O Rei fartou-se de reinar sozinho e decidiu partilhar o poder com a Opinião Pública.
- Chamem a Opinião Pública ? ordenou aos serviçais.
Eles percorreram as praças da cidade e não a encontraram. Havia muito que a Opinião Pública deixara de freqüentar lugares públicos. Recolhera-se ao Beco sem Saída, onde, furtivamente, abria só um olho, isso mesmo lá de vez em quando.
Descoberta, afinal, depois de muitas buscas, ela consentiu em comparecer ao Palácio Real, onde Sua Majestade, acariciando-lhe docemente o queixo, lhe disse:
- Preciso de ti.
A Opinião, muda como entrara, muda se conservou. Perdera o uso da palavra ou preferia não exercitá-lo. O Rei insistia, oferecendo-lhe sequilhos e perguntando o que ela pensava disso e daquilo, se acreditava em discos voadores, horóscopos, correção monetária, essas coisas. E outras. A Opinião Pública abanava a cabeça: não tinha opinião.
- Vou te obrigar a ter opinião ? disse o Rei, zangado. ? Meus especialistas te dirão o que deves pensar e manifestar. Não posso mais reinar sem o teu concurso. Instruída devidamente sobre todas as matérias, e tendo assimilado o que é preciso achar sobre cada uma em particular e sobre a problemática geral, tu me serás indispensável.
E virando-se para os serviçais:
- Levem esta senhora para o Curso Intensivo de Conceitos Oficiais. E que ela só volte aqui depois de decorar bem as apostilas.
Carlos Drumond de Andrade
sexta-feira, 24 de junho de 2011
quarta-feira, 25 de maio de 2011
POEMA DOS OLHOS DA AMADA
Ó minha amada
Que olhos os teus
São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe dos breus...
Ó minha amada
Que olhos os teus
Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus...
Ó minha amada
Que olhos os teus
Se Deus houvera
Fizera-os Deus
Pois não os fizera
Quem não soubera
Que há muitas era
Nos olhos teus.
Ah, minha amada
De olhos ateus
Cria a esperança
Nos olhos meus
De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus.
Vinícius de Moraes
Que olhos os teus
São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe dos breus...
Ó minha amada
Que olhos os teus
Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus...
Ó minha amada
Que olhos os teus
Se Deus houvera
Fizera-os Deus
Pois não os fizera
Quem não soubera
Que há muitas era
Nos olhos teus.
Ah, minha amada
De olhos ateus
Cria a esperança
Nos olhos meus
De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus.
Vinícius de Moraes
sábado, 14 de maio de 2011
Ondulações no mar de Dirac
A morte se avizinha como uma enorme vaga, deslizando em minha direção com lenta e inexorável majestade. Tento fugir, mesmo sabendo que é inútil.
Parto, e minhas ondulações divergem para o infinito, como ondas apagando as pegadas de viajantes esquecidos.
No dia em que primeiro testamos minha máquina, tomamos muito cuidado para evitar qualquer paradoxo. Fizemos uma cruz de fita isolante no chão de concreto de um laboratório sem janelas, colocamos um relógio despertador nessa marca e trancamos a porta. Uma hora depois retornamos, retiramos o relógio e colocamos a máquina experimental na sala com uma câmara super-8 apoiada nas bobinas. Apontei a câmara para a marca e um dos meus alunos de pós-graduação programou a máquina para enviar a câmara de volta meia hora, permanecer no passado por cinco minutos e depois retornar. Ela partiu e retornou em um piscar de olhos. Quando revelamos o filme, a hora no relógio era meia hora antes de enviarmos a câmara. Havíamos conseguido abrir a porta para o passado. Celebramos com café e champanha.
Agora que sei muito mais sobre o tempo, compreendo nosso erro. Não havíamos pensado em colocar uma câmara na sala com o relógio para fotografar a máquina quando ela chegasse do futuro. Mas o que era óbvio para mim agora não era óbvio então.
Chego, e as ondulações convergem para o instante agora da vastidão do mar infinito.
Para São Francisco, 8 de junho de 1965. Uma brisa quente acaricia a grama cheia de dentes-de-leão, enquanto nuvens brancas e fofas compõem formas estranhas e maravilhosas para nosso entretenimento. Mesmo assim, muito poucas pessoas param para apreciar. Elas correm para cá e para lá, com ar preocupado, acreditando que se parecerem bastante ocupadas, acabarão ficando importantes.
— Eles têm tanta pressa! — observo. Por que não podem parar um pouco, relaxar, curtir o dia?
— Estão presos na ilusão do tempo — responde o Dançarino.
Ele está deitado de costas, soprando uma bolha de sabão, os longos cabelos castanhos tocando-lhe os ombros, numa época em que qualquer cabelo abaixo da orelha seria considerado comprido. Um sopro de brisa carrega a bolha colina abaixo até o vaivém de pedestres. Todos, sem exceção, a ignoram.
— Estão presos à crença de que o que fazem é importante para algum objetivo futuro.
A bolha estoura em uma maleta e o Dançarino sopra outra.
— Você e eu, nós sabemos que isso é uma ilusão. Não existe passado, não existe futuro, apenas o agora, eterno.
Ele estava certo, mais certo do que jamais poderia imaginar. Antigamente, eu também me preocupava e me achava importante. Antigamente, eu era brilhante e ambicioso. Tinha vinte e oito anos e havia feito a maior descoberta do mundo.
Do meu esconderijo eu o vi sair do elevador de serviço. Era magro, quase esquelético, um homem nervoso de cabelos louros e oleosos, que usava uma camiseta branca sem mangas. Olhou para os dois lados do saguão, mas não me viu escondido no depósito de material de limpeza. Estava carregando uma lata de dez litros de gasolina debaixo de cada braço e mais outras duas, uma em cada mão. Colocou três delas no chão e virou a última de cabeça para baixo; depois, atravessou o saguão, espalhando um longo rastro de gasolina. Seu rosto não tinha expressão. Quando começou a esvaziar a segunda lata, achei que já era o bastante. Saí do meu esconderijo, dei-lhe uma pancada na cabeça com uma chave inglesa e chamei a segurança do hotel. Depois, voltei ao depósito e deixei as ondulações do tempo convergirem.
Cheguei a um quarto em chamas, que ardiam bem perto de mim, o calor quase insuportável. Tentei respirar (um grande erro) e apressadamente apertei algumas teclas.
NOTAS SOBRE A TEORIA E A PRÁTICA DAS VIAGENS NO TEMPO:
1) Só é possível viajar para o passado.
2) O objeto transportado retornará exatamente ao tempo e local de partida.
3) Não é possível transportar objetos do passado para o presente.
4) Ações no passado não podem mudar o presente.
Uma vez, tentei retroceder um milhão de anos, ao Cretáceo, para ver os dinossauros. Todos os livros ilustrados sobre o assunto mostram paisagens cheias de dinossauros. Tive que passar três dias vagando por um pântano (com meu terno novo de tweed) para conseguir, se bem que só de relance, dar uma olhada em um dinossauro que não era maior que um cão bassé. O danadinho (um terópode qualquer, não sei exatamente) fugiu rapidamente ao pressentir minha presença. Que decepção!
Meu professor de Matemática Transfinita costumava contar histórias sobre um hotel com um número infinito de quartos. Certo dia todos os quartos estão cheios e chega mais um hóspede. "Não tem problema", diz o gerente do hotel. Ele muda o hóspede do quarto um para o dois, do dois para o três e assim por diante. Pronto! Um quarto vago.
Pouco depois, chega um número infinito de hóspedes. "Não tem problema", repete o inabalável gerente. Muda o hóspede do quarto um para o dois, o do dois para o quatro, o do três para o seis e pronto! Um número infinito de quartos vagos.
É exatamente de acordo com esse princípio que funciona minha máquina do tempo.
Mais uma vez retorno a 1965, o ponto fixo, o atrator estranho de minha trajetória caótica. Em anos de peregrinação conheci uma infinidade de pessoas, mas Daniel Ranien — o Dançarino — foi o único com a cabeça no lugar. Tinha um sorriso fácil e gostoso, uma velha guitarra de segunda mão e uma sabedoria que levei cem vidas para igualar. Conheci-o em bons e maus momentos, em dias de verão com um céu azul que, seríamos capazes de jurar, durariam mil anos, em dias de em que a neve se acumulava em grandes montes. Em tempos mais felizes, colocamos rosas em canos de rifles, nos deitamos nas ruas da cidade no meio de tumultos, e não nos machucamos. Eu estava com ele quando morreu, uma, duas, cem vezes.
O Dançarino morreu em 8 de fevereiro de 1969, depois de um mês de reinado de Richard, o Embusteiro, e seu bobo da corte Spiro, um ano antes de Kent State, Altamont e a guerra secreta no Camboja estrangularem lentamente o verão de sonhos. Morreu, e não havia — não há — nada que eu pudesse — que possa — fazer. A última vez que morreu, arrastei-o a um hospital, onde gritei e discuti até convencê-los a admiti-lo para exames, embora não parecesse ter nada de errado. Com o auxílio de radiografias, arteriogramas e contrastes radioativos, descobriram afinal o aneurisma incipiente que tinha no cérebro. Eles o anestesiaram, rasparam seus belos e longos cabelos castanhos e o operaram, removendo o capilar afetado e costurando as pontas com destreza. Quando a anestesia passou, fiquei sentado ao lado dele no quarto do hospital, segurando-lhe a mão. Seus olhos estavam com olheiras enormes. Agarrou minha mão e ficou olhando, quieto, para o vazio. Quando terminou a hora das visitas, não deixei que me pusessem para fora do quarto. Ele não disse mais nada. Pouco antes do amanhecer, quando o dia já estava clareando, suspirou baixinho e morreu. Não havia absolutamente nada que eu pudesse fazer.
As viagens no tempo estão sujeitas a duas restrições: a energia deve ser conservada e a causalidade, respeitada. A energia necessária para aparecer no passado é apenas tomada emprestada do mar de Dirac; como as ondulações desse mar se propagam no sentido negativo do eixo dos "t", o transporte só pode ser feito para o passado. A energia é conservada no presente, contanto que o objeto transportado retorne no mesmo instante em que partiu. Para que a causalidade seja respeitada, nada que o objeto transportado fizer no passado pode afetar o presente. Por exemplo: que aconteceria se você viajasse ao passado e matasse seu pai? Quem inventaria a máquina do tempo?
Uma vez, tentei suicidar-me assassinando meu pai antes que conhecesse minha mãe, vinte e três anos antes de meu nascimento. Nada mudou, é claro, e mesmo enquanto eu estava fazendo isso sabia que nada iria mudar. Mas a gente tem que tentar assim mesmo. Se não tentar, como vai ter certeza?
Na vez seguinte, experimentamos mandar um rato para o passado. Ele viajou no mar de Dirac e voltou sem problemas. Depois usamos um rato treinado, que havíamos pedido emprestado ao laboratório de psicologia sem explicar nossos motivos. Antes da pequena viagem, tinha sido ensinado a percorrer um labirinto para pegar um pedaço de bacon. Depois da experiência, chegou ao final do labirinto com a mesma facilidade.
Ainda precisávamos tentar com um ser humano. Ofereci-me como voluntário e não permiti que ninguém me dissuadisse. Experimentando em mim mesmo, podia contornar os regulamentos da Universidade a respeito de cobaias humanas.
O mergulho no mar de energia negativa não me causou nenhuma impressão especial. Em um momento, estava no centro do anel de bobinas de Renselz, observado por um técnico e meus dois alunos de pós-graduação; no momento seguinte, estava sozinho e o relógio havia recuado exatamente uma hora. Sozinho em uma sala trancada, com apenas uma câmara e um relógio por companhia, vivia naquele momento o ponto mais alto de minha vida.
O momento em que conheci o Dançarino foi o ponto mais baixo. Eu estava em Berkeley, em um bar chamado Trishia 's, embebedando-me devagar. Era o que mais fazia na ocasião, encurralado como me sentia entre a onipotência e o desespero. O ano era 1967. Frisco, naquela época (o auge da era dos hippies parecia apropriado, por alguma razão).
Havia uma garota sentada em uma mesa com um grupo da universidade. Fui até lá e me convidei a sentar. Contei-lhe que não existia, que nada no mundo existia, que tudo era criado pelo fato de que eu estava olhando e desapareceria no mar da irrealidade no momento em que eu parasse de olhar. Chamava-se Lisa, e tentou discutir comigo. Os amigos, entediados, foram embora. Pouco depois, Lisa percebeu que eu estava bêbado. Jogou uma nota na mesa e saiu para a noite nevoenta.
Eu a segui. Quando viu que eu a estava seguindo, segurou a bolsa com mais força e saiu correndo.
De repente, ele estava lá, debaixo de um poste de luz. Por um segundo, pensei que fosse uma garota. Tinha olhos azuis e cabelos castanhos que chegavam até os ombros. Vestia uma camisa índia bordada, tinha um medalhão azul e prata no pescoço e carregava nas costas um violão. Era magro, quase um fiapo, e tinha os movimentos de um dançarino ou um mestre de caratê. Mas não me ocorreu sentir medo dele.
Olhou-me dos pés à cabeça e disse:
— Isso não vai resolver o seu problema, você sabe.
Senti vergonha de mim mesmo. Não sabia mais ao certo o que tinha em mente ou por que havia seguido a garota. Fazia anos que fugira da morte pela primeira vez e já começava a pensar os outros como se fossem irreais, pois nada que fizesse poderia afetá-los de forma permanente. Sentia a cabeça girar. Apoiei-me na parede e escorreguei até o chão, onde me sentei. Até que ponto havia chegado!
Ele me levou de volta para o bar, ofereceu-me um suco de laranja com biscoitos e me fez falar. Contei-lhe tudo. Por que não, já que eu poderia desdizer tudo que dissesse, desfazer tudo que fizesse? Mas eu não tinha pressa. Ele escutou tudo, sem dizer nada. Ninguém havia escutado antes a história completa. Não sei explicar o efeito que aquilo teve sobre mim. Passar tantos anos sozinho e depois, ainda que apenas por um momento... aquilo me atingiu com a intensidade de uma dose de LSD. Ainda que apenas por um momento, não estava mais sozinho.
Saímos de braços dados. Meio quarteirão adiante, o Dançarino parou, na entrada de um beco. Estava escuro.
— Há alguma coisa errada ali — disse, em tom preocupado.
Segurei-o.
— Espere. Você não vai querer entrar aí...
Ele se desvencilhou e entrou no beco. Depois de um momento de hesitação, fui atrás.
O beco cheirava a cerveja choca, misturada com lixo e vômito. Meus olhos logo se acostumaram à escuridão.
Lisa estava encolhida em um canto, atrás de latas de lixo. As roupas dela tinham sido cortadas com uma faca e estavam espalhadas pelo chão. Tinha manchas de sangue nas coxas e em um dos braços. Não parecia nos ver. O Dançarino se agachou ao lado dela e disse alguma coisa baixinho. Ela não respondeu. Ele tirou a camisa e a enrolou na moça. Depois, tomou-a nos braços e levantou-a.
— Ajude-me a levá-la para o meu apartamento.
— Apartamento uma ova! É melhor chamarmos a polícia! — disse eu.
— Chamar os porcos? Está maluco? Quer que eles a estuprem também?
Eu tinha me esquecido de que aqueles eram os anos sessenta. Carregamos a moça até o fusca do Dançarino e fomos ao apartamento dele, na Hashbury. No caminho, ele me explicou em voz baixa o que havia acontecido, um lado negro do verão do amor que eu não conhecia, Tinham sido os greasers, afirmou. Eles apareciam em Berkeley porque ouviam dizer que as garotas hippies davam para qualquer um de graça, e ficavam zangados quando encontravam alguma que pensava diferente.
Os ferimentos de Lisa eram quase todos superficiais. O Dançarino lavou a moça, colocou-a na cama e ficou a noite inteira a seu lado, falando, cantarolando e tentando acalmá-la. Dormi em um dos colchões da sala. De manhã, quando acordei, os dois estavam juntos na cama. Lisa dormia tranqüilamente. O Dançarino estava acordado, abraçando-a. Eu estava consciente o bastante para perceber que aquilo era tudo que estava fazendo, abraçá-la, mas mesmo assim senti ciúme, e não sabia bem de qual dos dois.
NOTAS PARA UMA PALESTRA SOBRE VIAGENS NO TEMPO
O início do século XX foi uma época de gigantes do intelecto que talvez jamais venha a ser igualada. Einstein tinha acabado de inventar a teoria a relatividade e Heisenberg e Schrodinger a mecânica quântica, mas ninguém ainda sabia como compatibilizar as duas teorias. Em 1930, outra pessoa abordou o problema. Chamava-se Paul Dirac. Tinha vinte e oito nos de idade. Teve êxito onde os outros haviam falhado.
A teoria de Dirac foi de um sucesso sem precedentes, exceto por um pequeno detalhe. De acordo com a teoria, a energia de uma partícula podia ser positiva ou negativa. Que significava uma partícula com energia negativa? Como alguma coisa podia ter energia negativa? E por que as partículas comuns, de energia positiva, não caíam nesses estados de energia negativa, liberando uma grande energia no processo?
Você e eu poderíamos simplesmente ter postulado que era impossível uma partícula de energia positiva sofrer uma transição para um estado de energia negativa. Entretanto, Dirac não era um homem comum. Era um gênio, o maior físico de sua geração, e tinha uma resposta. Se todos os estados possíveis de energia negativa já estivessem ocupados, uma partícula não poderia cair para um estado de energia negativa. Ahá! Assim, Dirac postulou que o universo inteiro está totalmente preenchido por partículas de energia negativa. Elas nos cercam, nos permeiam, no vácuo do espaço sideral, no centro da Terra, em todos os lugares onde uma partícula pode estar. Um "mar" infinitamente denso de partículas de energia negativa, mar de Dirac.
A teoria de Dirac tinha falhas, mas isso fica para depois.
Uma vez, fui assistir à crucificação. Peguei um jato de Santa Cruz a Tel Aviv e um ônibus de Tel Aviv a Jerusalém. Chegando a uma colina perto da cidade, mergulhei no mar de Dirac.
Estava usando meu terno com colete. Não havia como evitar isso, a não ser que quisesse viajar despido. A terra era surpreendentemente verde e fértil, muito mais do que eu esperava. A colina agora fazia parte de uma fazenda; estava coberta de videiras e oliveiras. Escondi as bobinas atrás de umas pedras e desci até a estrada. Não fui muito longe. Depois de andar uns cinco minutos, cruzei com um grupo de pessoas. Tinham cabelos pretos, eram morenos e usavam túnicas brancas, muito limpas. Seriam romanos? Judeus? Egípcios? Como poderia saber? Falaram comigo, mas não compreendi uma palavra. Depois, dois deles me agarraram, enquanto um terceiro me revistava. Seriam ladrões atrás de dinheiro? Romanos, em busca de algum documento de identidade? Dei-me conta de quão ingênuo havia sido em pensar que poderia arranjar roupas adequadas e me misturar à multidão. Não encontrando nada, o que havia me revistado me deu uma surra e derrubou-me no chão. Enquanto os outros dois me seguravam, sacou uma adaga e cortou os tendões das minhas pernas. Tive a impressão de que estavam sendo misericordiosos, poupando-me a vida. Foram embora rindo e conversando alguma coisa incompreensível.
Minhas pernas não serviam mais para nada. Estava com um braço quebrado. Levei quatro horas para me arrastar de volta à colina, usando o braço bom. As pessoas que passavam faziam questão de me ignorar. Quando cheguei ao esconderijo, precisei de toda a minha força de vontade para apanhar as bobinas de Renselz e enrolá-las no corpo. No momento em que digitei no teclado a combinação de retorno, estava quase inconsciente. Afinal, consegui completar a combinação. As ondas do mar de Dirac convergiram
e eu estava no meu quarto de hotel em Santa Cruz. O teto tinha começado a cair no lugar onde as vigas haviam queimado. Alarmes contra incêndio estavam tocando, mas eu não tinha para onde correr. O quarto estava cheio de fumaça, acre e densa. Tentando não respirar, digitei um código no teclado, para qualquer tempo, para qualquer lugar que não fosse aquele inferno
e eu estava no mesmo quarto de hotel, cinco dias antes. Respirei fundo. A mulher na cama gritou e tentou se cobrir. O homem que estava trepando com ela estava muito ocupado para se importar. De qualquer modo, eles não eram reais. Ignorei-os e escolhi com um pouco mais de cuidado o lugar para onde iria em seguida. De volta a 65, pensei. Digitei a combinação
e estava de pé em um quarto vazio no trigésimo andar de um hotel em construção. Uma lua cheia banhava as silhuetas dos guindastes silenciosos. Experimentei flexionar as pernas. A lembrança da dor estava começando a desaparecer. Era compreensível, pois aquilo nunca havia acontecido. Viajar no tempo. Não é a imortalidade, mas está bem perto.
É impossível mudar o passado, por mais que se tente.
De manhã, explorei o apartamento do Dançarino. Era louquíssimo, um apartamentozinho de terceiro andar a um quarteirão da Haight-Ashbury que havia sido convertido em uma coisa de outro planeta. O chão estava todo coberto de colchões velhos; em cima deles, uma confusão de colchas, travesseiros, cobertores indígenas, animais empalhados. Você tinha que tirar os sapatos antes de entrar; o Dançarino sempre usava sandálias mexicanas de couro, com sola de pneu. Os radiadores de calor, que não funcionavam, tinham sido pintados com tinta fosforescente. As paredes estavam cobertas de cartazes: gravuras de Peter Max, desenhos de Eschers em cores berrantes, poemas de Allen Ginsberg, capas de discos, posters de movimentos pacifistas, um letreiro que dizia "Haight is Love", avisos dos dez mais procurados pelo FBI, arrancados de alguma agência dos Correios, com as fotos de famosos ativistas contra a guerra circuladas com pincel atômico e um enorme símbolo da paz cor-de-rosa. Alguns dos cartazes estavam iluminados com luz negra e brilhavam com cores impossíveis. O ar estava pesado de incenso e do cheiro de palha queimada da maconha. Em um canto, um toca-discos tocava "Sergeant Pepper's Lonely Hearts Club Band" interminavelmente. Quando uma cópia do disco ficava muito arranhada, um dos amigos do Dançarino lhe dava outra de presente.
Ele jamais trancava a porta. ("Se alguém estiver a fim de me roubar, tudo bem, provavelmente está mais necessitado do que eu, não é? Tá limpo".) As pessoas apareciam lá a qualquer hora do dia ou da noite.
Deixei o cabelo crescer. O Dançarino, Lisa e eu passamos aquele verão juntos, rindo, tocando violão, fazendo amor, escrevendo poemas idiotas e canções mais idiotas ainda, experimentando drogas. Era a época em que o LSD estava no auge, em que as pessoas ainda não temiam o mundo estranho e lindo que fica do outro lado da realidade. Era uma época em que valia a pena viver. Sabia que era o Dançarino que Lisa amava realmente, e não eu, mas naquele tempo o amor livre estava no ar como o perfume das papoulas, de modo que não tinha importância. Pelo menos, não muito.
NOTAS PARA UMA PALESTRA SOBRE VIAGENS NO TEMPO (continuação)
Depois de postular que todo o espaço estava preenchido por um mar infinitamente denso de partículas de energia negativa, Dirac foi mais além e se perguntou se nós, no universo de energia positiva, poderíamos interagir com esse mar de energia negativa. Que aconteceria, digamos, se você fornecesse energia suficiente a um elétron para retirá-lo do mar de energia negativa? Duas coisas: primeiro, você criaria um elétron aparentemente do nada. Segundo, você deixaria um "buraco" no mar. O buraco, percebeu Dirac, se comportaria como se fosse uma partícula, uma partícula exatamente igual a um elétron, exceto por um detalhe: teria a carga oposta. Mas se o buraco um dia encontrasse um elétron, este cairia de volta no mar de Dirac e tanto o elétron como o buraco desapareceriam em uma grande explosão. O buraco do mar de Dirac foi batizado com o nome de pósitron. Dois anos depois, quando Anderson descobriu o pósitron e confirmou a teoria de Dirac, foi quase um anticlímax.
Durante os cinqüenta anos seguintes, a realidade do mar de Dirac foi quase ignorada pelos físicos. A antimatéria, os buracos do mar, era a parte importante da teoria; o resto não passava de um artifício matemático.
Setenta anos depois, lembrei-me da história que o professor de matemática transfinita me havia contado e combinei-a com a teoria de Dirac. Da mesma forma como seria possível alojar um hóspede a mais em um hotel com um número infinito de quartos, descobri que poderia pedir energia emprestada ao mar de Dirac. Para dizer a mesma coisa de outra forma: aprendi a fazer ondas.
As ondas do mar de Dirac viajam para trás no tempo.
Depois de minha curta expedição, decidimos tentar algo mais ambicioso: mandar alguém para o passado remoto e recolher provas da viagem. Ainda estávamos com medo de modificar o passado, embora os matemáticos assegurassem que o presente não podia ser alterado.
Colocamos filme na câmara e escolhemos cuidadosamente nosso destino.
Em setembro de 1853, um viajante chamado William Hapland e sua família atravessaram a Serra Nevada para chegar à costa da Califórnia. A filha Sarah registrou em um diário que, ao chegarem ao pico de Parker, avistou pela primeira vez o Oceano Pacífico, no exato instante em que o sol tocava o horizonte, "em uma chama de rubra glória". O diário existe até hoje. Não foi difícil nos escondermos com a câmara atrás de umas rochas e filmar a passagem da carroça puxada por bois que conduzia os cansados viajantes.
Nosso segundo alvo foi o grande terremoto de São Francisco, em 1906. De um armazém abandonado que sobreviveria ao tremor (mas não ao incêndio que se seguiu), observamos e filmamos os edifícios desabando e os bombeiros lutando em vão para apagar as centenas de focos. Voltamos ao presente momento antes de o fogo chegar ao armazém.
Os filmes ficaram sensacionais.
Estávamos prontos para contar ao mundo.
Dali a um mês, haveria uma reunião da Sociedade Americana para o Progresso da Ciência, em Santa Cruz. Liguei para o coordenador e consegui que encaixasse no programa uma palestra para mim, como cientista convidado, sem revelar o que havíamos conseguido. Pretendia mostrar os filmes durante a palestra. Eles nos tornariam instantaneamente famosos.
No dia em que o Dançarino morreu, demos uma festa de despedida, apenas Lisa, ele e eu. O Dançarino sabia que estava para morrer; eu tinha contado a ele e ele havia acreditado, não sei bem por quê. A verdade é que sempre acreditava no que eu dizia. Ficamos a noite inteira acordados, tocando o bandolim de segunda mão do Dançarino, pintando nossos corpos com desenhos psicodélicos, jogando Monopólio, fazendo uma centena de coisas tolas e simples cujo único sentido era o fato de que seria a última vez. Por volta das quatro da manhã, quando começava a clarear, fomos até a baía e, nos abraçando para nos aquecermos, começamos uma viagem. O Dançarino tomou uma dose maior, porque ele não iria mesmo voltar. A última coisa que disse foi que não deixássemos nossos sonhos morrerem; ele queria que continuássemos juntos.
Enterramos o Dançarino, por conta da prefeitura, em uma cova de indigente. Eu e Lisa nos separamos três dias depois.
Continuei a manter um contato superficial com Lisa. No final dos anos setenta, ela voltou à universidade, primeiro para um curso de administração de empresas, depois para estudar Direito. Acho que passou algum tempo casada. Todo ano trocávamos cartões de Natal, até que perdi sua pista. Anos mais tarde, recebi uma carta de Lisa. Dizia que finalmente tinha conseguido me perdoar por ter causado a morte de Dan.
Era um dia frio e nevoento de fevereiro, mas eu sabia que podia encontrar calor em 1965. As ondas convergiram.
Perguntas que eu esperava da platéia:
P (professor velho e pretensioso): Parece-me que esse salto temporal que você propõe viola a lei de conservação de massa/energia. Por exemplo: quando um objeto é transportado para o passado, uma certa massa parece desaparecer do presente, em uma clara violação da lei de conservação.
R (eu): Como o retorno ocorre no momento exato da partida, a massa permanece constante.
P: Muito bem, mas que me diz da chegada no passado? Ela não viola a lei de conservação?
R: Não. A energia necessária é extraída do mar de Dirac, pelo mecanismo que explico em detalhes no meu artigo para o Physical Review. Quando o objeto retorna ao "futuro", essa energia é devolvida ao mar.
P (jovem físico, em tom interessado): O princípio de incerteza de Heisenberg não limita o tempo que se pode ficar no passado?
R: Boa pergunta. A resposta é sim, mas como tomamos emprestada uma quantidade infinitesimal de energia de um número infinito de partículas, o tempo gasto no passado pode ser arbitrariamente longo. A única limitação é que você deve deixar o passado um instante antes de partir do presente.
Dali a meia hora, iria apresentar o trabalho que colocaria meu nome ao lado do de Newton, Galileu... e Dirac. Eu tinha vinte e dois anos, a mesma idade em que Dirac anunciou sua teoria. Eu era um incendiado, pronto para atear fogo ao mundo. Estava nervoso, ensaiando a palestra no meu quarto de hotel. Tomei um gole de uma garrafa de Coca-Cola que um dos meus alunos tinha deixado em cima da televisão. Os locutores do jornal da noite não paravam de falar, mas eu não estava prestando atenção.
Jamais dei aquela palestra. O hotel já havia começado a pegar fogo; minha morte já tinha sido decretada. Depois de colocar a gravata, dei uma última olhada no espelho e encaminhei-me para a porta. A maçaneta estava quente. Abri a porta e deparei com uma muralha de fogo. As chamas invadiram meu quarto como um dragão furioso. Cambaleei para trás, olhando fascinado para elas.
Em algum lugar do hotel, alguém gritou, fazendo-me voltar à realidade. Estava no trigésimo andar; não havia saída. Lembrei-me da máquina. Corri para o outro lado do quarto e abri a maleta onde estava a máquina do tempo. Com dedos ágeis e seguros, retirei as bobinas de Renselz e as amarrei no corpo. O carpete já estava em chamas, bloqueando a porta. Prendendo a respiração para não me sufocar, digitei um código no teclado e mergulhei no tempo.
Vivo retornando a esse momento. Quando apertei a última tecla, o ar já estava quase irrespirável de tanta fumaça. Eu devia ter menos de trinta segundos de vida. Com o passar dos anos, esse tempo foi reduzido para menos de dez segundos.
Vivo de tempo emprestado. Acho que todos nós vivemos assim, talvez. Mas eu sei quando e onde meu débito será saldado.
O Dançarino morreu em 9 de fevereiro de 1969. Era dia frio e nevoento. De manhã, ele se queixou de dor de cabeça. Aquilo era estranho, pois o Dançarino nunca sentia dor de cabeça. Decidimos dar uma volta lá fora, no meio do nevoeiro. Foi bonito. Era como se estivéssemos sozinhos em um mundo estranho e informe. Eu já me havia esquecido completamente da dor de cabeça de Dan quando, olhando para o mar de névoa que se estendia desde o parque até a baía, ele caiu. Estava morto antes de a ambulância chegar. Morreu com um sorriso secreto no rosto.
Jamais entendi aquele sorriso. Talvez estivesse sorrindo porque a dor havia desaparecido.
Dois dias depois, Lisa se matou.
Vocês, pessoas comuns, podem mudar o futuro. Podem gerar filhos, escrever romances, fazer abaixo-assinados, inventar máquinas novas, freqüentar coquetéis, concorrer à presidência. Tudo que vocês fazem afeta o futuro. O que eu faço, não. Para mim, é tarde demais. Minhas ações são escritas em água corrente. Como não tenho nenhuma influência sobre o futuro, também não tenho responsabilidades. Não faz diferença o que eu fizer. Nenhuma diferença.
Quando fui para o passado pela primeira vez, fugindo do fogo, tentei de todas as formas mudar o meu destino. Denunciei o incendiário, discuti com o prefeito, cheguei a ir à minha casa e implorar a mim mesmo que não fosse à conferência.
Entretanto, não é assim que o tempo funciona. Não importa o que eu faça, conversar com um governador ou dinamitar o hotel, quando chego àquele momento crítico (o presente, o meu destino, o momento em que fugi), desapareço do lugar em que estou e volto ao quarto do hotel, com o fogo ainda mais próximo. Restam-me menos de dez segundos. Sempre que mergulho no mar de Dirac, tudo que mudei no passado desaparece. Às vezes faço de conta que as mudanças que provoco no passado podem criar novos futuros, embora saiba que isso é impossível. Quando volto ao presente, todas as mudanças são apagadas pelas ondulações da onda convergente, como quem apaga um quadro-negro depois da aula.
Algum dia vou voltar e enfrentar meu destino. Por enquanto, porém, vivo no passado. É uma boa vida, suponho. Você se acostuma com o fato de que nada que fizer terá qualquer efeito sobre o mundo; isso lhe dá uma certa sensação de liberdade. Estive em lugares onde ninguém esteve, vi coisas que ninguém viu. Abandonei a física, é claro. Nada que eu descobrisse sobreviveria àquela noite fatal em Santa Cruz. Talvez algumas pessoas tivessem continuado pelo puro prazer do conhecimento. A mim, porém, falta motivação.
Por outro lado, existem compensações. Sempre que volto ao quarto do hotel, nada mudou, exceto minhas memórias. Tenho novamente vinte e oito anos, estou usando de novo aquele terno com colete, sinto na boca o gosto indefinido de Coca-Cola choca. Cada vez que retorno, gasto um pouquinho de tempo. Um dia, não me restará mais nada.
O Dançarino não morrerá nunca. Não deixarei que isso aconteça. Cada vez que chego àquela última manhã de fevereiro, ao dia em que ele morreu, volto a 1965, àquele dia perfeito de junho. Ele não me conhece, ele nunca me conhece. Mas nós nos encontramos naquela colina, os únicos dispostos a passar o dia sem fazer nada. Ele está deitado de costas, dedilhando preguiçosamente as cordas do violão, soprando bolhas de sabão e olhando as nuvens brancas no céu azul. Daqui a pouco vou apresentá-lo a Lisa. Ela também não vai nos conhecer, mas não há problema. Temos muito tempo.
— Tempo — digo para o Dançarino, deitado no parque da colina. — Temos muito tempo.
—Todo o tempo que existe — concorda ele.
Geoffrey A. Landis
Parto, e minhas ondulações divergem para o infinito, como ondas apagando as pegadas de viajantes esquecidos.
No dia em que primeiro testamos minha máquina, tomamos muito cuidado para evitar qualquer paradoxo. Fizemos uma cruz de fita isolante no chão de concreto de um laboratório sem janelas, colocamos um relógio despertador nessa marca e trancamos a porta. Uma hora depois retornamos, retiramos o relógio e colocamos a máquina experimental na sala com uma câmara super-8 apoiada nas bobinas. Apontei a câmara para a marca e um dos meus alunos de pós-graduação programou a máquina para enviar a câmara de volta meia hora, permanecer no passado por cinco minutos e depois retornar. Ela partiu e retornou em um piscar de olhos. Quando revelamos o filme, a hora no relógio era meia hora antes de enviarmos a câmara. Havíamos conseguido abrir a porta para o passado. Celebramos com café e champanha.
Agora que sei muito mais sobre o tempo, compreendo nosso erro. Não havíamos pensado em colocar uma câmara na sala com o relógio para fotografar a máquina quando ela chegasse do futuro. Mas o que era óbvio para mim agora não era óbvio então.
Chego, e as ondulações convergem para o instante agora da vastidão do mar infinito.
Para São Francisco, 8 de junho de 1965. Uma brisa quente acaricia a grama cheia de dentes-de-leão, enquanto nuvens brancas e fofas compõem formas estranhas e maravilhosas para nosso entretenimento. Mesmo assim, muito poucas pessoas param para apreciar. Elas correm para cá e para lá, com ar preocupado, acreditando que se parecerem bastante ocupadas, acabarão ficando importantes.
— Eles têm tanta pressa! — observo. Por que não podem parar um pouco, relaxar, curtir o dia?
— Estão presos na ilusão do tempo — responde o Dançarino.
Ele está deitado de costas, soprando uma bolha de sabão, os longos cabelos castanhos tocando-lhe os ombros, numa época em que qualquer cabelo abaixo da orelha seria considerado comprido. Um sopro de brisa carrega a bolha colina abaixo até o vaivém de pedestres. Todos, sem exceção, a ignoram.
— Estão presos à crença de que o que fazem é importante para algum objetivo futuro.
A bolha estoura em uma maleta e o Dançarino sopra outra.
— Você e eu, nós sabemos que isso é uma ilusão. Não existe passado, não existe futuro, apenas o agora, eterno.
Ele estava certo, mais certo do que jamais poderia imaginar. Antigamente, eu também me preocupava e me achava importante. Antigamente, eu era brilhante e ambicioso. Tinha vinte e oito anos e havia feito a maior descoberta do mundo.
Do meu esconderijo eu o vi sair do elevador de serviço. Era magro, quase esquelético, um homem nervoso de cabelos louros e oleosos, que usava uma camiseta branca sem mangas. Olhou para os dois lados do saguão, mas não me viu escondido no depósito de material de limpeza. Estava carregando uma lata de dez litros de gasolina debaixo de cada braço e mais outras duas, uma em cada mão. Colocou três delas no chão e virou a última de cabeça para baixo; depois, atravessou o saguão, espalhando um longo rastro de gasolina. Seu rosto não tinha expressão. Quando começou a esvaziar a segunda lata, achei que já era o bastante. Saí do meu esconderijo, dei-lhe uma pancada na cabeça com uma chave inglesa e chamei a segurança do hotel. Depois, voltei ao depósito e deixei as ondulações do tempo convergirem.
Cheguei a um quarto em chamas, que ardiam bem perto de mim, o calor quase insuportável. Tentei respirar (um grande erro) e apressadamente apertei algumas teclas.
NOTAS SOBRE A TEORIA E A PRÁTICA DAS VIAGENS NO TEMPO:
1) Só é possível viajar para o passado.
2) O objeto transportado retornará exatamente ao tempo e local de partida.
3) Não é possível transportar objetos do passado para o presente.
4) Ações no passado não podem mudar o presente.
Uma vez, tentei retroceder um milhão de anos, ao Cretáceo, para ver os dinossauros. Todos os livros ilustrados sobre o assunto mostram paisagens cheias de dinossauros. Tive que passar três dias vagando por um pântano (com meu terno novo de tweed) para conseguir, se bem que só de relance, dar uma olhada em um dinossauro que não era maior que um cão bassé. O danadinho (um terópode qualquer, não sei exatamente) fugiu rapidamente ao pressentir minha presença. Que decepção!
Meu professor de Matemática Transfinita costumava contar histórias sobre um hotel com um número infinito de quartos. Certo dia todos os quartos estão cheios e chega mais um hóspede. "Não tem problema", diz o gerente do hotel. Ele muda o hóspede do quarto um para o dois, do dois para o três e assim por diante. Pronto! Um quarto vago.
Pouco depois, chega um número infinito de hóspedes. "Não tem problema", repete o inabalável gerente. Muda o hóspede do quarto um para o dois, o do dois para o quatro, o do três para o seis e pronto! Um número infinito de quartos vagos.
É exatamente de acordo com esse princípio que funciona minha máquina do tempo.
Mais uma vez retorno a 1965, o ponto fixo, o atrator estranho de minha trajetória caótica. Em anos de peregrinação conheci uma infinidade de pessoas, mas Daniel Ranien — o Dançarino — foi o único com a cabeça no lugar. Tinha um sorriso fácil e gostoso, uma velha guitarra de segunda mão e uma sabedoria que levei cem vidas para igualar. Conheci-o em bons e maus momentos, em dias de verão com um céu azul que, seríamos capazes de jurar, durariam mil anos, em dias de em que a neve se acumulava em grandes montes. Em tempos mais felizes, colocamos rosas em canos de rifles, nos deitamos nas ruas da cidade no meio de tumultos, e não nos machucamos. Eu estava com ele quando morreu, uma, duas, cem vezes.
O Dançarino morreu em 8 de fevereiro de 1969, depois de um mês de reinado de Richard, o Embusteiro, e seu bobo da corte Spiro, um ano antes de Kent State, Altamont e a guerra secreta no Camboja estrangularem lentamente o verão de sonhos. Morreu, e não havia — não há — nada que eu pudesse — que possa — fazer. A última vez que morreu, arrastei-o a um hospital, onde gritei e discuti até convencê-los a admiti-lo para exames, embora não parecesse ter nada de errado. Com o auxílio de radiografias, arteriogramas e contrastes radioativos, descobriram afinal o aneurisma incipiente que tinha no cérebro. Eles o anestesiaram, rasparam seus belos e longos cabelos castanhos e o operaram, removendo o capilar afetado e costurando as pontas com destreza. Quando a anestesia passou, fiquei sentado ao lado dele no quarto do hospital, segurando-lhe a mão. Seus olhos estavam com olheiras enormes. Agarrou minha mão e ficou olhando, quieto, para o vazio. Quando terminou a hora das visitas, não deixei que me pusessem para fora do quarto. Ele não disse mais nada. Pouco antes do amanhecer, quando o dia já estava clareando, suspirou baixinho e morreu. Não havia absolutamente nada que eu pudesse fazer.
As viagens no tempo estão sujeitas a duas restrições: a energia deve ser conservada e a causalidade, respeitada. A energia necessária para aparecer no passado é apenas tomada emprestada do mar de Dirac; como as ondulações desse mar se propagam no sentido negativo do eixo dos "t", o transporte só pode ser feito para o passado. A energia é conservada no presente, contanto que o objeto transportado retorne no mesmo instante em que partiu. Para que a causalidade seja respeitada, nada que o objeto transportado fizer no passado pode afetar o presente. Por exemplo: que aconteceria se você viajasse ao passado e matasse seu pai? Quem inventaria a máquina do tempo?
Uma vez, tentei suicidar-me assassinando meu pai antes que conhecesse minha mãe, vinte e três anos antes de meu nascimento. Nada mudou, é claro, e mesmo enquanto eu estava fazendo isso sabia que nada iria mudar. Mas a gente tem que tentar assim mesmo. Se não tentar, como vai ter certeza?
Na vez seguinte, experimentamos mandar um rato para o passado. Ele viajou no mar de Dirac e voltou sem problemas. Depois usamos um rato treinado, que havíamos pedido emprestado ao laboratório de psicologia sem explicar nossos motivos. Antes da pequena viagem, tinha sido ensinado a percorrer um labirinto para pegar um pedaço de bacon. Depois da experiência, chegou ao final do labirinto com a mesma facilidade.
Ainda precisávamos tentar com um ser humano. Ofereci-me como voluntário e não permiti que ninguém me dissuadisse. Experimentando em mim mesmo, podia contornar os regulamentos da Universidade a respeito de cobaias humanas.
O mergulho no mar de energia negativa não me causou nenhuma impressão especial. Em um momento, estava no centro do anel de bobinas de Renselz, observado por um técnico e meus dois alunos de pós-graduação; no momento seguinte, estava sozinho e o relógio havia recuado exatamente uma hora. Sozinho em uma sala trancada, com apenas uma câmara e um relógio por companhia, vivia naquele momento o ponto mais alto de minha vida.
O momento em que conheci o Dançarino foi o ponto mais baixo. Eu estava em Berkeley, em um bar chamado Trishia 's, embebedando-me devagar. Era o que mais fazia na ocasião, encurralado como me sentia entre a onipotência e o desespero. O ano era 1967. Frisco, naquela época (o auge da era dos hippies parecia apropriado, por alguma razão).
Havia uma garota sentada em uma mesa com um grupo da universidade. Fui até lá e me convidei a sentar. Contei-lhe que não existia, que nada no mundo existia, que tudo era criado pelo fato de que eu estava olhando e desapareceria no mar da irrealidade no momento em que eu parasse de olhar. Chamava-se Lisa, e tentou discutir comigo. Os amigos, entediados, foram embora. Pouco depois, Lisa percebeu que eu estava bêbado. Jogou uma nota na mesa e saiu para a noite nevoenta.
Eu a segui. Quando viu que eu a estava seguindo, segurou a bolsa com mais força e saiu correndo.
De repente, ele estava lá, debaixo de um poste de luz. Por um segundo, pensei que fosse uma garota. Tinha olhos azuis e cabelos castanhos que chegavam até os ombros. Vestia uma camisa índia bordada, tinha um medalhão azul e prata no pescoço e carregava nas costas um violão. Era magro, quase um fiapo, e tinha os movimentos de um dançarino ou um mestre de caratê. Mas não me ocorreu sentir medo dele.
Olhou-me dos pés à cabeça e disse:
— Isso não vai resolver o seu problema, você sabe.
Senti vergonha de mim mesmo. Não sabia mais ao certo o que tinha em mente ou por que havia seguido a garota. Fazia anos que fugira da morte pela primeira vez e já começava a pensar os outros como se fossem irreais, pois nada que fizesse poderia afetá-los de forma permanente. Sentia a cabeça girar. Apoiei-me na parede e escorreguei até o chão, onde me sentei. Até que ponto havia chegado!
Ele me levou de volta para o bar, ofereceu-me um suco de laranja com biscoitos e me fez falar. Contei-lhe tudo. Por que não, já que eu poderia desdizer tudo que dissesse, desfazer tudo que fizesse? Mas eu não tinha pressa. Ele escutou tudo, sem dizer nada. Ninguém havia escutado antes a história completa. Não sei explicar o efeito que aquilo teve sobre mim. Passar tantos anos sozinho e depois, ainda que apenas por um momento... aquilo me atingiu com a intensidade de uma dose de LSD. Ainda que apenas por um momento, não estava mais sozinho.
Saímos de braços dados. Meio quarteirão adiante, o Dançarino parou, na entrada de um beco. Estava escuro.
— Há alguma coisa errada ali — disse, em tom preocupado.
Segurei-o.
— Espere. Você não vai querer entrar aí...
Ele se desvencilhou e entrou no beco. Depois de um momento de hesitação, fui atrás.
O beco cheirava a cerveja choca, misturada com lixo e vômito. Meus olhos logo se acostumaram à escuridão.
Lisa estava encolhida em um canto, atrás de latas de lixo. As roupas dela tinham sido cortadas com uma faca e estavam espalhadas pelo chão. Tinha manchas de sangue nas coxas e em um dos braços. Não parecia nos ver. O Dançarino se agachou ao lado dela e disse alguma coisa baixinho. Ela não respondeu. Ele tirou a camisa e a enrolou na moça. Depois, tomou-a nos braços e levantou-a.
— Ajude-me a levá-la para o meu apartamento.
— Apartamento uma ova! É melhor chamarmos a polícia! — disse eu.
— Chamar os porcos? Está maluco? Quer que eles a estuprem também?
Eu tinha me esquecido de que aqueles eram os anos sessenta. Carregamos a moça até o fusca do Dançarino e fomos ao apartamento dele, na Hashbury. No caminho, ele me explicou em voz baixa o que havia acontecido, um lado negro do verão do amor que eu não conhecia, Tinham sido os greasers, afirmou. Eles apareciam em Berkeley porque ouviam dizer que as garotas hippies davam para qualquer um de graça, e ficavam zangados quando encontravam alguma que pensava diferente.
Os ferimentos de Lisa eram quase todos superficiais. O Dançarino lavou a moça, colocou-a na cama e ficou a noite inteira a seu lado, falando, cantarolando e tentando acalmá-la. Dormi em um dos colchões da sala. De manhã, quando acordei, os dois estavam juntos na cama. Lisa dormia tranqüilamente. O Dançarino estava acordado, abraçando-a. Eu estava consciente o bastante para perceber que aquilo era tudo que estava fazendo, abraçá-la, mas mesmo assim senti ciúme, e não sabia bem de qual dos dois.
NOTAS PARA UMA PALESTRA SOBRE VIAGENS NO TEMPO
O início do século XX foi uma época de gigantes do intelecto que talvez jamais venha a ser igualada. Einstein tinha acabado de inventar a teoria a relatividade e Heisenberg e Schrodinger a mecânica quântica, mas ninguém ainda sabia como compatibilizar as duas teorias. Em 1930, outra pessoa abordou o problema. Chamava-se Paul Dirac. Tinha vinte e oito nos de idade. Teve êxito onde os outros haviam falhado.
A teoria de Dirac foi de um sucesso sem precedentes, exceto por um pequeno detalhe. De acordo com a teoria, a energia de uma partícula podia ser positiva ou negativa. Que significava uma partícula com energia negativa? Como alguma coisa podia ter energia negativa? E por que as partículas comuns, de energia positiva, não caíam nesses estados de energia negativa, liberando uma grande energia no processo?
Você e eu poderíamos simplesmente ter postulado que era impossível uma partícula de energia positiva sofrer uma transição para um estado de energia negativa. Entretanto, Dirac não era um homem comum. Era um gênio, o maior físico de sua geração, e tinha uma resposta. Se todos os estados possíveis de energia negativa já estivessem ocupados, uma partícula não poderia cair para um estado de energia negativa. Ahá! Assim, Dirac postulou que o universo inteiro está totalmente preenchido por partículas de energia negativa. Elas nos cercam, nos permeiam, no vácuo do espaço sideral, no centro da Terra, em todos os lugares onde uma partícula pode estar. Um "mar" infinitamente denso de partículas de energia negativa, mar de Dirac.
A teoria de Dirac tinha falhas, mas isso fica para depois.
Uma vez, fui assistir à crucificação. Peguei um jato de Santa Cruz a Tel Aviv e um ônibus de Tel Aviv a Jerusalém. Chegando a uma colina perto da cidade, mergulhei no mar de Dirac.
Estava usando meu terno com colete. Não havia como evitar isso, a não ser que quisesse viajar despido. A terra era surpreendentemente verde e fértil, muito mais do que eu esperava. A colina agora fazia parte de uma fazenda; estava coberta de videiras e oliveiras. Escondi as bobinas atrás de umas pedras e desci até a estrada. Não fui muito longe. Depois de andar uns cinco minutos, cruzei com um grupo de pessoas. Tinham cabelos pretos, eram morenos e usavam túnicas brancas, muito limpas. Seriam romanos? Judeus? Egípcios? Como poderia saber? Falaram comigo, mas não compreendi uma palavra. Depois, dois deles me agarraram, enquanto um terceiro me revistava. Seriam ladrões atrás de dinheiro? Romanos, em busca de algum documento de identidade? Dei-me conta de quão ingênuo havia sido em pensar que poderia arranjar roupas adequadas e me misturar à multidão. Não encontrando nada, o que havia me revistado me deu uma surra e derrubou-me no chão. Enquanto os outros dois me seguravam, sacou uma adaga e cortou os tendões das minhas pernas. Tive a impressão de que estavam sendo misericordiosos, poupando-me a vida. Foram embora rindo e conversando alguma coisa incompreensível.
Minhas pernas não serviam mais para nada. Estava com um braço quebrado. Levei quatro horas para me arrastar de volta à colina, usando o braço bom. As pessoas que passavam faziam questão de me ignorar. Quando cheguei ao esconderijo, precisei de toda a minha força de vontade para apanhar as bobinas de Renselz e enrolá-las no corpo. No momento em que digitei no teclado a combinação de retorno, estava quase inconsciente. Afinal, consegui completar a combinação. As ondas do mar de Dirac convergiram
e eu estava no meu quarto de hotel em Santa Cruz. O teto tinha começado a cair no lugar onde as vigas haviam queimado. Alarmes contra incêndio estavam tocando, mas eu não tinha para onde correr. O quarto estava cheio de fumaça, acre e densa. Tentando não respirar, digitei um código no teclado, para qualquer tempo, para qualquer lugar que não fosse aquele inferno
e eu estava no mesmo quarto de hotel, cinco dias antes. Respirei fundo. A mulher na cama gritou e tentou se cobrir. O homem que estava trepando com ela estava muito ocupado para se importar. De qualquer modo, eles não eram reais. Ignorei-os e escolhi com um pouco mais de cuidado o lugar para onde iria em seguida. De volta a 65, pensei. Digitei a combinação
e estava de pé em um quarto vazio no trigésimo andar de um hotel em construção. Uma lua cheia banhava as silhuetas dos guindastes silenciosos. Experimentei flexionar as pernas. A lembrança da dor estava começando a desaparecer. Era compreensível, pois aquilo nunca havia acontecido. Viajar no tempo. Não é a imortalidade, mas está bem perto.
É impossível mudar o passado, por mais que se tente.
De manhã, explorei o apartamento do Dançarino. Era louquíssimo, um apartamentozinho de terceiro andar a um quarteirão da Haight-Ashbury que havia sido convertido em uma coisa de outro planeta. O chão estava todo coberto de colchões velhos; em cima deles, uma confusão de colchas, travesseiros, cobertores indígenas, animais empalhados. Você tinha que tirar os sapatos antes de entrar; o Dançarino sempre usava sandálias mexicanas de couro, com sola de pneu. Os radiadores de calor, que não funcionavam, tinham sido pintados com tinta fosforescente. As paredes estavam cobertas de cartazes: gravuras de Peter Max, desenhos de Eschers em cores berrantes, poemas de Allen Ginsberg, capas de discos, posters de movimentos pacifistas, um letreiro que dizia "Haight is Love", avisos dos dez mais procurados pelo FBI, arrancados de alguma agência dos Correios, com as fotos de famosos ativistas contra a guerra circuladas com pincel atômico e um enorme símbolo da paz cor-de-rosa. Alguns dos cartazes estavam iluminados com luz negra e brilhavam com cores impossíveis. O ar estava pesado de incenso e do cheiro de palha queimada da maconha. Em um canto, um toca-discos tocava "Sergeant Pepper's Lonely Hearts Club Band" interminavelmente. Quando uma cópia do disco ficava muito arranhada, um dos amigos do Dançarino lhe dava outra de presente.
Ele jamais trancava a porta. ("Se alguém estiver a fim de me roubar, tudo bem, provavelmente está mais necessitado do que eu, não é? Tá limpo".) As pessoas apareciam lá a qualquer hora do dia ou da noite.
Deixei o cabelo crescer. O Dançarino, Lisa e eu passamos aquele verão juntos, rindo, tocando violão, fazendo amor, escrevendo poemas idiotas e canções mais idiotas ainda, experimentando drogas. Era a época em que o LSD estava no auge, em que as pessoas ainda não temiam o mundo estranho e lindo que fica do outro lado da realidade. Era uma época em que valia a pena viver. Sabia que era o Dançarino que Lisa amava realmente, e não eu, mas naquele tempo o amor livre estava no ar como o perfume das papoulas, de modo que não tinha importância. Pelo menos, não muito.
NOTAS PARA UMA PALESTRA SOBRE VIAGENS NO TEMPO (continuação)
Depois de postular que todo o espaço estava preenchido por um mar infinitamente denso de partículas de energia negativa, Dirac foi mais além e se perguntou se nós, no universo de energia positiva, poderíamos interagir com esse mar de energia negativa. Que aconteceria, digamos, se você fornecesse energia suficiente a um elétron para retirá-lo do mar de energia negativa? Duas coisas: primeiro, você criaria um elétron aparentemente do nada. Segundo, você deixaria um "buraco" no mar. O buraco, percebeu Dirac, se comportaria como se fosse uma partícula, uma partícula exatamente igual a um elétron, exceto por um detalhe: teria a carga oposta. Mas se o buraco um dia encontrasse um elétron, este cairia de volta no mar de Dirac e tanto o elétron como o buraco desapareceriam em uma grande explosão. O buraco do mar de Dirac foi batizado com o nome de pósitron. Dois anos depois, quando Anderson descobriu o pósitron e confirmou a teoria de Dirac, foi quase um anticlímax.
Durante os cinqüenta anos seguintes, a realidade do mar de Dirac foi quase ignorada pelos físicos. A antimatéria, os buracos do mar, era a parte importante da teoria; o resto não passava de um artifício matemático.
Setenta anos depois, lembrei-me da história que o professor de matemática transfinita me havia contado e combinei-a com a teoria de Dirac. Da mesma forma como seria possível alojar um hóspede a mais em um hotel com um número infinito de quartos, descobri que poderia pedir energia emprestada ao mar de Dirac. Para dizer a mesma coisa de outra forma: aprendi a fazer ondas.
As ondas do mar de Dirac viajam para trás no tempo.
Depois de minha curta expedição, decidimos tentar algo mais ambicioso: mandar alguém para o passado remoto e recolher provas da viagem. Ainda estávamos com medo de modificar o passado, embora os matemáticos assegurassem que o presente não podia ser alterado.
Colocamos filme na câmara e escolhemos cuidadosamente nosso destino.
Em setembro de 1853, um viajante chamado William Hapland e sua família atravessaram a Serra Nevada para chegar à costa da Califórnia. A filha Sarah registrou em um diário que, ao chegarem ao pico de Parker, avistou pela primeira vez o Oceano Pacífico, no exato instante em que o sol tocava o horizonte, "em uma chama de rubra glória". O diário existe até hoje. Não foi difícil nos escondermos com a câmara atrás de umas rochas e filmar a passagem da carroça puxada por bois que conduzia os cansados viajantes.
Nosso segundo alvo foi o grande terremoto de São Francisco, em 1906. De um armazém abandonado que sobreviveria ao tremor (mas não ao incêndio que se seguiu), observamos e filmamos os edifícios desabando e os bombeiros lutando em vão para apagar as centenas de focos. Voltamos ao presente momento antes de o fogo chegar ao armazém.
Os filmes ficaram sensacionais.
Estávamos prontos para contar ao mundo.
Dali a um mês, haveria uma reunião da Sociedade Americana para o Progresso da Ciência, em Santa Cruz. Liguei para o coordenador e consegui que encaixasse no programa uma palestra para mim, como cientista convidado, sem revelar o que havíamos conseguido. Pretendia mostrar os filmes durante a palestra. Eles nos tornariam instantaneamente famosos.
No dia em que o Dançarino morreu, demos uma festa de despedida, apenas Lisa, ele e eu. O Dançarino sabia que estava para morrer; eu tinha contado a ele e ele havia acreditado, não sei bem por quê. A verdade é que sempre acreditava no que eu dizia. Ficamos a noite inteira acordados, tocando o bandolim de segunda mão do Dançarino, pintando nossos corpos com desenhos psicodélicos, jogando Monopólio, fazendo uma centena de coisas tolas e simples cujo único sentido era o fato de que seria a última vez. Por volta das quatro da manhã, quando começava a clarear, fomos até a baía e, nos abraçando para nos aquecermos, começamos uma viagem. O Dançarino tomou uma dose maior, porque ele não iria mesmo voltar. A última coisa que disse foi que não deixássemos nossos sonhos morrerem; ele queria que continuássemos juntos.
Enterramos o Dançarino, por conta da prefeitura, em uma cova de indigente. Eu e Lisa nos separamos três dias depois.
Continuei a manter um contato superficial com Lisa. No final dos anos setenta, ela voltou à universidade, primeiro para um curso de administração de empresas, depois para estudar Direito. Acho que passou algum tempo casada. Todo ano trocávamos cartões de Natal, até que perdi sua pista. Anos mais tarde, recebi uma carta de Lisa. Dizia que finalmente tinha conseguido me perdoar por ter causado a morte de Dan.
Era um dia frio e nevoento de fevereiro, mas eu sabia que podia encontrar calor em 1965. As ondas convergiram.
Perguntas que eu esperava da platéia:
P (professor velho e pretensioso): Parece-me que esse salto temporal que você propõe viola a lei de conservação de massa/energia. Por exemplo: quando um objeto é transportado para o passado, uma certa massa parece desaparecer do presente, em uma clara violação da lei de conservação.
R (eu): Como o retorno ocorre no momento exato da partida, a massa permanece constante.
P: Muito bem, mas que me diz da chegada no passado? Ela não viola a lei de conservação?
R: Não. A energia necessária é extraída do mar de Dirac, pelo mecanismo que explico em detalhes no meu artigo para o Physical Review. Quando o objeto retorna ao "futuro", essa energia é devolvida ao mar.
P (jovem físico, em tom interessado): O princípio de incerteza de Heisenberg não limita o tempo que se pode ficar no passado?
R: Boa pergunta. A resposta é sim, mas como tomamos emprestada uma quantidade infinitesimal de energia de um número infinito de partículas, o tempo gasto no passado pode ser arbitrariamente longo. A única limitação é que você deve deixar o passado um instante antes de partir do presente.
Dali a meia hora, iria apresentar o trabalho que colocaria meu nome ao lado do de Newton, Galileu... e Dirac. Eu tinha vinte e dois anos, a mesma idade em que Dirac anunciou sua teoria. Eu era um incendiado, pronto para atear fogo ao mundo. Estava nervoso, ensaiando a palestra no meu quarto de hotel. Tomei um gole de uma garrafa de Coca-Cola que um dos meus alunos tinha deixado em cima da televisão. Os locutores do jornal da noite não paravam de falar, mas eu não estava prestando atenção.
Jamais dei aquela palestra. O hotel já havia começado a pegar fogo; minha morte já tinha sido decretada. Depois de colocar a gravata, dei uma última olhada no espelho e encaminhei-me para a porta. A maçaneta estava quente. Abri a porta e deparei com uma muralha de fogo. As chamas invadiram meu quarto como um dragão furioso. Cambaleei para trás, olhando fascinado para elas.
Em algum lugar do hotel, alguém gritou, fazendo-me voltar à realidade. Estava no trigésimo andar; não havia saída. Lembrei-me da máquina. Corri para o outro lado do quarto e abri a maleta onde estava a máquina do tempo. Com dedos ágeis e seguros, retirei as bobinas de Renselz e as amarrei no corpo. O carpete já estava em chamas, bloqueando a porta. Prendendo a respiração para não me sufocar, digitei um código no teclado e mergulhei no tempo.
Vivo retornando a esse momento. Quando apertei a última tecla, o ar já estava quase irrespirável de tanta fumaça. Eu devia ter menos de trinta segundos de vida. Com o passar dos anos, esse tempo foi reduzido para menos de dez segundos.
Vivo de tempo emprestado. Acho que todos nós vivemos assim, talvez. Mas eu sei quando e onde meu débito será saldado.
O Dançarino morreu em 9 de fevereiro de 1969. Era dia frio e nevoento. De manhã, ele se queixou de dor de cabeça. Aquilo era estranho, pois o Dançarino nunca sentia dor de cabeça. Decidimos dar uma volta lá fora, no meio do nevoeiro. Foi bonito. Era como se estivéssemos sozinhos em um mundo estranho e informe. Eu já me havia esquecido completamente da dor de cabeça de Dan quando, olhando para o mar de névoa que se estendia desde o parque até a baía, ele caiu. Estava morto antes de a ambulância chegar. Morreu com um sorriso secreto no rosto.
Jamais entendi aquele sorriso. Talvez estivesse sorrindo porque a dor havia desaparecido.
Dois dias depois, Lisa se matou.
Vocês, pessoas comuns, podem mudar o futuro. Podem gerar filhos, escrever romances, fazer abaixo-assinados, inventar máquinas novas, freqüentar coquetéis, concorrer à presidência. Tudo que vocês fazem afeta o futuro. O que eu faço, não. Para mim, é tarde demais. Minhas ações são escritas em água corrente. Como não tenho nenhuma influência sobre o futuro, também não tenho responsabilidades. Não faz diferença o que eu fizer. Nenhuma diferença.
Quando fui para o passado pela primeira vez, fugindo do fogo, tentei de todas as formas mudar o meu destino. Denunciei o incendiário, discuti com o prefeito, cheguei a ir à minha casa e implorar a mim mesmo que não fosse à conferência.
Entretanto, não é assim que o tempo funciona. Não importa o que eu faça, conversar com um governador ou dinamitar o hotel, quando chego àquele momento crítico (o presente, o meu destino, o momento em que fugi), desapareço do lugar em que estou e volto ao quarto do hotel, com o fogo ainda mais próximo. Restam-me menos de dez segundos. Sempre que mergulho no mar de Dirac, tudo que mudei no passado desaparece. Às vezes faço de conta que as mudanças que provoco no passado podem criar novos futuros, embora saiba que isso é impossível. Quando volto ao presente, todas as mudanças são apagadas pelas ondulações da onda convergente, como quem apaga um quadro-negro depois da aula.
Algum dia vou voltar e enfrentar meu destino. Por enquanto, porém, vivo no passado. É uma boa vida, suponho. Você se acostuma com o fato de que nada que fizer terá qualquer efeito sobre o mundo; isso lhe dá uma certa sensação de liberdade. Estive em lugares onde ninguém esteve, vi coisas que ninguém viu. Abandonei a física, é claro. Nada que eu descobrisse sobreviveria àquela noite fatal em Santa Cruz. Talvez algumas pessoas tivessem continuado pelo puro prazer do conhecimento. A mim, porém, falta motivação.
Por outro lado, existem compensações. Sempre que volto ao quarto do hotel, nada mudou, exceto minhas memórias. Tenho novamente vinte e oito anos, estou usando de novo aquele terno com colete, sinto na boca o gosto indefinido de Coca-Cola choca. Cada vez que retorno, gasto um pouquinho de tempo. Um dia, não me restará mais nada.
O Dançarino não morrerá nunca. Não deixarei que isso aconteça. Cada vez que chego àquela última manhã de fevereiro, ao dia em que ele morreu, volto a 1965, àquele dia perfeito de junho. Ele não me conhece, ele nunca me conhece. Mas nós nos encontramos naquela colina, os únicos dispostos a passar o dia sem fazer nada. Ele está deitado de costas, dedilhando preguiçosamente as cordas do violão, soprando bolhas de sabão e olhando as nuvens brancas no céu azul. Daqui a pouco vou apresentá-lo a Lisa. Ela também não vai nos conhecer, mas não há problema. Temos muito tempo.
— Tempo — digo para o Dançarino, deitado no parque da colina. — Temos muito tempo.
—Todo o tempo que existe — concorda ele.
Geoffrey A. Landis
quinta-feira, 28 de abril de 2011
Tangerine-Girl
De princípio a interessou o nome da aeronave: não "zepelim" nem dirigível, ou qualquer outra coisa antiquada; o grande fuso de metal brilhante chamava-se modernissimamente blimp. Pequeno como um brinquedo, independente, amável. A algumas centenas de metros da sua casa ficava a base aérea dos soldados americanos e o poste de amarração dos dirigíveis. E de vez em quando eles deixavam o poste e davam uma volta, como pássaros mansos que abandonassem o poleiro num ensaio de vôo. Assim, de começo, aos olhos da menina, o blimp existia como uma coisa em si — como um animal de vida própria; fascinava-a como prodígio mecânico que era, e principalmente ela o achava lindo, todo feito de prata, igual a uma jóia, librando-se majestosamente pouco abaixo das nuvens. Tinha coisas de ídolo, evocava-lhe um pouco o gênio escravo de Aladim. Não pensara nunca em entrar nele; não pensara sequer que pudesse alguém andar dentro dele. Ninguém pensa em cavalgar uma águia, nadar nas costas de um golfinho; e, no entanto, o olhar fascinado acompanha tanto quanto pode águia e golfinho, numa admiração gratuita — pois parece que é mesmo uma das virtudes da beleza essa renúncia de nós próprios que nos impõe, em troca de sua contemplação pura e simples.
Os olhos da menina prendiam-se, portanto, ao blimp sem nenhum desejo particular, sem a sombra de uma reivindicação. Verdade que via lá dentro umas cabecinhas espiando, mas tão minúsculas que não davam impressão de realidade — faziam parte da pintura, eram elemento decorativo, obrigatório como as grandes letras negras U. S. Navy gravadas no bojo de prata. Ou talvez lembrassem aqueles perfis recortados em folha que fazem de chofer nos automóveis de brinquedo.
O seu primeiro contato com a tripulação do dirigível começou de maneira puramente ocasional. Acabara o café da manhã; a menina tirara a mesa e fora à porta que dá para o laranjal, sacudir da toalha as migalhas de pão. Lá de cima um tripulante avistou aquele pano branco tremulando entre as árvores espalhadas e a areia, e o seu coração solitário comoveu-se. Vivia naquela base como um frade no seu convento — sozinho entre soldados e exortações patrióticas. E ali estava, juntinho ao oitão da casa de telhado vermelho, sacudindo um pano entre a mancha verde das laranjeiras, uma mocinha de cabelo ruivo. O marinheiro agitou-se todo com aquele adeus. Várias vezes já sobrevoara aquela casa, vira gente embaixo entrando e saindo; e pensara quão distantes uns dos outros vivem os homens, quão indiferentes passam entre si, cada um trancado na sua vida. Ele estava voando por cima das pessoas, vendo-as, espiando-as, e, se algumas erguiam os olhos, nenhuma pensava no navegador que ia dentro; queriam só ver a beleza prateada vogando pelo céu.
Mas agora aquela menina tinha para ele um pensamento, agitava no ar um pano, como uma bandeira; decerto era bonita — o sol lhe tirava fulgurações de fogo do cabelo, e a silhueta esguia se recortava claramente no fundo verde-e-areia. Seu coração atirou-se para a menina num grande impulso agradecido; debruçou-se à janela, agitou os braços, gritou: "Amigo!, amigo!"— embora soubesse que o vento, a distância, o ruído do motor não deixariam ouvir-se nada. Ficou incerto se ela lhe vira os gestos e quis lhe corresponder de modo mais tangível. Gostaria de lhe atirar uma flor, uma oferenda. Mas que podia haver dentro de um dirigível da Marinha que servisse para ser oferecido a uma pequena? O objeto mais delicado que encontrou foi uma grande caneca de louça branca, pesada como uma bala de canhão, na qual em breve lhe iriam servir o café. E foi aquela caneca que o navegante atirou; atirou, não: deixou cair a uma distância prudente da figurinha iluminada, lá embaixo; deixou-a cair num gesto delicado, procurando abrandar a força da gravidade, a fim de que o objeto não chegasse sibilante como um projétil, mas suavemente, como uma dádiva.
A menina que sacudia a toalha erguera realmente os olhos ao ouvir o motor do blimp. Viu os braços do rapaz se agitarem lá em cima. Depois viu aquela coisa branca fender o ar e cair na areia; teve um susto, pensou numa brincadeira de mau gosto — uma pilhéria rude de soldado estrangeiro. Mas quando viu a caneca branca pousada no chão, intacta, teve uma confusa intuição do impulso que a mandara; apanhou-a, leu gravadas no fundo as mesmas letras que havia no corpo do dirigível: U. S. Navy. Enquanto isso, o blimp, em lugar de ir para longe, dava mais uma volta lenta sobre a casa e o pomar. Então a mocinha tornou a erguer os olhos e, deliberadamente dessa vez, acenou com a toalha, sorrindo e agitando a cabeça. O blimp fez mais duas voltas e lentamente se afastou — e a menina teve a impressão de que ele levava saudades. Lá de cima, o tripulante pensava também — não em saudades, que ele não sabia português, mas em qualquer coisa pungente e doce, porque, apesar de não falar nossa língua, soldado americano também tem coração.
Foi assim que se estabeleceu aquele rito matinal. Diariamente passava o blimp e diariamente a menina o esperava; não mais levou a toalha branca, e às vezes nem sequer agitava os braços: deixava-se estar imóvel, mancha clara na terra banhada de sol. Era uma espécie de namoro de gavião com gazela: ele, fero soldado cortando os ares; ela, pequena, medrosa, lá embaixo, vendo-o passar com os olhos fascinados. Já agora, os presentes, trazidos de propósito da base, não eram mais a grosseira caneca improvisada; caíam do céu números da Life e da Time, um gorro de marinheiro e, certo dia, o tripulante tirou do bolso o seu lenço de seda vegetal perfumado com essência sintética de violetas. O lenço abriu-se no ar e veio voando como um papagaio de papel; ficou preso afinal nos ramos de um cajueiro, e muito trabalho custou à pequena arrancá-lo de lá com a vara de apanhar cajus; assim mesmo ainda o rasgou um pouco, bem no meio.
Mas de todos os presentes o que mais lhe agradava era ainda o primeiro: a pesada caneca de pó de pedra. Pusera-a no seu quarto, em cima da banca de escrever. A princípio cuidara em usá-la na mesa, às refeições, mas se arreceou da zombaria dos irmãos. Ficou guardando nela os lápis e canetas. Um dia teve idéia melhor e a caneca de louça passou a servir de vaso de flores. Um galho de manacá, um bogari, um jasmim-do-cabo, uma rosa menina, pois no jardim rústico da casa de campo não havia rosas importantes nem flores caras.
Pôs-se a estudar com mais afinco o seu livro de conversação inglesa; quando ia ao cinema, prestava uma atenção intensa aos diálogos, a fim de lhes apanhar não só o sentido, mas a pronúncia. Emprestava ao seu marinheiro as figuras de todos os galãs que via na tela, e sucessivamente ele era Clark Gable, Robert Taylor ou Cary Grant. Ou era louro feito um mocinho que morria numa batalha naval do Pacífico, cujo nome a fita não dava; chegava até a ser, às vezes, careteiro e risonho como Red Skelton. Porque ela era um pouco míope, mal o vislumbrava, olhando-o do chão: via um recorte de cabeça, uns braços se agitando; e, conforme a direção dos raios do sol, parecia-lhe que ele tinha o cabelo louro ou escuro.
Não lhe ocorria que não pudesse ser sempre o mesmo marinheiro. E, na verdade, os tripulantes se revezariam diariamente: uns ficavam de folga e iam passear na cidade com as pequenas que por lá arranjavam; outros iam embora de vez para a África, para a Itália. No posto de dirigíveis criava-se aquela tradição da menina do laranjal. Os marinheiros puseram-lhe o apelido de "Tangerine-Girl". Talvez por causa do filme de Dorothy Lamour, pois Dorothy Lamour é, para todas as forças armadas norte-americanas, o modelo do que devem ser as moças morenas da América do Sul e das ilhas do Pacífico. Talvez porque ela os esperava sempre entre as laranjeiras. E talvez porque o cabelo ruivo da pequena, quando brilhava á luz da manhã, tinha um brilho acobreadao de tangerina madura. Um a um, sucessivamente, como um bem de todos, partilhavam eles o namoro com a garota Tangerine. O piloto da aeronave dava voltas, obediente, voando o mais baixo que lhe permitiam os regulamentos, enquanto 0 outro, da janelinha, olhava e dava adeus.
Não sei por que custou tanto a ocorrer aos rapazes a idéia de atirar um bilhete. Talvez pensassem que ela não os entenderia. Já fazia mais de um mês que sobrevoavam a casa, quando afinal o primeiro bilhete caiu; fora escrito sobre uma cara rosada de rapariga na capa de uma revista: laboriosamente, em letras de imprensa, com os rudimentos de português que haviam aprendido da boca das pequenas, na cidade: "Dear Tangeríne-Gírl. Please você vem hoje (today) base X. Dancing, show. Oito horas P.M." E no outro ângulo da revista, em enormes letras, o "Amigo", que é a palavra de passe dos americanos entre nós.
A pequena não atinou bem com aquele "Tangerine-Girl". Seria ela? Sim, decerto... e aceitou o apelido, como uma lisonja. Depois pensou que as duas letras, do fim: "P.M.", seriam uma assinatura. Peter, Paul, ou Patsy, como o ajudante de Nick Carter? Mas uma lembrança de estudo lhe ocorreu: consultou as páginas finais do dicionário, que tratam de abreviaturas, e verificou, levemente decepcionada, que aquelas letras queriam dizer "a hora depois do meio-dia".Não pudera acenar uma resposta porque só vira o bilhete ao abrir a revista, depois que o blimp se afastou. E estimou que assim o fosse: sentia-se tremendamente assustada e tímida ante aquela primeira aproximação com o seu aeronauta. Hoje veria se ele era alto e belo, louro ou moreno. Pensou em se esconder por trás das colunas do portão, para o ver chegar - e não lhe falar nada. Ou talvez tivesse coragem maior e desse a ele a sua mão; juntos caminhariam até a base, depois dançariam um fox langoroso, ele lhe faria ao ouvido declarações de amor em inglês, encostando a face queimada de sol ao seu cabelo. Não pensou se o pessoal de casa lhe deixaria aceitar o convite. Tudo se ia passando como num sonho — e como num sonho se resolveria, sem lutas nem empecilhos.
Muito antes do escurecer, já estava penteada, vestida. Seu coração batia, batia inseguro, a cabeça doía um pouco, o rosto estava em brasas. Resolveu não mostrar o convite a ninguém; não iria ao show; não dançaria, conversaria um pouco com ele no portão. Ensaiava frases em inglês e preparava o ouvido para as doces palavras na língua estranha. Às sete horas ligou o rádio e ficou escutando languidamente o programa de swings. Um irmão passou, fez troça do vestido bonito, naquela hora, e ela nem o ouviu. Às sete e meia já estava na varanda, com o olho no portão e na estrada. Às dez para as oito, noite fechada já há muito, acendeu a pequena lâmpada que alumiava o portão e saiu para o jardim. E às oito em ponto ouviu risadas e tropel de passos na estrada, aproximando-se.
Com um recuo assustado verificou que não vinha apenas o seu marinheiro enamorado, mas um bando ruidoso deles. Viu-os aproximarem-se, trêmula. Eles a avistaram, cercaram o portão — até parecia manobra militar —, tiraram os gorros e foram se apresentando numa algazarra jovial.
E, de repente, mal lhes foi ouvindo os nomes, correndo os olhos pelas caras imberbes, pelo sorriso esportivo e juvenil dos rapazes, fitando-os de um em um, procurando entre eles o seu príncipe sonhado — ela compreendeu tudo. Não existia o seu marinheiro apaixonado — nunca fora ele mais do que um mito do seu coração. Jamais houvera um único, jamais "ele" fora o mesmo. Talvez nem sequer o próprio blimp fosse o mesmo...
Que vergonha, meu Deus! Dera adeus a tanta gente; traída por uma aparência enganosa, mandara diariamente a tantos rapazes diversos as mais doces mensagens do seu coração, e no sorriso deles, nas palavras cordiais que dirigiam à namorada coletiva, à pequena Tangerine-Girl, que já era uma instituição da base — só viu escárnio, familiaridade insolente... Decerto pensavam que ela era também uma dessas pequenas que namoram os marinheiros de passagem, quem quer que seja... decerto pensavam... Meu Deus do Céu!
Os moços, por causa da meia-escuridão, ou porque não cuidavam naquelas nuanças psicológicas, não atentaram na expressão de mágoa e susto que confrangia o rostinho redondo da amiguinha. E, quando um deles, curvando-se, lhe ofereceu o braço, viu-a com surpresa recuar, balbuciando timidamente:
— Desculpem... houve engano... um engano...
E os rapazes compreenderam ainda menos quando a viram fugir, a princípio lentamente, depois numa carreira cega. Nem desconfiaram que ela fugira a trancar-se no quarto e, mordendo o travesseiro, chorou as lágrimas mais amargas e mais quentes que tinha nos olhos.Nunca mais a viram no laranjal; embora insistissem em atirar presentes, viam que eles ficavam no chão, esquecidos — ou às vezes eram apanhados pelos moleques do sítio.
Rachel de Queiroz
Os olhos da menina prendiam-se, portanto, ao blimp sem nenhum desejo particular, sem a sombra de uma reivindicação. Verdade que via lá dentro umas cabecinhas espiando, mas tão minúsculas que não davam impressão de realidade — faziam parte da pintura, eram elemento decorativo, obrigatório como as grandes letras negras U. S. Navy gravadas no bojo de prata. Ou talvez lembrassem aqueles perfis recortados em folha que fazem de chofer nos automóveis de brinquedo.
O seu primeiro contato com a tripulação do dirigível começou de maneira puramente ocasional. Acabara o café da manhã; a menina tirara a mesa e fora à porta que dá para o laranjal, sacudir da toalha as migalhas de pão. Lá de cima um tripulante avistou aquele pano branco tremulando entre as árvores espalhadas e a areia, e o seu coração solitário comoveu-se. Vivia naquela base como um frade no seu convento — sozinho entre soldados e exortações patrióticas. E ali estava, juntinho ao oitão da casa de telhado vermelho, sacudindo um pano entre a mancha verde das laranjeiras, uma mocinha de cabelo ruivo. O marinheiro agitou-se todo com aquele adeus. Várias vezes já sobrevoara aquela casa, vira gente embaixo entrando e saindo; e pensara quão distantes uns dos outros vivem os homens, quão indiferentes passam entre si, cada um trancado na sua vida. Ele estava voando por cima das pessoas, vendo-as, espiando-as, e, se algumas erguiam os olhos, nenhuma pensava no navegador que ia dentro; queriam só ver a beleza prateada vogando pelo céu.
Mas agora aquela menina tinha para ele um pensamento, agitava no ar um pano, como uma bandeira; decerto era bonita — o sol lhe tirava fulgurações de fogo do cabelo, e a silhueta esguia se recortava claramente no fundo verde-e-areia. Seu coração atirou-se para a menina num grande impulso agradecido; debruçou-se à janela, agitou os braços, gritou: "Amigo!, amigo!"— embora soubesse que o vento, a distância, o ruído do motor não deixariam ouvir-se nada. Ficou incerto se ela lhe vira os gestos e quis lhe corresponder de modo mais tangível. Gostaria de lhe atirar uma flor, uma oferenda. Mas que podia haver dentro de um dirigível da Marinha que servisse para ser oferecido a uma pequena? O objeto mais delicado que encontrou foi uma grande caneca de louça branca, pesada como uma bala de canhão, na qual em breve lhe iriam servir o café. E foi aquela caneca que o navegante atirou; atirou, não: deixou cair a uma distância prudente da figurinha iluminada, lá embaixo; deixou-a cair num gesto delicado, procurando abrandar a força da gravidade, a fim de que o objeto não chegasse sibilante como um projétil, mas suavemente, como uma dádiva.
A menina que sacudia a toalha erguera realmente os olhos ao ouvir o motor do blimp. Viu os braços do rapaz se agitarem lá em cima. Depois viu aquela coisa branca fender o ar e cair na areia; teve um susto, pensou numa brincadeira de mau gosto — uma pilhéria rude de soldado estrangeiro. Mas quando viu a caneca branca pousada no chão, intacta, teve uma confusa intuição do impulso que a mandara; apanhou-a, leu gravadas no fundo as mesmas letras que havia no corpo do dirigível: U. S. Navy. Enquanto isso, o blimp, em lugar de ir para longe, dava mais uma volta lenta sobre a casa e o pomar. Então a mocinha tornou a erguer os olhos e, deliberadamente dessa vez, acenou com a toalha, sorrindo e agitando a cabeça. O blimp fez mais duas voltas e lentamente se afastou — e a menina teve a impressão de que ele levava saudades. Lá de cima, o tripulante pensava também — não em saudades, que ele não sabia português, mas em qualquer coisa pungente e doce, porque, apesar de não falar nossa língua, soldado americano também tem coração.
Foi assim que se estabeleceu aquele rito matinal. Diariamente passava o blimp e diariamente a menina o esperava; não mais levou a toalha branca, e às vezes nem sequer agitava os braços: deixava-se estar imóvel, mancha clara na terra banhada de sol. Era uma espécie de namoro de gavião com gazela: ele, fero soldado cortando os ares; ela, pequena, medrosa, lá embaixo, vendo-o passar com os olhos fascinados. Já agora, os presentes, trazidos de propósito da base, não eram mais a grosseira caneca improvisada; caíam do céu números da Life e da Time, um gorro de marinheiro e, certo dia, o tripulante tirou do bolso o seu lenço de seda vegetal perfumado com essência sintética de violetas. O lenço abriu-se no ar e veio voando como um papagaio de papel; ficou preso afinal nos ramos de um cajueiro, e muito trabalho custou à pequena arrancá-lo de lá com a vara de apanhar cajus; assim mesmo ainda o rasgou um pouco, bem no meio.
Mas de todos os presentes o que mais lhe agradava era ainda o primeiro: a pesada caneca de pó de pedra. Pusera-a no seu quarto, em cima da banca de escrever. A princípio cuidara em usá-la na mesa, às refeições, mas se arreceou da zombaria dos irmãos. Ficou guardando nela os lápis e canetas. Um dia teve idéia melhor e a caneca de louça passou a servir de vaso de flores. Um galho de manacá, um bogari, um jasmim-do-cabo, uma rosa menina, pois no jardim rústico da casa de campo não havia rosas importantes nem flores caras.
Pôs-se a estudar com mais afinco o seu livro de conversação inglesa; quando ia ao cinema, prestava uma atenção intensa aos diálogos, a fim de lhes apanhar não só o sentido, mas a pronúncia. Emprestava ao seu marinheiro as figuras de todos os galãs que via na tela, e sucessivamente ele era Clark Gable, Robert Taylor ou Cary Grant. Ou era louro feito um mocinho que morria numa batalha naval do Pacífico, cujo nome a fita não dava; chegava até a ser, às vezes, careteiro e risonho como Red Skelton. Porque ela era um pouco míope, mal o vislumbrava, olhando-o do chão: via um recorte de cabeça, uns braços se agitando; e, conforme a direção dos raios do sol, parecia-lhe que ele tinha o cabelo louro ou escuro.
Não lhe ocorria que não pudesse ser sempre o mesmo marinheiro. E, na verdade, os tripulantes se revezariam diariamente: uns ficavam de folga e iam passear na cidade com as pequenas que por lá arranjavam; outros iam embora de vez para a África, para a Itália. No posto de dirigíveis criava-se aquela tradição da menina do laranjal. Os marinheiros puseram-lhe o apelido de "Tangerine-Girl". Talvez por causa do filme de Dorothy Lamour, pois Dorothy Lamour é, para todas as forças armadas norte-americanas, o modelo do que devem ser as moças morenas da América do Sul e das ilhas do Pacífico. Talvez porque ela os esperava sempre entre as laranjeiras. E talvez porque o cabelo ruivo da pequena, quando brilhava á luz da manhã, tinha um brilho acobreadao de tangerina madura. Um a um, sucessivamente, como um bem de todos, partilhavam eles o namoro com a garota Tangerine. O piloto da aeronave dava voltas, obediente, voando o mais baixo que lhe permitiam os regulamentos, enquanto 0 outro, da janelinha, olhava e dava adeus.
Não sei por que custou tanto a ocorrer aos rapazes a idéia de atirar um bilhete. Talvez pensassem que ela não os entenderia. Já fazia mais de um mês que sobrevoavam a casa, quando afinal o primeiro bilhete caiu; fora escrito sobre uma cara rosada de rapariga na capa de uma revista: laboriosamente, em letras de imprensa, com os rudimentos de português que haviam aprendido da boca das pequenas, na cidade: "Dear Tangeríne-Gírl. Please você vem hoje (today) base X. Dancing, show. Oito horas P.M." E no outro ângulo da revista, em enormes letras, o "Amigo", que é a palavra de passe dos americanos entre nós.
A pequena não atinou bem com aquele "Tangerine-Girl". Seria ela? Sim, decerto... e aceitou o apelido, como uma lisonja. Depois pensou que as duas letras, do fim: "P.M.", seriam uma assinatura. Peter, Paul, ou Patsy, como o ajudante de Nick Carter? Mas uma lembrança de estudo lhe ocorreu: consultou as páginas finais do dicionário, que tratam de abreviaturas, e verificou, levemente decepcionada, que aquelas letras queriam dizer "a hora depois do meio-dia".Não pudera acenar uma resposta porque só vira o bilhete ao abrir a revista, depois que o blimp se afastou. E estimou que assim o fosse: sentia-se tremendamente assustada e tímida ante aquela primeira aproximação com o seu aeronauta. Hoje veria se ele era alto e belo, louro ou moreno. Pensou em se esconder por trás das colunas do portão, para o ver chegar - e não lhe falar nada. Ou talvez tivesse coragem maior e desse a ele a sua mão; juntos caminhariam até a base, depois dançariam um fox langoroso, ele lhe faria ao ouvido declarações de amor em inglês, encostando a face queimada de sol ao seu cabelo. Não pensou se o pessoal de casa lhe deixaria aceitar o convite. Tudo se ia passando como num sonho — e como num sonho se resolveria, sem lutas nem empecilhos.
Muito antes do escurecer, já estava penteada, vestida. Seu coração batia, batia inseguro, a cabeça doía um pouco, o rosto estava em brasas. Resolveu não mostrar o convite a ninguém; não iria ao show; não dançaria, conversaria um pouco com ele no portão. Ensaiava frases em inglês e preparava o ouvido para as doces palavras na língua estranha. Às sete horas ligou o rádio e ficou escutando languidamente o programa de swings. Um irmão passou, fez troça do vestido bonito, naquela hora, e ela nem o ouviu. Às sete e meia já estava na varanda, com o olho no portão e na estrada. Às dez para as oito, noite fechada já há muito, acendeu a pequena lâmpada que alumiava o portão e saiu para o jardim. E às oito em ponto ouviu risadas e tropel de passos na estrada, aproximando-se.
Com um recuo assustado verificou que não vinha apenas o seu marinheiro enamorado, mas um bando ruidoso deles. Viu-os aproximarem-se, trêmula. Eles a avistaram, cercaram o portão — até parecia manobra militar —, tiraram os gorros e foram se apresentando numa algazarra jovial.
E, de repente, mal lhes foi ouvindo os nomes, correndo os olhos pelas caras imberbes, pelo sorriso esportivo e juvenil dos rapazes, fitando-os de um em um, procurando entre eles o seu príncipe sonhado — ela compreendeu tudo. Não existia o seu marinheiro apaixonado — nunca fora ele mais do que um mito do seu coração. Jamais houvera um único, jamais "ele" fora o mesmo. Talvez nem sequer o próprio blimp fosse o mesmo...
Que vergonha, meu Deus! Dera adeus a tanta gente; traída por uma aparência enganosa, mandara diariamente a tantos rapazes diversos as mais doces mensagens do seu coração, e no sorriso deles, nas palavras cordiais que dirigiam à namorada coletiva, à pequena Tangerine-Girl, que já era uma instituição da base — só viu escárnio, familiaridade insolente... Decerto pensavam que ela era também uma dessas pequenas que namoram os marinheiros de passagem, quem quer que seja... decerto pensavam... Meu Deus do Céu!
Os moços, por causa da meia-escuridão, ou porque não cuidavam naquelas nuanças psicológicas, não atentaram na expressão de mágoa e susto que confrangia o rostinho redondo da amiguinha. E, quando um deles, curvando-se, lhe ofereceu o braço, viu-a com surpresa recuar, balbuciando timidamente:
— Desculpem... houve engano... um engano...
E os rapazes compreenderam ainda menos quando a viram fugir, a princípio lentamente, depois numa carreira cega. Nem desconfiaram que ela fugira a trancar-se no quarto e, mordendo o travesseiro, chorou as lágrimas mais amargas e mais quentes que tinha nos olhos.Nunca mais a viram no laranjal; embora insistissem em atirar presentes, viam que eles ficavam no chão, esquecidos — ou às vezes eram apanhados pelos moleques do sítio.
Rachel de Queiroz
sábado, 2 de abril de 2011
Canteiros
Quando penso em você fecho os olhos de saudade
Tenho tido muita coisa, menos a felicidade
Correm os meus dedos longos em versos tristes que invento
Nem aquilo a que me entrego já me traz contentamento
Pode ser até manhã, cedo claro feito dia
mas nada do que me dizem me faz sentir alegria
Eu só queria ter no mato um gosto de framboesa
Para correr entre os canteiros e esconder minha tristeza
Que eu ainda sou bem moço para tanta tristeza
E deixemos de coisa, cuidemos da vida,
Pois se não chega a morte ou coisa parecida
E nos arrasta moço, sem ter visto a vida.
Cecília Meireles
Tenho tido muita coisa, menos a felicidade
Correm os meus dedos longos em versos tristes que invento
Nem aquilo a que me entrego já me traz contentamento
Pode ser até manhã, cedo claro feito dia
mas nada do que me dizem me faz sentir alegria
Eu só queria ter no mato um gosto de framboesa
Para correr entre os canteiros e esconder minha tristeza
Que eu ainda sou bem moço para tanta tristeza
E deixemos de coisa, cuidemos da vida,
Pois se não chega a morte ou coisa parecida
E nos arrasta moço, sem ter visto a vida.
Cecília Meireles
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
Cego e amigo Gedeão à beira da estrada
— Este que passou agora foi um Volkswagen 1962, não é, amigo Gedeão?
— Não, Cego. Foi um Simca Tufão.
— Um Simca Tufão? ... Ah, sim, é verdade. Um Simca potente. E muito econômico. Conheço o Simca Tufão de longe. Conheço qualquer carro pelo barulho da máquina.
Este que passou agora não foi um Ford?
— Não, Cego. Foi um caminhão Mercedinho.
— Um caminhão Mercedinho! Quem diria! Faz tempo que não passa por aqui um caminhão Mercedinho. Grande caminhão. Forte. Estável nas curvas. Conheço o Mercedinho de longe... Conheço qualquer carro. Sabe há quanto tempo sento à beira desta estrada ouvindo os motores, amigo Gedeão? Doze anos, amigo Gedeão. Doze anos.
É um bocado de tempo, não é, amigo Gedeão? Deu para aprender muita coisa. A respeito de carros, digo. Este que passou não foi um Gordini Teimoso?
— Não, Cego. Foi uma lambreta.
— Uma lambreta... Enganam a gente, estas lambretas. Principalmente quando eles deixam a descarga aberta.
Mas como eu ia dizendo, se há coisa que eu sei fazer é reconhecer automóvel pelo barulho do motor. Também, não é para menos: anos e anos ouvindo!
Esta habilidade de muito me valeu, em certa ocasião... Este que passou não foi um Mercedinho?
— Não, Cego. Foi o ônibus.
— Eu sabia: nunca passam dois Mercedinhos seguidos. Disse só pra chatear. Mas onde é que eu estava? Ah, sim.
Minha habilidade já me foi útil. Quer que eu conte, amigo Gedeão? Pois então conto. Ajuda a matar o tempo, não é? Assim o dia termina mais ligeiro. Gosto mais da noite: é fresquinha, nesta época. Mas como eu ia dizendo: há uns anos atrás mataram um homem a uns dois quilômetros daqui. Um fazendeiro muito rico. Mataram com quinze balaços. Este que passou não foi um Galaxie?
— Não. Foi um Volkswagen 1964.
— Ah, um Volkswagen... Bom carro. Muito econômico. E a caixa de mudanças muito boa. Mas, então, mataram o fazendeiro. Não ouviu falar? Foi um caso muito rumoroso. Quinze balaços! E levaram todo o dinheiro do fazendeiro. Eu, que naquela época j á costumava ficar sentado aqui à beira da estrada, ouvi falar no crime, que tinha sido cometido num domingo. Na sexta-feira, o rádio dizia que a polícia nem sabia por onde começar. Este que passou não foi um Candango?
— Não, Cego, não foi um Candango.
— Eu estava certo que era um Candango... Como eu ia contando: na sexta, nem sabiam por onde começar.
Eu ficava sentado aqui, nesta mesma cadeira, pensando, pensando... A gente pensa muito. De modos que fui formando um raciocínio. E achei que devia ajudar a polícia. Pedi ao meu vizinho para avisar ao delegado que eu tinha uma comunicação a fazer. Mas este agora foi um Candango!
— Não, Cego. Foi um Gordini Teimoso.
— Eu seria capaz de jurar que era um Candango. O delegado demorou a falar comigo. De certo pensou: "Um cego? O que pode ter visto um cego?" Estas bobagens, sabe como é, amigo Gedeão. Mesmo assim, apareceu, porque estavam tão atrapalhados que iriam até falar com uma pedra. Veio o delegado e sentou bem aí onde estás, amigo Gedeão. Este agora foi o ônibus?
— Não, Cego. Foi uma camioneta Chevrolet Pavão.
— Boa, esta camioneta, antiga, mas boa. Onde é que eu estava? Ah, sim. Veio o delegado. Perguntei:
"Senhor delegado, a que horas foi cometido o crime?"
— "Mais ou menos às três da tarde, Cego" — respondeu ele. "Então" — disse eu. — "O senhor terá de procurar um Oldsmobile 1927. Este carro tem a surdina furada.
Uma vela de ignição funciona mal. Na frente, viajava um homem muito gordo. Atrás, tenho certeza, mas iam talvez duas ou três pessoas." O delegado estava assombrado. "Como sabe de tudo isto, amigo?" — era só o que ele perguntava. Este que passou não foi um DKW?
— Não, Cego. Foi um Volkswagen.
— Sim. O delegado estava assombrado. "Como sabe de tudo isto?" — "Ora, delegado" — respondi. — "Há anos que sento aqui à beira da estrada ouvindo automóveis passar. Conheço qualquer carro. Sem mais: quando o motor está mal, quando há muito peso na frente, quando há gente no banco de trás. Este carro passou para lá às quinze para as três; e voltou para a cidade às três e quinze." — "Como é que tu sabias das horas?" — perguntou o delegado. — "Ora, delegado"— respondi. — "Se há coisa que eu sei — além de reconhecer os carros pelo barulho do motor — é calcular as horas pela altura do sol." Mesmo duvidando, o delegado foi... Passou um Aero Willys?
— Não, Cego. Foi um Chevrolet.
— O delegado acabou achando o Oldsmobile 1927 com toda a turma dentro. Ficaram tão assombrados que se entregaram sem resistir. O delegado recuperou todo o dinheiro do fazendeiro, e a família me deu uma boa bolada de gratificação. Este que passou foi um Toyota?
— Não, Cego. Foi um Ford 1956.
Moacyr Scliar
— Não, Cego. Foi um Simca Tufão.
— Um Simca Tufão? ... Ah, sim, é verdade. Um Simca potente. E muito econômico. Conheço o Simca Tufão de longe. Conheço qualquer carro pelo barulho da máquina.
Este que passou agora não foi um Ford?
— Não, Cego. Foi um caminhão Mercedinho.
— Um caminhão Mercedinho! Quem diria! Faz tempo que não passa por aqui um caminhão Mercedinho. Grande caminhão. Forte. Estável nas curvas. Conheço o Mercedinho de longe... Conheço qualquer carro. Sabe há quanto tempo sento à beira desta estrada ouvindo os motores, amigo Gedeão? Doze anos, amigo Gedeão. Doze anos.
É um bocado de tempo, não é, amigo Gedeão? Deu para aprender muita coisa. A respeito de carros, digo. Este que passou não foi um Gordini Teimoso?
— Não, Cego. Foi uma lambreta.
— Uma lambreta... Enganam a gente, estas lambretas. Principalmente quando eles deixam a descarga aberta.
Mas como eu ia dizendo, se há coisa que eu sei fazer é reconhecer automóvel pelo barulho do motor. Também, não é para menos: anos e anos ouvindo!
Esta habilidade de muito me valeu, em certa ocasião... Este que passou não foi um Mercedinho?
— Não, Cego. Foi o ônibus.
— Eu sabia: nunca passam dois Mercedinhos seguidos. Disse só pra chatear. Mas onde é que eu estava? Ah, sim.
Minha habilidade já me foi útil. Quer que eu conte, amigo Gedeão? Pois então conto. Ajuda a matar o tempo, não é? Assim o dia termina mais ligeiro. Gosto mais da noite: é fresquinha, nesta época. Mas como eu ia dizendo: há uns anos atrás mataram um homem a uns dois quilômetros daqui. Um fazendeiro muito rico. Mataram com quinze balaços. Este que passou não foi um Galaxie?
— Não. Foi um Volkswagen 1964.
— Ah, um Volkswagen... Bom carro. Muito econômico. E a caixa de mudanças muito boa. Mas, então, mataram o fazendeiro. Não ouviu falar? Foi um caso muito rumoroso. Quinze balaços! E levaram todo o dinheiro do fazendeiro. Eu, que naquela época j á costumava ficar sentado aqui à beira da estrada, ouvi falar no crime, que tinha sido cometido num domingo. Na sexta-feira, o rádio dizia que a polícia nem sabia por onde começar. Este que passou não foi um Candango?
— Não, Cego, não foi um Candango.
— Eu estava certo que era um Candango... Como eu ia contando: na sexta, nem sabiam por onde começar.
Eu ficava sentado aqui, nesta mesma cadeira, pensando, pensando... A gente pensa muito. De modos que fui formando um raciocínio. E achei que devia ajudar a polícia. Pedi ao meu vizinho para avisar ao delegado que eu tinha uma comunicação a fazer. Mas este agora foi um Candango!
— Não, Cego. Foi um Gordini Teimoso.
— Eu seria capaz de jurar que era um Candango. O delegado demorou a falar comigo. De certo pensou: "Um cego? O que pode ter visto um cego?" Estas bobagens, sabe como é, amigo Gedeão. Mesmo assim, apareceu, porque estavam tão atrapalhados que iriam até falar com uma pedra. Veio o delegado e sentou bem aí onde estás, amigo Gedeão. Este agora foi o ônibus?
— Não, Cego. Foi uma camioneta Chevrolet Pavão.
— Boa, esta camioneta, antiga, mas boa. Onde é que eu estava? Ah, sim. Veio o delegado. Perguntei:
"Senhor delegado, a que horas foi cometido o crime?"
— "Mais ou menos às três da tarde, Cego" — respondeu ele. "Então" — disse eu. — "O senhor terá de procurar um Oldsmobile 1927. Este carro tem a surdina furada.
Uma vela de ignição funciona mal. Na frente, viajava um homem muito gordo. Atrás, tenho certeza, mas iam talvez duas ou três pessoas." O delegado estava assombrado. "Como sabe de tudo isto, amigo?" — era só o que ele perguntava. Este que passou não foi um DKW?
— Não, Cego. Foi um Volkswagen.
— Sim. O delegado estava assombrado. "Como sabe de tudo isto?" — "Ora, delegado" — respondi. — "Há anos que sento aqui à beira da estrada ouvindo automóveis passar. Conheço qualquer carro. Sem mais: quando o motor está mal, quando há muito peso na frente, quando há gente no banco de trás. Este carro passou para lá às quinze para as três; e voltou para a cidade às três e quinze." — "Como é que tu sabias das horas?" — perguntou o delegado. — "Ora, delegado"— respondi. — "Se há coisa que eu sei — além de reconhecer os carros pelo barulho do motor — é calcular as horas pela altura do sol." Mesmo duvidando, o delegado foi... Passou um Aero Willys?
— Não, Cego. Foi um Chevrolet.
— O delegado acabou achando o Oldsmobile 1927 com toda a turma dentro. Ficaram tão assombrados que se entregaram sem resistir. O delegado recuperou todo o dinheiro do fazendeiro, e a família me deu uma boa bolada de gratificação. Este que passou foi um Toyota?
— Não, Cego. Foi um Ford 1956.
Moacyr Scliar
domingo, 30 de janeiro de 2011
TRAVELLING
Tarde da noite recoloco a casa toda em seu lugar.
Guardo os papéis todos que sobraram.
Confirmo para mim a solidez dos cadeados.
Nunca mais te disse uma palavra.
Do alto da serra de Petrópolis,
com um chapéu de ponta e e um regador,
Elizabeth reconfirmava, “Perder
é mais fácil que se pensa”.
Rasgo os papéis todos que sobraram.
“Os seus olhos pecam, mas seu corpo
não”,
dizia o tradutor preciso, simultâneo,
e suas mãos é que tremiam. ‘É perigoso”,
ria Carolina perita no papel Kodak.
A câmera em rasante viajava.
A voz em off nas montanhas, inextinguível
fogo domado da paixão, a voz
do espelho dos meus olhos,
negando-se a todas as viagens,
e a voz rascante da velocidade,
de todas três bebi um pouco
Ana C.
Guardo os papéis todos que sobraram.
Confirmo para mim a solidez dos cadeados.
Nunca mais te disse uma palavra.
Do alto da serra de Petrópolis,
com um chapéu de ponta e e um regador,
Elizabeth reconfirmava, “Perder
é mais fácil que se pensa”.
Rasgo os papéis todos que sobraram.
“Os seus olhos pecam, mas seu corpo
não”,
dizia o tradutor preciso, simultâneo,
e suas mãos é que tremiam. ‘É perigoso”,
ria Carolina perita no papel Kodak.
A câmera em rasante viajava.
A voz em off nas montanhas, inextinguível
fogo domado da paixão, a voz
do espelho dos meus olhos,
negando-se a todas as viagens,
e a voz rascante da velocidade,
de todas três bebi um pouco
Ana C.
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