaú se aproximou do corpo do irmão e ficou olhando.
- O trato não era esse! O trato não era esse! – gritou entre as lagrimas que desciam de seus olhos.
Esaú se abaixa e descobre o corpo do irmão. Três tiros no peito, acabaram com a vida de mais um viciado, que algum tempo atrás já tinha sido um bom filho. Durante alguns segundos, Esaú ficou abaixado, quieto, apenas olhando para o corpo sem vida do irmão. Esaú ficou de pé, e começou a andar em volta do corpo do irmão. Ele falava como se tivesse brigando com o irmão, por ele ter feito algo muito errado.
– não cara porque você não me escutou. Eu te falei que isso ia acontecer, eu te falei. E agora? E a mãe? E tua filha? E eu mano, vou chamar quem de irmão? Eu não tenho mais irmão. E a mãe e a mãe?
A mãe de Esaú, uma senhora com mais de sessenta anos, vem correndo o maximo que pode, sendo amparada por duas moças. Ela para ao lado do corpo do filho morto e apenas o observa. Não diz nada durante cerca de um minuto. Depois ela olha para Esaú e da uma ordem. Sua voz sai áspera, doída.
- vamos levar ele pra casa, filho meu não vai servir de espetáculo pra ninguém ficar olhando.
Ezaul pega o corpo do irmão e o carrega pelas ruas, sendo seguido por algumas pessoas. Esaú deposita o corpo do irmão em cima da cama da mãe e incontinente abre o armário.
- ta procurando o que meu filho?
- vou matar o Valquir mãe. A gente tinha um trato, eu estava pagando aos poucos a divida que o Jacó tinha com ele e ele furou o trato.
– Eu não quero perder dois filhos no mesmo dia.
- a senhora não vai não minha mãe.
– então não vai atrás desse cara.
– tenho que ir mãe.
– E a sua igreja.
– mãe, isso é entre eu e o Valquir. Jesus não tem nada a ver com isso.
– Não vai!
Ezaul verifica a pistola, tira o pente, coloca de novo, destrava e coloca na cintura. Sentada a mãe vê seu filho sair, nesse momento ela começa a chorar.
Na rua, Esaú não vê nada, vai caminhando decidido a procura de Valquir. Ao passar pela porta de um bar, não consegue ouvir um comentário as suas.
- coitada da mãe dele, já perdeu um filho e vai perder o outro.
Conforme vai caminhando pelas ruas da favela, todos os fofoqueiros e fofoqueiras, vão falando.
- o Valquir vai matar ele.
- vai nada maluco! Quando o Esaú era da boca, ele era o cara mais sinistro.
- ele era crente falso, uma vez traficante, sempre traficante.
- nem todo aquele que diz senhor, senhor, será salvo.
Numa esquina três caras fumam maconha, Valquir e mais dois.
– passei mesmo! Era maior vacilão, tava devendo a firma mesmo. Esse filha da puta ia morrer mesmo. Tava viciadão em craque. – Valquir falava sem nenhum ressentimento.
– tu viu o cara estrebuchou e ficou la de bigode. – disse Guga, um vapor.
GÍRIA DA FAVELA
FICOU DE BIGODE – MORTO, ESTIRADO NO CHÃO
– a vida do crime é assim, cadeia ou cemitério.
Ao dobrar a esquina, Esaú avistou Valquir e os outros dois bandidos.
De pistola em punho, surpreendeu os três.
- quero só o Valquir.
Os dois covardes saíram correndo, deixando os dois inimigos sozinhos. Os moradores que estavam por perto ao ver os dois frente a frente se esconderam, tinham medo de uma bala perdida sobrar pra eles. Se esconderam, mais de modo que pudessem assistir a tudo que estava por acontecer.
– Agora é entre nos dois. Qual era o nosso trato?
– o trato morreu irmão. Teu irmão já devia o dobro do que ele tava devendo e você não pagou nem a metade. Neguinho já tava me cobrando. Era eu, ou teu irmão, tinha que ser feito cara.
– sabe que eu vim aqui pra te matar!
– irmão! Se tu é sujeito homem, eu também sou. Ta ligado! Nem entrei nessa de bobeira não. Só que eu também vou tentar a sorte. Se é de chorar a minha mãe, que chore a tua.
Ezaul levanta a pistola e atira na direção de Valquir que se joga no chão. Ouve-se um choro de criança. Esaú olha na direção e vê uma menina caída no chão chorando. Valquir se levanta aponta a arma na direção de Esaú, só que a arma trava e o barulho chama a atenção de Esaú, que levanta e atira na direção de Valquir. Valquir corre em ziguezague e nenhum tiro pega nele. Quando Esaú retoma a razão, ele vê uma menina de uns nove anos de idade caída com uma mancha vermelha no peito. Esaú se aproxima da garota, ela não se mexe. Esaú a pega no colo e tenta correr para leva-la ao hospital e não consegue, seu corpo simplesmente não sai do lugar.
- Não! Você não vai morrer! - Gritava Esaú.
- Cala a boca caralho! Vai dormir porra! Eu quero dormir caralho!
Eram os últimos meses de Esaú na cadeia. Finalmente ele ia concluir o que não conseguira seis anos atrás. O mesmo sonho todas as noites, ele tentava levar a menina que sem querer havia baleado e não conseguia. Ele não conseguia, durante os seis anos em que permaneceu na cadeia, tinha esse sonho quase todos os dias.
Estava sentado no pátio tomando um banho de sol e pensando. Só mais três meses que vou ficar aqui nesse inferno. Do bolso tirou uma carta antiga que sua tia tinha escrito e começou a reler. “... ela não agüentou, perdeu um filho num dia e no outro, prenderam o outro filho. Ela sempre dizia que não ia resistir muito tempo. Mas triste ainda ela ficou quando você mandou avisar que não era pra ela te visitar na cadeia. Ela jantou, viu a novela e foi dormir. De manha quando eu fui acordar ela, ela não despertou, teve um ataque cardíaco enquanto dormia e morreu como um anjo. O medico que fez a autopsia, disse que ela morreu sem nenhum sofrimento. Agora ela esta do lado do filho e olhando por nos lá de cima. Sua mãe era uma pessoa muito boa Esaú, ela esta num bom lugar. Se cuida meu filho, toma cuidado com as pessoas ruins que estão aí dentro. Um abraço dessa sua tia que te ama muito. Beijos da sua tia Telma.” Depois Esaú tirou outra carta do bolso e releu, “ ... poxa primo, não queria nunca estar te escrevendo uma carta dessas, infelizmente estou te escrevendo pra dizer que a tia telma faleceu. Ela saiu de casa pra pagar uma conta no centro da cidade e acabou sendo atropelada por um ônibus no cruzamento da presidente Vargas com a Rio Branco. Estou te escrevendo porque sei que ela gostava muito de você. E achei que você devia saber. Um abraço cara, do seu primo Luiz Otavio.” Caramba, em seis anos de cadeia perdi as pessoas mais importantes da minha vida, minha mãe e minha tia. Então só e resta fazer uma única coisa na favela, matar o Valquir. Depois vou para algum lugar ver se continuo o resto da minha vida. Pensava Esaú.
Esaú saiu da cadeia por bom comportamento, quando as portas se abriram e ele pode ver a rua. E do outro lado da rua, o outro filho de sua tia telma o esperava num chevete cara de cachorro 77, muito bem conservado.
- trouxe o que eu te pedi?
Luiz Felipe olhou para o primo, parecia muito mais velho que os trinta anos que tinha. A cadeia mudou muito o rosto de Esaú.
- Trouxe, ta aqui comigo.
Luiz Felipe tirou uma pistola do porta luva, quatro pentes e entregou para Esaú. Ele pegou a quarenta e cinco na mão, destravou, olhou, colocou um pente e os outros três pentes ele colocou no bolso de trás das calças.
A viagem demorou cerca de quarenta minutos, terminou quando chegaram na entrada da favela.
- tu me deixa aqui. Daqui em diante eu sigo a pé.
Na favela não se falava de outra coisa. Na casa de endola, enquanto embalavam as drogas, os traficantes fofocavam.
- tão falando que o Esaú sai hoje da cadeia, será que é verdade?
- eu já ouvi dizer que ele até já saiu, ta só estudando a favela, pra ver a melhor hora de atacar.
- sou mais o Valquir neguinho, o cara ta na rua, já o outro ta na cadeia, deve ta gordo e nem conseguindo correr.
- Sei não, quando ele tava formado ele era sinistro.
Nas ruas da favela, os moradores também estavam preocupados, com medo e fofocando.
- vou pegar meus filhos na escola e vou ficar dentro de casa.
- tomara que o Esaú mate mesmo o Valquir. Ele é safado.
- Esaú vai é se foder!
Como todos estavam sabendo, sempre tinha os fofoqueiros que iam bater tudo o que acontecia na boca. Um desses fofoqueiros era o fuinha, que ficava na favela, vasculhando tudo, ouvindo nos cantos, para dar a noticia aos chefes do trafico e em troca, ganhar droga.
- Cole valquir, tão a maior fofoca na favela, tão dizendo que o Esaú vai sair da cadeia hoje só pra te catar.
- Meu “cumpadi”, ele que venha, se ele ta quente eu to fervendo. Quero terminar essa porra toda, já faz mais de seis anos que estou esperando esse momento.
Esaú saiu do carro a cerca de duzentos metros da entrada da favela. Quando chegou na favela, respirou fundo e sentiu aquele cheiro de maconha e perfume barato, que ele sempre gostou. Já fui muito feliz aqui. Pensou. Mal entrou na favela, a irmã Ângela o parou.
– meu irmão!
Ezaul olhou pra trás e não teve nenhuma reação ao vê-la.
– não faz o que você veio fazer nessa comunidade.
– irmã, nada vai me fazer mudar de idéia.
– você é um homem de deus.
– não minha irmã. Já fui um homem de deus. Hoje eu sou um enviado do demônio, vim cobrar uma divida. Eu já estou no inferno irmã e vim aqui buscar o Valquir, lá é o lugar dele.
– me dói muito ouvir isto irmão. Mais ainda há tempo de você se arrepender e pedir perdão a Jesus.
– irmã eu perdi muitas pessoas que eu amava. Hoje eu vivo por viver, como por comer, respiro por respirar. Eu to morto em vida. E irmã, vá pra casa, não quero que ninguém que eu goste se machuque, mas vou fazer o que vim aqui pra fazer.
– Jesus te ama meu irmão.
– nos brigamos irmã.
Ezaul segue seu caminho favela a dentro.
Galo entrou correndo na casa onde Valquir estava escondido.
- Cole Valquir! O Esaú esta na favela.
- porra maluco! Manda ele vir e tentar a sorte.
- Aí Valquir se você quiser a gente monta um bonde, caça ele pela favela e mata ele.
- Não galo, ele é meu, se alguém vai matar esse desgraçado vai ser eu.
Conforme vai caminhando favela a dentro e as pessoas vão vendo ele passar, Esaú pode ouvir os comentários, alguns a favor dele, outros contras. Porem nada disso interessava a ele, na sua mente só tinha um pensamento. Matar o Valquir. Esaú pula um muro e entra numa casa muito mal conservada, com o quintal muito sujo, as paredes mais ainda, sem nenhuma dificuldade ele abre uma porta e entra dentro da casa, quem ele procura, Teleco, está deitado numa cama imunda. Ao se dar conta da presença de Esaú, ele tenta fugir.
– da mais um passo que tu vai pro inferno.
Teleco para.
– o que você esta fazendo aqui na minha casa Esaú?
– quero informações e foi isso que você sempre trocou pra ganhar maconha e cocaína, e pelo visto desde o meus tempos de boca que você faz isso e continua fazendo.
– o que você quer de mim?
- onde se esconde o valquir.
– poxa seu eu soubesse disso eu te dizia.
– mais você sabe?
– sei não cara! Eu sou só um viciado
– eu vou te matar cara.
– não me mata não, eu era amigo do teu irmão.
– amigo o caralho! Meu irmão foi morto e vocês só andavam juntos, parte da divida de droga dele, era sua.
– se eu te falar eles vão me matar depois.
– melhor depois do que agora.
– eu vou te dizer, já to morto mesmo. Mata o Valquir mesmo, esse desgraçado não merece viver mesmo, teu irmão era meu braço. Ele não merecia morrer daquele jeito.
teleco começa a chorar.
- A gente era amigo sabia, eu fugi naquele dia que mataram seu irmão, fui pra casa de uma tia em Minas, só voltei a dois anos atrás, minha mãe pagou minha divida com esse maluco. Ele é safado. Vou te dizer onde ele se esconde. Mais aí mata esse filha da puta mesmo.
– se você me der a boa, não vai ter erro.
– então já é.
Esaú continua sua caminhada favela adentro. Nesse momento já não estão nas ruas muitas pessoas, pois elas sabem que uma troca de tiros entre Esaú e Valquir, vai acontecer em algum momento. Dois meninos jogam bola de gude, um deles da um teco e erra, a bola vai longe, na direção de Esaú, os meninos ao verem Esaú, param, o dono da bola, pega a bolinha perto de Esaú e os dois vão correndo para suas casas. Ele entra num boteco.
– fala aí seu Bené.
Seu Bené esta de costas, ajeitando umas garrafas. Ao se virar e ver Esaú ele se assusta.
– disseram que você ia vir aqui na favela, matar o cara que matou seu irmão. Você veio né.
– vim sim seu Bené.
Seu Bené olha para um lado, olha para o outro. E fala baixinho com Esaú.
– mata mesmo, os moradores detestam esse cara desde do dia que ele matou seu irmão na covardia. Mata ele e vira o dono dessa favela.
– já sai dessa seu Bené. Vou só matar esse desgraçado e vou seguir meu caminho.
– então meu filho, livra a gente dessa desgraça que é esse cara.
– pode deixar seu Bené. - Esaú olha para a rua. E vira-se de novo para o balcão.
Seu Bené pega um copo e uma garrafa e capricha na dose. Esaú pega o copo e bebe de uma talagada só e bota o copo vazio no balcão. Ele tira um dinheiro do bolso.
– não meu filho, essa é por conta da casa.
Esaú aperta a mão do dono do bar.
– então deixa eu ir nessa.
Esaú sai do bar. Escurece na favela. Esaú caminha mais um pouco pela favela, para debaixo de uma arvore, uma amendoeira. Ele sobe na arvore e de lá de cima vê as pessoas passando.
Na casa onde Valquir esta escondido, ele conversa com um outro bandido e tem mais outro capanga tomando conta da entrada da casa.
- chegou a hora, a noite chegou e ta na hora de bandido sair de debaixo do edredom, que o bicho vai pegar. Vou matar esse cara e ter minha moral de volta. Vocês dois vem comigo.
Os três saem da casa e vão caminhando pelas ruas da favela. Depois de cerca de meia hora de caminhada pela favela, perguntando as pessoas se elas viram Esaú e recebendo sempre um não como resposta. Deixou Valquir enfurecido.
– essa favela ta contra mim, porra eu matei aquele viciado do caralho do irmão dele, porque o cara me devia muito, a gente que é bandido tem que dar o exemplo.
– vamos chamar mais pessoas pra elas nos ajudarem a achar esse filha da puta. – Dedão tentava ajudar o patrão.
– mais gente! Vocês tão maluco, quer que eu chame os bandidos todos pra tentar achar um bundão que saiu da cadeia e disse que ia vir aqui me matar. Não! Nos mesmos vamos achar ele.
Do alto da arvore, Esaú se espreguiça a ver os três se aproximando dele. De onde esta consegue ouvir Valquir falando.
– galinha de casa não se corre atrás, vou pra minha casa e vamos ficar esperando ele, quando ele vier a gente larga o aço.
Esaú espera os três passarem pela arvore e depois pula, já com a pistola na mão, da um tiro em Dedão e outro em Juca, Valquir fica sem reação.
- é agora Valquir! – disse Esaú sem nenhuma emoção na voz.
– vai tomar no cu! Perdi! me mata logo! – gritou Valquir.
– acredita em deus? – Perguntou Esaú.
Valquir ri.
– tu acha que deus me quer no paraíso?
– não quer mesmo não.
– ta esperando o que?
– pensei que nessa hora que eu sonhei tanto acontecer nesses anos que eu fiquei na cadeia, eu ia me sentir o cara mais feliz do mundo. Eu não to sentindo nada.
– eu matei teu irmão sim, mais se você estivesse no meu lugar, como já esteve, você teria que fazer a mesma coisa.
Esaú, aponta a pistola pra valquir atira três vezes. Valquir cai morto no chão. Esaú se vira e começa a caminhar. Tira um pente do bolso de trás das calças e joga fora. Tira o pente da pistola e joga fora também. Por ultimo ele joga a pistola e vai caminhando por uma rua que o leva para fora da favela. Um senhor vem na direção dele, quando os dois vão se cruzar, o senhor tira uma faca da cintura e enfia na barriga de Esaú. Esaú olha para o homem com os olhos arregalados.
– porque?... – Esaú queria entender porque esse homem lhe dera uma facada mortal. Não queria morrer sem saber o porque.
– minha filhinha! – respondeu secamente o homem.
Esaú começa a chorar, o senhor vai embora caminhando. Esaú cambaleia e consegue se sentar na beira da calçada, com as costas encostadas no poste, ele chora. Morre sentado, encostado num poste, com a mão na barriga.
Julio Pecly
- E aí mano, ta se arrumando todo assim pra que? Pra pegar as irmãs da igreja né!
Esaú olhou para o irmão e disse bem sério:
- As mulheres da igreja não são iguais a essas mulheres do mundo não.
- no que elas são diferentes? – Jacó colocou o pão na boca e apertou o pênis. – o que uma gosta as outras também gostam.
- pelo que eu vi, você não entende nada de mulher. Vamos para o culto hoje?
- hoje não! Ainda não chegou a minha hora. Vai orando por mim, na hora certa eu vou seguir o caminho.
- Ai que mora o problema meu irmão. Agora nesse momento pode ser a tua ultima hora. Essa pode ser a ultima vez que Jesus te chama.
- que nada cara, to novo ainda, to curtindo a vida, na hora certa eu e Jesus a gente vai se entender.
- vou continuar orando por você meu irmão, do mesmo jeito que eu faço todos os dias. Deixa eu ir pro culto senão eu me atraso.
- Ora mesmo por mim Esaú.
- Eu oro, porque eu sei como esse mundo ai fora é perigoso.
Na rua Esaú cumprimentava os irmãos, não só os da sua igreja, como os de outras igrejas.
- Paz do senhor meus irmãos. – desejou ele para um grupo de cinco irmãos de uma mesma família. O pai, a mãe e os três filhos desejaram o mesmo para ele.
Quando chegou na igreja, faltavam quinze minutos para começar o culto. Ficou parado na entrada da igreja conversando com alguns irmãos. Queria saber na casa de qual irmão seria o culto de quarta a noite.
- o culto vai ser na casa do irmão Altamiro. Vai ser um culto de agradecimento, o filho dele mais novo, passou no vestibular. – respondeu o irmão Joel.
- Oh gloria, irmão! Que bênção hein! Jesus sempre operando. – Esaú ficou feliz, pois sabia do esforço do irmão Altamiro para pagar cursos para o filho.
O irmão Sávio avisou a todos que estava na hora de entrarem, pois o culto matutino dominical iria começar. Esaú sentou no seu local de costume, o quinto banco da fileira do meio. O pastor agradeceu a presença de todos e fez uma oração.
– Senhor meu deus, meu pai, criador dos céus e da terra. Que deu seu único filho para que pudéssemos ser perdoados de todos os nossos pecados. Tomai hoje a frente de nosso culto, que possamos sair daqui, sabendo que seu amor por nós é imenso. Não podendo ser medido por padrões humanos. Olhai por todos nós, perdoai nossos pecados. Ilumine nossos pensamentos e toma a frente desse culto. Isso é o que lhe pedimos, em nome de Jesus. Amem!
O pastor fez um breve resumo das atividades semanais, fez as prestações de contas referentes ao dizimo e as ofertas que foram devolvidas pelos irmãos, deu os parabéns aos aniversariantes do mês, orou novamente e pediu que todos os irmãos abrissem suas bíblias no livro do apostolo São João, no capitulo três, no versículo dezesseis. Todos leram juntos, oraram de novo. Em cima desse versículo o pastor Ebirom pautou a mensagem.
– Irmãos! Quando Jesus andou por esse mundo, acham que foi atoa? Claro que não, ele andava levando os ensinamentos dele e pra nos mostrar que devemos, andar sempre nos caminhos do senhor e pregar. Pregar para todas as criaturas. Devemos pregar em qualquer local que tivermos. Na fila do banco, no ônibus, na feira, no hospital. Nossa missão nesse mundo é levar a cura para os doentes e qual é a cura? A palavra de deus que esta aqui!
Nesse momento o pastor ergueu a bíblia e todos irmãos disseram em uníssono.
- Louvado seja a Deus! Aleluia! Aleluia!
Do lado de fora da igreja ouve-se uma seqüência de muitos tiros. O pastor da uma parada na pregação.
- Por favor irmão, fecha a porta da igreja e não se preocupem irmãos. Aqui dentro estamos debaixo da proteção de deus.
O culto continuou sem mais interrupções. Antes de terminar, o pastor fez a oração final.
– que deus nos proteja irmãos! Que cuide de nos, que nos proteja agora que vamos voltar para os
nossos lares, nos de uma boa semana. É isso que humildemente lhe peço, senhor meu deus, criador dos
céus e da terra. Em nome de Jesus. Amem!
Os irmãos abrem seus olhos e sorrindo, cumprimentaram-se. O porteiro foi até a porta, abriu e olhou para fora, vendo se havia ainda algum perigo.
- Ta tudo tranqüilo irmãos. Não esta tendo mais tiro.
Esaú conversava com a irmã Ângela, uma senhora gorda, mãe de três meninas e uma excelente cozinheira. Não era atoa que ela era bem gordinha.
- onde já se viu tiroteio em plana luz do dia.
- essa favela está uma confusão danada, irmã. Esse lugar aqui já foi muito bom. Mas eu sinto irmã, que Jesus tem uma obra pra esse local.
- Aleluia irmão! O sangue de Jesus tem poder! – enquanto falava, erguendo as mãos para o alto, seus seios fartos balançavam. – meu irmão, aparece lá em casa hoje a noite, minha prima da igreja de Madureira vai estar lá. O irmão é solteiro, ela também é solteira. Quem sabe não é ela que deus reservou pro irmão.
– irmã, eu até vou na sua casa, mas pra fazer uma visita a senhora. Não precisa a senhora ficar me apresentado seus parentes, a pessoa certa pra mim, vai chegar na hora certa. Nós temos que viver no nosso tempo e deus tem o tempo dele. Eu vou sim! Pode me aguardar, hoje eu não trabalho e a irmã sabe que eu me amarro nos seus doces. Eles são maravilhosos. Deixa eu ir, tenho que fazer uma prateleira pra minha mãe. Paz do senhor.
– paz do senhor meu irmão.
Esaú sai da igreja, a favela estava uma bagunça. Era sempre assim depois de um tiroteio. Ao falar com as pessoas, ele sentiu uma diferença no olhar delas, parecia que tinha acontecido alguma coisa. E tinha. Um pouco mais a frente de onde ele estava, havia uma aglomeração de pessoas em volta de um corpo coberto com um lençol branco. Sua tia chorava e ao vê-lo, veio em correndo em sua direção. Na mente de Esaú, ele adivinhou o que houve. A bíblia caiu da mão dele. Esaú começou a chorar. A tia tentou abraça-lo, ele se desvencilhou dela.
- Não vai me dizer que é o Jacó tia?
O silencio da tia foi a confirmação do que ele mais temia. Mataram seu irmão mais novo. Esaú se aproximou do corpo do irmão e ficou olhando.
- O trato não era esse! O trato não era esse! – gritou entre as lagrimas que desciam de seus olhos.
Esaú se abaixa e descobre o corpo do irmão. Três tiros no peito, acabaram com a vida de mais um viciado, que algum tempo atrás já tinha sido um bom filho. Durante alguns segundos, Esaú ficou abaixado, quieto, apenas olhando para o corpo sem vida do irmão. Esaú ficou de pé, e começou a andar em volta do corpo do irmão. Ele falava como se tivesse brigando com o irmão, por ele ter feito algo muito errado.
– não cara porque você não me escutou. Eu te falei que isso ia acontecer, eu te falei. E agora? E a mãe? E tua filha? E eu mano, vou chamar quem de irmão? Eu não tenho mais irmão. E a mãe e a mãe?
A mãe de Esaú, uma senhora com mais de sessenta anos, vem correndo o maximo que pode, sendo amparada por duas moças. Ela para ao lado do corpo do filho morto e apenas o observa. Não diz nada durante cerca de um minuto. Depois ela olha para Esaú e da uma ordem. Sua voz sai áspera, doída.
- vamos levar ele pra casa, filho meu não vai servir de espetáculo pra ninguém ficar olhando.
Ezaul pega o corpo do irmão e o carrega pelas ruas, sendo seguido por algumas pessoas. Esaú deposita o corpo do irmão em cima da cama da mãe e incontinente abre o armário.
- ta procurando o que meu filho?
- vou matar o Valquir mãe. A gente tinha um trato, eu estava pagando aos poucos a divida que o Jacó tinha com ele e ele furou o trato.
– Eu não quero perder dois filhos no mesmo dia.
- a senhora não vai não minha mãe.
– então não vai atrás desse cara.
– tenho que ir mãe.
– E a sua igreja.
– mãe, isso é entre eu e o Valquir. Jesus não tem nada a ver com isso.
– Não vai!
Ezaul verifica a pistola, tira o pente, coloca de novo, destrava e coloca na cintura. Sentada a mãe vê seu filho sair, nesse momento ela começa a chorar.
Na rua, Esaú não vê nada, vai caminhando decidido a procura de Valquir. Ao passar pela porta de um bar, não consegue ouvir um comentário as suas.
- coitada da mãe dele, já perdeu um filho e vai perder o outro.
Conforme vai caminhando pelas ruas da favela, todos os fofoqueiros e fofoqueiras, vão falando.
- o Valquir vai matar ele.
- vai nada maluco! Quando o Esaú era da boca, ele era o cara mais sinistro.
- ele era crente falso, uma vez traficante, sempre traficante.
- nem todo aquele que diz senhor, senhor, será salvo.
Numa esquina três caras fumam maconha, Valquir e mais dois.
– passei mesmo! Era maior vacilão, tava devendo a firma mesmo. Esse filha da puta ia morrer mesmo. Tava viciadão em craque. – Valquir falava sem nenhum ressentimento.
– tu viu o cara estrebuchou e ficou la de bigode. – disse Guga, um vapor.
GÍRIA DA FAVELA
FICOU DE BIGODE – MORTO, ESTIRADO NO CHÃO
– a vida do crime é assim, cadeia ou cemitério.
Ao dobrar a esquina, Esaú avistou Valquir e os outros dois bandidos.
De pistola em punho, surpreendeu os três.
- quero só o Valquir.
Os dois covardes saíram correndo, deixando os dois inimigos sozinhos. Os moradores que estavam por perto ao ver os dois frente a frente se esconderam, tinham medo de uma bala perdida sobrar pra eles. Se esconderam, mais de modo que pudessem assistir a tudo que estava por acontecer.
– Agora é entre nos dois. Qual era o nosso trato?
– o trato morreu irmão. Teu irmão já devia o dobro do que ele tava devendo e você não pagou nem a metade. Neguinho já tava me cobrando. Era eu, ou teu irmão, tinha que ser feito cara.
– sabe que eu vim aqui pra te matar!
– irmão! Se tu é sujeito homem, eu também sou. Ta ligado! Nem entrei nessa de bobeira não. Só que eu também vou tentar a sorte. Se é de chorar a minha mãe, que chore a tua.
Ezaul levanta a pistola e atira na direção de Valquir que se joga no chão. Ouve-se um choro de criança. Esaú olha na direção e vê uma menina caída no chão chorando. Valquir se levanta aponta a arma na direção de Esaú, só que a arma trava e o barulho chama a atenção de Esaú, que levanta e atira na direção de Valquir. Valquir corre em ziguezague e nenhum tiro pega nele. Quando Esaú retoma a razão, ele vê uma menina de uns nove anos de idade caída com uma mancha vermelha no peito. Esaú se aproxima da garota, ela não se mexe. Esaú a pega no colo e tenta correr para leva-la ao hospital e não consegue, seu corpo simplesmente não sai do lugar.
- Não! Você não vai morrer! - Gritava Esaú.
- Cala a boca caralho! Vai dormir porra! Eu quero dormir caralho!
Eram os últimos meses de Esaú na cadeia. Finalmente ele ia concluir o que não conseguira seis anos atrás. O mesmo sonho todas as noites, ele tentava levar a menina que sem querer havia baleado e não conseguia. Ele não conseguia, durante os seis anos em que permaneceu na cadeia, tinha esse sonho quase todos os dias.
Estava sentado no pátio tomando um banho de sol e pensando. Só mais três meses que vou ficar aqui nesse inferno. Do bolso tirou uma carta antiga que sua tia tinha escrito e começou a reler. “... ela não agüentou, perdeu um filho num dia e no outro, prenderam o outro filho. Ela sempre dizia que não ia resistir muito tempo. Mas triste ainda ela ficou quando você mandou avisar que não era pra ela te visitar na cadeia. Ela jantou, viu a novela e foi dormir. De manha quando eu fui acordar ela, ela não despertou, teve um ataque cardíaco enquanto dormia e morreu como um anjo. O medico que fez a autopsia, disse que ela morreu sem nenhum sofrimento. Agora ela esta do lado do filho e olhando por nos lá de cima. Sua mãe era uma pessoa muito boa Esaú, ela esta num bom lugar. Se cuida meu filho, toma cuidado com as pessoas ruins que estão aí dentro. Um abraço dessa sua tia que te ama muito. Beijos da sua tia Telma.” Depois Esaú tirou outra carta do bolso e releu, “ ... poxa primo, não queria nunca estar te escrevendo uma carta dessas, infelizmente estou te escrevendo pra dizer que a tia telma faleceu. Ela saiu de casa pra pagar uma conta no centro da cidade e acabou sendo atropelada por um ônibus no cruzamento da presidente Vargas com a Rio Branco. Estou te escrevendo porque sei que ela gostava muito de você. E achei que você devia saber. Um abraço cara, do seu primo Luiz Otavio.” Caramba, em seis anos de cadeia perdi as pessoas mais importantes da minha vida, minha mãe e minha tia. Então só e resta fazer uma única coisa na favela, matar o Valquir. Depois vou para algum lugar ver se continuo o resto da minha vida. Pensava Esaú.
Esaú saiu da cadeia por bom comportamento, quando as portas se abriram e ele pode ver a rua. E do outro lado da rua, o outro filho de sua tia telma o esperava num chevete cara de cachorro 77, muito bem conservado.
- trouxe o que eu te pedi?
Luiz Felipe olhou para o primo, parecia muito mais velho que os trinta anos que tinha. A cadeia mudou muito o rosto de Esaú.
- Trouxe, ta aqui comigo.
Luiz Felipe tirou uma pistola do porta luva, quatro pentes e entregou para Esaú. Ele pegou a quarenta e cinco na mão, destravou, olhou, colocou um pente e os outros três pentes ele colocou no bolso de trás das calças.
A viagem demorou cerca de quarenta minutos, terminou quando chegaram na entrada da favela.
- tu me deixa aqui. Daqui em diante eu sigo a pé.
Na favela não se falava de outra coisa. Na casa de endola, enquanto embalavam as drogas, os traficantes fofocavam.
- tão falando que o Esaú sai hoje da cadeia, será que é verdade?
- eu já ouvi dizer que ele até já saiu, ta só estudando a favela, pra ver a melhor hora de atacar.
- sou mais o Valquir neguinho, o cara ta na rua, já o outro ta na cadeia, deve ta gordo e nem conseguindo correr.
- Sei não, quando ele tava formado ele era sinistro.
Nas ruas da favela, os moradores também estavam preocupados, com medo e fofocando.
- vou pegar meus filhos na escola e vou ficar dentro de casa.
- tomara que o Esaú mate mesmo o Valquir. Ele é safado.
- Esaú vai é se foder!
Como todos estavam sabendo, sempre tinha os fofoqueiros que iam bater tudo o que acontecia na boca. Um desses fofoqueiros era o fuinha, que ficava na favela, vasculhando tudo, ouvindo nos cantos, para dar a noticia aos chefes do trafico e em troca, ganhar droga.
- Cole valquir, tão a maior fofoca na favela, tão dizendo que o Esaú vai sair da cadeia hoje só pra te catar.
- Meu “cumpadi”, ele que venha, se ele ta quente eu to fervendo. Quero terminar essa porra toda, já faz mais de seis anos que estou esperando esse momento.
Esaú saiu do carro a cerca de duzentos metros da entrada da favela. Quando chegou na favela, respirou fundo e sentiu aquele cheiro de maconha e perfume barato, que ele sempre gostou. Já fui muito feliz aqui. Pensou. Mal entrou na favela, a irmã Ângela o parou.
– meu irmão!
Ezaul olhou pra trás e não teve nenhuma reação ao vê-la.
– não faz o que você veio fazer nessa comunidade.
– irmã, nada vai me fazer mudar de idéia.
– você é um homem de deus.
– não minha irmã. Já fui um homem de deus. Hoje eu sou um enviado do demônio, vim cobrar uma divida. Eu já estou no inferno irmã e vim aqui buscar o Valquir, lá é o lugar dele.
– me dói muito ouvir isto irmão. Mais ainda há tempo de você se arrepender e pedir perdão a Jesus.
– irmã eu perdi muitas pessoas que eu amava. Hoje eu vivo por viver, como por comer, respiro por respirar. Eu to morto em vida. E irmã, vá pra casa, não quero que ninguém que eu goste se machuque, mas vou fazer o que vim aqui pra fazer.
– Jesus te ama meu irmão.
– nos brigamos irmã.
Ezaul segue seu caminho favela a dentro.
Galo entrou correndo na casa onde Valquir estava escondido.
- Cole Valquir! O Esaú esta na favela.
- porra maluco! Manda ele vir e tentar a sorte.
- Aí Valquir se você quiser a gente monta um bonde, caça ele pela favela e mata ele.
- Não galo, ele é meu, se alguém vai matar esse desgraçado vai ser eu.
Conforme vai caminhando favela a dentro e as pessoas vão vendo ele passar, Esaú pode ouvir os comentários, alguns a favor dele, outros contras. Porem nada disso interessava a ele, na sua mente só tinha um pensamento. Matar o Valquir. Esaú pula um muro e entra numa casa muito mal conservada, com o quintal muito sujo, as paredes mais ainda, sem nenhuma dificuldade ele abre uma porta e entra dentro da casa, quem ele procura, Teleco, está deitado numa cama imunda. Ao se dar conta da presença de Esaú, ele tenta fugir.
– da mais um passo que tu vai pro inferno.
Teleco para.
– o que você esta fazendo aqui na minha casa Esaú?
– quero informações e foi isso que você sempre trocou pra ganhar maconha e cocaína, e pelo visto desde o meus tempos de boca que você faz isso e continua fazendo.
– o que você quer de mim?
- onde se esconde o valquir.
– poxa seu eu soubesse disso eu te dizia.
– mais você sabe?
– sei não cara! Eu sou só um viciado
– eu vou te matar cara.
– não me mata não, eu era amigo do teu irmão.
– amigo o caralho! Meu irmão foi morto e vocês só andavam juntos, parte da divida de droga dele, era sua.
– se eu te falar eles vão me matar depois.
– melhor depois do que agora.
– eu vou te dizer, já to morto mesmo. Mata o Valquir mesmo, esse desgraçado não merece viver mesmo, teu irmão era meu braço. Ele não merecia morrer daquele jeito.
teleco começa a chorar.
- A gente era amigo sabia, eu fugi naquele dia que mataram seu irmão, fui pra casa de uma tia em Minas, só voltei a dois anos atrás, minha mãe pagou minha divida com esse maluco. Ele é safado. Vou te dizer onde ele se esconde. Mais aí mata esse filha da puta mesmo.
– se você me der a boa, não vai ter erro.
– então já é.
Esaú continua sua caminhada favela adentro. Nesse momento já não estão nas ruas muitas pessoas, pois elas sabem que uma troca de tiros entre Esaú e Valquir, vai acontecer em algum momento. Dois meninos jogam bola de gude, um deles da um teco e erra, a bola vai longe, na direção de Esaú, os meninos ao verem Esaú, param, o dono da bola, pega a bolinha perto de Esaú e os dois vão correndo para suas casas. Ele entra num boteco.
– fala aí seu Bené.
Seu Bené esta de costas, ajeitando umas garrafas. Ao se virar e ver Esaú ele se assusta.
– disseram que você ia vir aqui na favela, matar o cara que matou seu irmão. Você veio né.
– vim sim seu Bené.
Seu Bené olha para um lado, olha para o outro. E fala baixinho com Esaú.
– mata mesmo, os moradores detestam esse cara desde do dia que ele matou seu irmão na covardia. Mata ele e vira o dono dessa favela.
– já sai dessa seu Bené. Vou só matar esse desgraçado e vou seguir meu caminho.
– então meu filho, livra a gente dessa desgraça que é esse cara.
– pode deixar seu Bené. - Esaú olha para a rua. E vira-se de novo para o balcão.
Seu Bené pega um copo e uma garrafa e capricha na dose. Esaú pega o copo e bebe de uma talagada só e bota o copo vazio no balcão. Ele tira um dinheiro do bolso.
– não meu filho, essa é por conta da casa.
Esaú aperta a mão do dono do bar.
– então deixa eu ir nessa.
Esaú sai do bar. Escurece na favela. Esaú caminha mais um pouco pela favela, para debaixo de uma arvore, uma amendoeira. Ele sobe na arvore e de lá de cima vê as pessoas passando.
Na casa onde Valquir esta escondido, ele conversa com um outro bandido e tem mais outro capanga tomando conta da entrada da casa.
- chegou a hora, a noite chegou e ta na hora de bandido sair de debaixo do edredom, que o bicho vai pegar. Vou matar esse cara e ter minha moral de volta. Vocês dois vem comigo.
Os três saem da casa e vão caminhando pelas ruas da favela. Depois de cerca de meia hora de caminhada pela favela, perguntando as pessoas se elas viram Esaú e recebendo sempre um não como resposta. Deixou Valquir enfurecido.
– essa favela ta contra mim, porra eu matei aquele viciado do caralho do irmão dele, porque o cara me devia muito, a gente que é bandido tem que dar o exemplo.
– vamos chamar mais pessoas pra elas nos ajudarem a achar esse filha da puta. – Dedão tentava ajudar o patrão.
– mais gente! Vocês tão maluco, quer que eu chame os bandidos todos pra tentar achar um bundão que saiu da cadeia e disse que ia vir aqui me matar. Não! Nos mesmos vamos achar ele.
Do alto da arvore, Esaú se espreguiça a ver os três se aproximando dele. De onde esta consegue ouvir Valquir falando.
– galinha de casa não se corre atrás, vou pra minha casa e vamos ficar esperando ele, quando ele vier a gente larga o aço.
Esaú espera os três passarem pela arvore e depois pula, já com a pistola na mão, da um tiro em Dedão e outro em Juca, Valquir fica sem reação.
- é agora Valquir! – disse Esaú sem nenhuma emoção na voz.
– vai tomar no cu! Perdi! me mata logo! – gritou Valquir.
– acredita em deus? – Perguntou Esaú.
Valquir ri.
– tu acha que deus me quer no paraíso?
– não quer mesmo não.
– ta esperando o que?
– pensei que nessa hora que eu sonhei tanto acontecer nesses anos que eu fiquei na cadeia, eu ia me sentir o cara mais feliz do mundo. Eu não to sentindo nada.
– eu matei teu irmão sim, mais se você estivesse no meu lugar, como já esteve, você teria que fazer a mesma coisa.
Esaú, aponta a pistola pra valquir atira três vezes. Valquir cai morto no chão. Esaú se vira e começa a caminhar. Tira um pente do bolso de trás das calças e joga fora. Tira o pente da pistola e joga fora também. Por ultimo ele joga a pistola e vai caminhando por uma rua que o leva para fora da favela. Um senhor vem na direção dele, quando os dois vão se cruzar, o senhor tira uma faca da cintura e enfia na barriga de Esaú. Esaú olha para o homem com os olhos arregalados.
– porque?... – Esaú queria entender porque esse homem lhe dera uma facada mortal. Não queria morrer sem saber o porque.
– minha filhinha! – respondeu secamente o homem.
Esaú começa a chorar, o senhor vai embora caminhando. Esaú cambaleia e consegue se sentar na beira da calçada, com as costas encostadas no poste, ele chora. Morre sentado, encostado num poste, com a mão na barriga.
Julio Pecly
sábado, 22 de maio de 2010
Passeio Noturno
Cheguei em casa carregando a pasta cheia de papéis, relatórios, estudos, pesquisas, propostas, contratos. Minha mulher, jogando paciência na cama, um copo de uísque na mesa de cabeceira, disse, sem tirar os olhos das cartas, você está com um ar cansado. Os sons da casa: minha filha no quarto dela treinando impostação de voz, a música quadrifônica do quarto do meu filho. Você não vai largar essa mala?, perguntou minha mulher, tira essa roupa, bebe um uisquinho, você precisa aprender a relaxar. Fui para a biblioteca, o lugar da casa onde gostava de ficar isolado e como sempre não fiz nada. Abri o volume de pesquisas sobre a mesa, não via as letras e números, eu esperava apenas. Você não pára de trabalhar, aposto que os teus sócios não trabalham nem a metade e ganham a mesma coisa, entrou a minha mulher na sala com o copo na mão, já posso mandar servir o jantar? A copeira servia à francesa, meus filhos tinham crescido, eu e a minha mulher estávamos gordos. É aquele vinho que você gosta, ela estalou a língua com prazer. Meu filho me pediu dinheiro quando estávamos no cafezinho, minha filha me pediu dinheiro na hora do licor. Minha mulher nada pediu, nós tínhamos conta bancária conjunta.Vamos dar uma volta de carro?, convidei. Eu sabia que ela não ia, era hora da novela. Não sei que graça você acha em passear de carro todas as noites, também aquele carro custou uma fortuna, tem que ser usado, eu é que cada vez me apego menos aos bens materiais, minha mulher respondeu. Os carros dos meninos bloqueavam a porta da garagem, impedindo que eu tirasse o meu. Tirei os carros dos dois, botei na rua, tirei o meu, botei na rua, coloquei os dois carros novamente na garagem, fechei a porta, essas manobras todas me deixaram levemente irritado, mas ao ver os pára-choques salientes do meu carro, o reforço especial duplo de aço cromado, senti o coração bater apressado de euforia. Enfiei a chave na ignição, era um motor poderoso que gerava a sua força em silêncio, escondido no capô aerodinâmico. Saí, como sempre sem saber para onde ir, tinha que ser uma rua deserta, nesta cidade que tem mais gente do que moscas. Na avenida Brasil, ali não podia ser, muito movimento. Cheguei numa rua mal iluminada, cheia de árvores escuras, o lugar ideal. Homem ou mulher? Realmente não fazia grande diferença, mas não aparecia ninguém em condições, comecei a ficar tenso, isso sempre acontecia, eu até gostava, o alívio era maior. Então vi a mulher, podia ser ela, ainda que mulher fosse menos emocionante, por ser mais fácil. Ela caminhava apressadamente, carregando um embrulho de papel ordinário, coisas de padaria ou de quitanda, estava de saia e blusa, andava depressa, havia árvores na calçada, de vinte em vinte metros, um interessante problema a exigir uma grande dose de perícia. Apaguei as luzes do carro e acelerei. Ela só percebeu que eu ia para cima dela quando ouviu o som da borracha dos pneus batendo no meio-fio. Peguei a mulher acima dos joelhos, bem no meio das duas pernas, um pouco mais sobre a esquerda, um golpe perfeito, ouvi o barulho do impacto partindo os dois ossões, dei uma guinada rápida para a esquerda, passei como um foguete rente a uma das árvores e deslizei com os pneus cantando, de volta para o asfalto. Motor bom, o meu, ia de zero a cem quilômetros em nove segundos. Ainda deu para ver que o corpo todo desengonçado da mulher havia ido parar, colorido de sangue, em cima de um muro, desses baixinhos de casa de subúrbio. Examinei o carro na garagem. Corri orgulhosamente a mão de leve pelos pára-lamas, os pára-choques sem marca. Poucas pessoas, no mundo inteiro, igualavam a minha habilidade no uso daquelas máquinas. A família estava vendo televisão. Deu a sua voltinha, agora está mais calmo?, perguntou minha mulher, deitada no sofá, olhando fixamente o vídeo. Vou dormir, boa noite para todos, respondi, amanhã vou ter um dia terrível na companhia.
Rubem Fonseca
Rubem Fonseca
sexta-feira, 16 de abril de 2010
Tu Queres Sono: Despede-te dos Ruídos
Tu queres sono: despe-te dos ruídos, e
dos restos do dia, tira da tua boca
o punhal e o trânsito, sombras de
teus gritos, e roupas, choros, cordas e
também as faces que assomam sobre a
tua sonora forma de dar, e os outros corpos
que se deitam e se pisam, e as moscas
que sobrevoam o cadáver do teu pai, e a dor (não ouças)
que se prepara para carpir tua vigília, e os cantos que
esqueceram teus braços e tantos movimentos
que perdem teus silêncios, o os ventos altos
que não dormem, que te olham da janela
e em tua porta penetram como loucos
pois nada te abandona nem tu ao sono.
Ana Cristina Cesar
dos restos do dia, tira da tua boca
o punhal e o trânsito, sombras de
teus gritos, e roupas, choros, cordas e
também as faces que assomam sobre a
tua sonora forma de dar, e os outros corpos
que se deitam e se pisam, e as moscas
que sobrevoam o cadáver do teu pai, e a dor (não ouças)
que se prepara para carpir tua vigília, e os cantos que
esqueceram teus braços e tantos movimentos
que perdem teus silêncios, o os ventos altos
que não dormem, que te olham da janela
e em tua porta penetram como loucos
pois nada te abandona nem tu ao sono.
Ana Cristina Cesar
quinta-feira, 8 de abril de 2010
História passional, Hollywood, Califórnia
Preliminarmente, telegrafar-te-ei uma dúzia de rosas
Depois te levarei a comer um shop-suey
Se a tarde também for loura abriremos a capota
Teus cabelos ao vento marcarão oitenta milhas.
Dar-me-ás um beijo com batom marca indelével
E eu pegarei tua coxa rija como a madeira
Sorrirás para mim e eu porei óculos escuros
Ante o brilho de teus dois mil dentes de esmalte.
Mascaremos cada um uma caixa de goma
E iremos ao Chinese cheirando a hortelã-pimenta
A cabeça no meu ombro sonharás duas horas
Enquanto eu me divirto no teu seio de arame.
De novo no automóvel perguntarei se queres
Me dirás que tem tempo e me darás um abraço
Tua fome reclama uma salada mista
Verei teu rosto através do suco de tomate.
Te ajudarei cavalheiro com o abrigo de chinchila
Na saída constatarei tuas nylon 57
Ao andares, algo em ti range em dó sustenido
Pelo andar em que vais sei que queres dançar rumba.
Beberás vinte uísques e ficarás mais terna
Dançando sentirei tuas pernas entre as minhas
Cheirarás levemente a cachorro lavado
Possuis cem rotações de quadris por minuto.
De novo no automóvel perguntarei se queres
Me dirás que hoje não, amanhã tens filmagem
Fazes a cigarreira num clube de má fama
E há uma cena em que vendes um maço a George Raft.
Telegrafar-te-ei então uma orquídea sexuada
No escritório esperarei que tomes sal de frutas
Vem-te um súbito desejo de comida italiana
Mas queres deitar cedo, tens uma dor de cabeça!
À porta de tua casa perguntarei se queres
Me dirás que hoje não, vais ficar dodói mais tarde
De longe acenarás um adeus sutilíssimo
Ao constatares que estou com a bateria gasta.
Dia seguinte esperarei com o rádio do carro aberto
Te chamando mentalmente de galinha e outros nomes
Virás então dizer que tens comida em casa
De avental abrirei latas e enxugarei pratos.
Tua mãe perguntará se há muito que sou casado
Direi que há cinco anos e ela fica calada
Mas como somos moços, precisamos divertir-nos
Sairemos de automóvel para uma volta rápida.
No alto de uma colina perguntar-te-ei se queres
Me dirás que nada feito, estás com uma dor do lado
Nervosos meus cigarros se fumarão sozinhos
E acabo machucando os dedos na tua cinta.
Dia seguinte vens com um suéter elástico
Sapatos mocassim e meia curta vermelha
Te levo pra dançar um ligeiro jitterbug
Teus vinte deixam os meus trinta e pouco cansados.
Na saída te vem um desejo de boliche
Jogas na perfeição, flertando o moço ao lado
Dás o telefone a ele e perguntas se me importo
Finjo que não me importo e dou saída no carro.
Estás louca para tomar uma coca gelada
Debruças-te sobre mim e me mordes o pescoço
Passo de leve a mão no teu joelho ossudo
Perdido de repente numa grande piedade.
Depois pergunto se queres ir ao meu apartamento
Me matas a pergunta com um beijo apaixonado
Dou um soco na perna e aperto o acelerador
Finges-te de assustada e falas que dirijo bem.
Que é daquele perfume que eu te tinha prometido?
Compro o Chanel 5 e acrescento um bilhete gentil
"Hoje vou lhe pagar um jantar de vinte dólares
E se ela não quiser, juro que não me responsabilizo..."
Vens cheirando a lilás e com saltos, meu Deus, tão altos
Que eu fico lá embaixo e com um ar avacalhado
Dás ordens ao garçom de caviar e champanha
Depois arrotas de leve me dizendo I beg your pardon.
No carro distraído deixo a mão na tua perna
Depois vou te levando para o alto de um morro
Em cima tiro o anel, quero casar contigo
Dizes que só acedes depois do meu divórcio.
Balbucio palavras desconexas e esdrúxulas
Quero romper-te a blusa e mastigar-te a cara
Não tens medo nenhum dos meus loucos arroubos
E me destroncas o dedo com um golpe de jiu-jítsu.
Depois tiras da bolsa uma caixa de goma
E mascas furiosamente dizendo barbaridades
Que é que eu penso que és, se não tenho vergonha
De fazer tais propostas a uma moça solteira.
Balbucio uma desculpa e digo que estava pensando…
Falas que eu pense menos e me fazes um agrado
Me pedes um cigarro e riscas o fósforo com a unha
E eu fico boquiaberto diante de tanta habilidade.
Me pedes para te levar a comer uma salada
Mas de súbito me vem uma consciência estranha
Vejo-te como uma cabra pastando sobre mim
E odeio-te de ruminares assim a minha carne.
Então fico possesso, dou-te um murro na cara
Destruo-te a carótida a violentas dentadas
Ordenho-te até o sangue escorrer entre meu dedos
E te possuo assim, morta e desfigurada.
Depois arrependido choro sobre o teu corpo
E te enterro numa vala, minha pobre namorada...
Fujo mas me descobrem por um fio de cabelo
E seis meses depois morro na câmara de gás.
Vinicius de Moraes
Depois te levarei a comer um shop-suey
Se a tarde também for loura abriremos a capota
Teus cabelos ao vento marcarão oitenta milhas.
Dar-me-ás um beijo com batom marca indelével
E eu pegarei tua coxa rija como a madeira
Sorrirás para mim e eu porei óculos escuros
Ante o brilho de teus dois mil dentes de esmalte.
Mascaremos cada um uma caixa de goma
E iremos ao Chinese cheirando a hortelã-pimenta
A cabeça no meu ombro sonharás duas horas
Enquanto eu me divirto no teu seio de arame.
De novo no automóvel perguntarei se queres
Me dirás que tem tempo e me darás um abraço
Tua fome reclama uma salada mista
Verei teu rosto através do suco de tomate.
Te ajudarei cavalheiro com o abrigo de chinchila
Na saída constatarei tuas nylon 57
Ao andares, algo em ti range em dó sustenido
Pelo andar em que vais sei que queres dançar rumba.
Beberás vinte uísques e ficarás mais terna
Dançando sentirei tuas pernas entre as minhas
Cheirarás levemente a cachorro lavado
Possuis cem rotações de quadris por minuto.
De novo no automóvel perguntarei se queres
Me dirás que hoje não, amanhã tens filmagem
Fazes a cigarreira num clube de má fama
E há uma cena em que vendes um maço a George Raft.
Telegrafar-te-ei então uma orquídea sexuada
No escritório esperarei que tomes sal de frutas
Vem-te um súbito desejo de comida italiana
Mas queres deitar cedo, tens uma dor de cabeça!
À porta de tua casa perguntarei se queres
Me dirás que hoje não, vais ficar dodói mais tarde
De longe acenarás um adeus sutilíssimo
Ao constatares que estou com a bateria gasta.
Dia seguinte esperarei com o rádio do carro aberto
Te chamando mentalmente de galinha e outros nomes
Virás então dizer que tens comida em casa
De avental abrirei latas e enxugarei pratos.
Tua mãe perguntará se há muito que sou casado
Direi que há cinco anos e ela fica calada
Mas como somos moços, precisamos divertir-nos
Sairemos de automóvel para uma volta rápida.
No alto de uma colina perguntar-te-ei se queres
Me dirás que nada feito, estás com uma dor do lado
Nervosos meus cigarros se fumarão sozinhos
E acabo machucando os dedos na tua cinta.
Dia seguinte vens com um suéter elástico
Sapatos mocassim e meia curta vermelha
Te levo pra dançar um ligeiro jitterbug
Teus vinte deixam os meus trinta e pouco cansados.
Na saída te vem um desejo de boliche
Jogas na perfeição, flertando o moço ao lado
Dás o telefone a ele e perguntas se me importo
Finjo que não me importo e dou saída no carro.
Estás louca para tomar uma coca gelada
Debruças-te sobre mim e me mordes o pescoço
Passo de leve a mão no teu joelho ossudo
Perdido de repente numa grande piedade.
Depois pergunto se queres ir ao meu apartamento
Me matas a pergunta com um beijo apaixonado
Dou um soco na perna e aperto o acelerador
Finges-te de assustada e falas que dirijo bem.
Que é daquele perfume que eu te tinha prometido?
Compro o Chanel 5 e acrescento um bilhete gentil
"Hoje vou lhe pagar um jantar de vinte dólares
E se ela não quiser, juro que não me responsabilizo..."
Vens cheirando a lilás e com saltos, meu Deus, tão altos
Que eu fico lá embaixo e com um ar avacalhado
Dás ordens ao garçom de caviar e champanha
Depois arrotas de leve me dizendo I beg your pardon.
No carro distraído deixo a mão na tua perna
Depois vou te levando para o alto de um morro
Em cima tiro o anel, quero casar contigo
Dizes que só acedes depois do meu divórcio.
Balbucio palavras desconexas e esdrúxulas
Quero romper-te a blusa e mastigar-te a cara
Não tens medo nenhum dos meus loucos arroubos
E me destroncas o dedo com um golpe de jiu-jítsu.
Depois tiras da bolsa uma caixa de goma
E mascas furiosamente dizendo barbaridades
Que é que eu penso que és, se não tenho vergonha
De fazer tais propostas a uma moça solteira.
Balbucio uma desculpa e digo que estava pensando…
Falas que eu pense menos e me fazes um agrado
Me pedes um cigarro e riscas o fósforo com a unha
E eu fico boquiaberto diante de tanta habilidade.
Me pedes para te levar a comer uma salada
Mas de súbito me vem uma consciência estranha
Vejo-te como uma cabra pastando sobre mim
E odeio-te de ruminares assim a minha carne.
Então fico possesso, dou-te um murro na cara
Destruo-te a carótida a violentas dentadas
Ordenho-te até o sangue escorrer entre meu dedos
E te possuo assim, morta e desfigurada.
Depois arrependido choro sobre o teu corpo
E te enterro numa vala, minha pobre namorada...
Fujo mas me descobrem por um fio de cabelo
E seis meses depois morro na câmara de gás.
Vinicius de Moraes
quinta-feira, 1 de abril de 2010
Uma Galinha
Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque não passava de nove horas da manhã. Parecia calma. Desde sábado encolhera-se num canto da cozinha. Não olhava para ninguém, ninguém olhava para ela. Mesmo quando a escolheram, apalpando sua intimidade com indiferença, não souberam dizer se era gorda ou magra. Nunca se adivinharia nela um anseio. Foi pois uma surpresa quando a viram abrir as asas de curto vôo, inchar o peito e, em dois ou três lances, alcançar a murada do terraço. Um instante ainda vacilou — o tempo da cozinheira dar um grito — e em breve estava no terraço do vizinho, de onde, em outro vôo desajeitado, alcançou um telhado. Lá ficou em adorno deslocado, hesitando ora num, ora noutro pé. A família foi chamada com urgência e consternada viu o almoço junto de uma chaminé. O dono da casa, lembrando-se da dupla necessidade de fazer esporadicamente algum esporte e de almoçar, vestiu radiante um calção de banho e resolveu seguir o itinerário da galinha: em pulos cautelosos alcançou o telhado onde esta, hesitante e trêmula, escolhia com urgência outro rumo. A perseguição tornou-se mais intensa. De telhado a telhado foi percorrido mais de um quarteirão da rua. Pouco afeita a uma luta mais selvagem pela vida, a galinha tinha que decidir por si mesma os caminhos a tomar, sem nenhum auxílio de sua raça. O rapaz, porém, era um caçador adormecido. E por mais ínfima que fosse a presa o grito de conquista havia soado. Sozinha no mundo, sem pai nem mãe, ela corria, arfava, muda, concentrada. Às vezes, na fuga, pairava ofegante num beiral de telhado e enquanto o rapaz galgava outros com dificuldade tinha tempo de se refazer por um momento. E então parecia tão livre. Estúpida, tímida e livre. Não vitoriosa como seria um galo em fuga. Que é que havia nas suas vísceras que fazia dela um ser? A galinha é um ser. É verdade que não se pode¬ria contar com ela para nada. Nem ela própria contava consigo, como o galo crê na sua crista. Sua única vantagem é que havia tantas galinhas que morrendo uma surgiria no mesmo instante outra tão igual como se fora a mesma. Afinal, numa das vezes em que parou para gozar sua fuga, o rapaz alcançou-a. Entre gritos e penas, ela foi presa. Em seguida carregada em triunfo por uma asa através das telhas e pousada no chão da cozinha com certa violência. Ainda tonta, sacudiu-se um pouco, em cacarejos roucos e indecisos. Foi então que aconteceu. De pura afobação a galinha pôs um ovo. Surpreendida, exausta. Talvez fosse prematuro. Mas logo depois, nascida que fora para a maternidade, pare¬cia uma velha mãe habituada. Sentou-se sobre o ovo e assim ficou, respirando, abotoando e desabotoando os olhos. Seu coração, tão pequeno num prato, solevava e abaixava as penas, enchendo de tepidez aquilo que nunca passaria de um ovo. Só a menina estava perto e assistiu a tudo estarrecida. Mal porém conseguiu desvencilhar-se do acontecimento, despregou-se do chão e saiu aos gritos:
— Mamãe, mamãe, não mate mais a galinha, ela pôs um ovo! ela quer o nosso bem!
Todos correram de novo à cozinha e rodearam mudos a jovem parturiente. Esquentando seu filho, esta não era nem suave nem arisca, nem alegre, nem triste, não era nada, era uma galinha. O que não sugeria nenhum sentimento especial. O pai, a mãe e a filha olhavam já há algum tempo, sem propriamente um pensamento qualquer. Nunca ninguém acariciou uma cabeça de galinha. O pai afinal decidiu-se com certa brusquidão:
— Se você mandar matar esta galinha nunca mais comerei galinha na minha vida!
— Eu também! jurou a menina com ardor. A mãe, cansada, deu de ombros.
Inconsciente da vida que lhe fora entregue, a galinha passou a morar com a família. A menina, de volta do colégio, jogava a pasta longe sem interromper a corrida para a cozinha. O pai de vez em quando ainda se lembrava: "E dizer que a obriguei a correr naquele estado!" A galinha tornara-se a rainha da casa. Todos, menos ela, o sabiam. Continuou entre a cozinha e o terraço dos fundos, usando suas duas capacidades: a de apatia e a do sobressalto.
Mas quando todos estavam quietos na casa e pareciam tê-la esquecido, enchia-se de uma pequena coragem, resquícios da grande fuga — e circulava pelo ladrilho, o corpo avançando atrás da cabeça, pausado como num campo, embora a pequena cabeça a traísse: mexendo-se rápida e vibrátil, com o velho susto de sua espécie já mecanizado.
Uma vez ou outra, sempre mais raramente, lembrava de novo a galinha que se recortara contra o ar à beira do telhado, prestes a anunciar. Nesses momentos enchia os pulmões com o ar impuro da cozinha e, se fosse dado às fêmeas cantar, ela não cantaria mas ficaria muito mais contente. Embora nem nesses instantes a expressão de sua vazia cabeça se alterasse. Na fuga, no descanso, quando deu à luz ou bicando milho — era uma cabeça de galinha, a mesma que fora desenhada no começo dos séculos.
Até que um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se anos.
Clarice Lispector
— Mamãe, mamãe, não mate mais a galinha, ela pôs um ovo! ela quer o nosso bem!
Todos correram de novo à cozinha e rodearam mudos a jovem parturiente. Esquentando seu filho, esta não era nem suave nem arisca, nem alegre, nem triste, não era nada, era uma galinha. O que não sugeria nenhum sentimento especial. O pai, a mãe e a filha olhavam já há algum tempo, sem propriamente um pensamento qualquer. Nunca ninguém acariciou uma cabeça de galinha. O pai afinal decidiu-se com certa brusquidão:
— Se você mandar matar esta galinha nunca mais comerei galinha na minha vida!
— Eu também! jurou a menina com ardor. A mãe, cansada, deu de ombros.
Inconsciente da vida que lhe fora entregue, a galinha passou a morar com a família. A menina, de volta do colégio, jogava a pasta longe sem interromper a corrida para a cozinha. O pai de vez em quando ainda se lembrava: "E dizer que a obriguei a correr naquele estado!" A galinha tornara-se a rainha da casa. Todos, menos ela, o sabiam. Continuou entre a cozinha e o terraço dos fundos, usando suas duas capacidades: a de apatia e a do sobressalto.
Mas quando todos estavam quietos na casa e pareciam tê-la esquecido, enchia-se de uma pequena coragem, resquícios da grande fuga — e circulava pelo ladrilho, o corpo avançando atrás da cabeça, pausado como num campo, embora a pequena cabeça a traísse: mexendo-se rápida e vibrátil, com o velho susto de sua espécie já mecanizado.
Uma vez ou outra, sempre mais raramente, lembrava de novo a galinha que se recortara contra o ar à beira do telhado, prestes a anunciar. Nesses momentos enchia os pulmões com o ar impuro da cozinha e, se fosse dado às fêmeas cantar, ela não cantaria mas ficaria muito mais contente. Embora nem nesses instantes a expressão de sua vazia cabeça se alterasse. Na fuga, no descanso, quando deu à luz ou bicando milho — era uma cabeça de galinha, a mesma que fora desenhada no começo dos séculos.
Até que um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se anos.
Clarice Lispector
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